A floresta das parteiras

Nesse dia das mulheres, queria compartilhar com vocês uma parte (sim, é só uma parte) de um dos textos jornalísticos mais lindos que eu já li. De Eliane Brum para a revista Época, “As parteiras da floresta” pode ser encontrado na íntegra e em sua versão mais deliciosa (a versão que encontrei online no site da revista foi remodelada para a praticidade, cortando detalhes da poesia que sai da fala peculiar das parteiras e da visão humana da repórter) no livro “O Olho da Rua”, de 2001, onde Eliane conta essa e outras histórias, num jornalismo literário que nasce do que se ouve e do que não se ouve – só se sente.

A todas vocês, mulheres lindas e fortes, um super beijo e parabéns!

“Elas nasceram do ventre úmido da Amazônia, do norte extremo do Brasil, do estado ainda desgarrado do noticiário chamado Amapá. O país não as escuta porque perdeu o ouvido para os sons do conhecimento antigo, a toada de suas cantigas. Muitas desconhecem as letras do alfabeto, mas lêem a mata, a água e o céu. Emergiram dos confins de outras mulheres com o dom de pegar menino. Sabedoria que não se aprende, não se ensina, nem mesmo se explica. Acontece apenas. Esculpidas por sangue de mulher e água de criança, suas mãos aparam um pedaço do Brasil.

O grito atávico, feminino, ecoa do território empoleirado no cocoruto do mapa para lembrar ao país que nascer é natural. Não depende de engenharia genética ou operação cirúrgica, não tem cheiro de hospital. Para as parteiras da floresta, que guardaram a tradição graças ao isolamento geográfico de seu berço, é mais fácil compreender que um boto irrompa do igarapé para fecundar moça donzela do que aceitar que uma mulher marque dia e hora para arrancar o filho à força.

Quase toda a da população do Amapá, menos de meio milhão de habitantes, chega ao mundo pelas mãos de setecentas pegadoras de menino. São mulheres que conjugam os verbos no plural, abusam dos pronomes coletivos. Na lógica de sua vida, o eu é estrangeiro e não detém privilégios.

Encarapitadas em barcos ou tateando caminhos com os pés, a índia Dorica, a cabocla Jovelina e a quilombola Rossilda são guias de uma viagem por mistérios antigos. Cruzam com Tereza e as parteiras indígenas do Oiapoque. Unidas todas elas pela trama de nascimentos inscritos na palma da mão. “Pegar menino é ter paciência”, recita a caripuna Maria dos Santos Maciel, a Dorica, a mais velha parteira do Amapá. Aos 96 anos, mais de 2 mil índios desembarcaram no mundo pelas suas mãos pequenas, quase de criança. Dorica – avó, mãe, madrinha de centenas de filhos de pegação – nem mesmo gostaria de possuir o dom. “O dom é assim, nasce com a gente. E não se pode dizer não”, explica. “Parteira não tem escolha, é chamada nas horas mortas da noite para povoar o mundo.”

Como um espectro feminino, Dorica navega pelos rios do Oiapoque alumiada apenas por uma lamparina. Viaja acompanhada da irmã Alexandrina, de 66 anos, de quem fez o parto de nove dos onze filhos. “Mulher e floresta são uma coisa só”, diz Alexandrina. “A mãe-terra tem tudo, como tudo se encontra no corpo da mulher. Força, coragem, vida e prazer.”

Quando os remos fatiam o rio silencioso, são perseguidos pelos olhos de lanterna dos jacarés. “Não tem perigo. Eles só comem cachorro e sandália”, tranqüiliza Dorica. “Abrimos um, dia destes, e era só o que tinha.” A parteira lembra dos 16 abortos de seu ventre, impedida de ter um filho por desígnios que não lhe cabem indagar. “Tô cansada”, diz. ”Queria pedir a Deus o meu aposentamento de parteira.”

Deus é ainda menos apressado que o ministro da Previdência. Até agora não deu resposta ao pedido. Assim, Dorica crava os pés nus no chão sempre que alcança o destino e acocora-se entre as pernas da mulher. Alexandrina abraça o corpo da gestante com as pernas, por trás. Das entranhas do corpo feminino Dorica nada arranca, apenas espera. Puxa a barriga da mãe endireitando a criança. Lambuza o ventre com óleo de anta, arraia ou mucura para apressar as dores, recita rezas e encantamentos para consumar o mistério. Perfura a bolsa com a unha e corta o cordão umbilical com a flecha. “Pegar menino é esperar o tempo de nascer”, ensina. “Os médicos da cidade não sabem e, porque não sabem, cortam a mulher.”

Por oito dias Dorica abandona a roça de mandioca. É missão da parteira lavar, cozinhar, puxar o útero toda manhã e toda tarde para que a mulher fique sã. É obrigação pentear o seio com pente fino e água de uma cuia branca para que o leite jorre entre os lábios do menino. É sabedoria aspirar o nariz do bebê com a boca até ouvir o choro. Cumpridas as etapas, Dorica entrega a mulher ao marido: “O que eu podia fazer pela sua mulher eu já fiz. Agora você tem de cuidar da família”. O marido agradece. “Se eu puder lhe dar alguma coisa, lhe dô.” E Dorica responde: “Deus dá o pago”. E o diálogo se encerra. É tudo. E é assim há mais de 500 anos.

Dos mais de 2 mil partos consumados no chão da Amazônia, Dorica só perdeu três. Não passa um dia sem lamentar. “É uma criança que faltou na comunidade”, constata. Na cultura dos povos da floresta, ninguém é substituível. Ou descartável. A vida que feneceu antes de vingar será chorada para sempre.

A parteira dá adeus enquanto a canoa some no rio. A arara a observa de um galho, um bando de papagaios corta o céu aos gritos, uma menina se banha na água do igarapé preparando-se para a escola. é um dia comum. Dorica pousa a mão no velho coração e, pronunciando palavras silenciosas, arranca de lá a bênção aos que partem. Depois, dá as costas e vai pitar tabaco enquanto espera a hora em que o quinto filho da última barriguda da aldeia, a índia Ivaneide Iapará, 33 anos, irá esmurrar a porteira do mundo pedindo passagem.

As parteiras da floresta comungam hoje da religião católica. Algumas adotaram as pentecostais. Outras são espíritas, batuqueiras. Mas no coração resiste em segredo uma religião antiga. Nela, a grande deidade era feminina, mulher. Aquela, dizem, que governa o começo-meio-fim, o nascimento-vida-morte, o presente-passado-futuro.

No tempo dos ancestrais, a relação entre o sexo e os bebês era desconhecida, ponto de interrogação que gerou os mitos da cobra-grande ou do boto lascivo. Hoje, mesmo invocando um deus cristão masculino, o Espírito Santo ou os orixás, elas são as guardiãs do mistério, transmitido pelas mães e avós numa corrente que se perde nos séculos. Quando remam quilômetros por rios ou vão de pés para auxiliar uma igual a consumar o milagre, o parto é resistência e subversão, é a prova de que cada mulher tem um pouco da deusa. Elas, que ainda hoje obedecem aos chamados, não estudaram essa história nos livros. Mas de algum modo guardam nos ossos a lembrança do calor da fogueira.”

O amor não basta

Desde os meus primeiros namoricos, minha mãe, reconhecendo meus momentos de posicionamento inseguro e possessivo (aquele que a gente até tenta disfarçar, mas que aos 15 atropela qualquer possibilidade de raciocínio e sensatez) sempre me deu o mesmo conselho super básico que eu, quando mais nova, conseguia ignorar rigorosamente, apesar de entender e ansiar muito pela capacidade emocional para conseguir colocá-lo em prática: a única coisa que resta quando a outra pessoa está longe de você são as lembranças de quando está perto de você.

Uma ideia simples, que deveria, por exemplo, destruir qualquer faísca de comportamento violento direcionado ao parceiro. Aos 15, eu achava que isso seria fácil de fazer quando eu fosse mais “adulta e centrada”. Aos 27, eu penso que era mais fácil aos 15.

Aos 15, eu só tinha que lidar com a ideia do amor, por mais ilusória e equivocada que ela fosse (e quanto mais ilusória mais equivocada) e com as babaquices que ela envolve, tipo ciúme. Os momentos com o outro se resumiam a momentos com o outro. Programados, pensados, preparados, limitados.

Aos 27, vivendo há mais de um ano sob o mesmo teto que o senhor meu mino, eu tenho que lidar com: a minha essência, com toda a realidade e a humanidade que brotam a partir das minhas mazelas (minhas tretas), com a essência e a realidade do outro (tretas do outro), com as diferenças culturais e de métodos de cada um para cada coisa rotineira (a frescura geral) as decisões conjuntas sobre problemas práticos comuns (tretas da casa) AND lidar com as tretas ligadas ao relacionamento em si. Aqui é que o amor só funciona se for… inteligente.

O amor que “faz sentido” é aquele que faz com que duas pessoas queiram se ajudar a evoluir e se sintam felizes e seguras juntas, mas o caminho até aí é uma pica lôca que tem que ser planejada meio estrategicamente até, porque inclui aprender a ouvir e ceder mais e a se comunicar melhor com o outro, coisa que nem sempre a gente sabe fazer até certo ponto da vida (se é que um dia aprende).

Sem essa inteligência trabalhada, o amor que convive com a tpm e a louça suja pode ser uma bomba-relógio. Sabe essas histórias de “namoraram 10 anos e em menos de um ano vivendo juntos se separaram”? Real shit.

É que o amor não é só o amor. É tudo aquilo que vai fazer ele ter sentido quando chegar o ponto em que a gravidade já atuou mais do que a gente queria. Despidos do sexo jovem selvagem descolado e das loucas aventuras que chacoalham a vida adulta, quando resta um corpo frágil e muito mais tempo do que estamos acostumados a ter pra prestar atenção aos detalhes da vida, o que é que você quer ter?

Eu penso que ser feliz conversando, debatendo e viajando sobre o presente, passado e futuro com o outro é a coisa mais tesuda do mundo e é o que nos resta lá na frente, me parece a cola da cena do casal que segue junto até o fim, porque sim, porque basta.

Por isso tudo a ideia de uma ligação nascendo entre uma máquina e um homem não me espanta. Nestes dias, onde nos deslocamos desnorteados por labirintos de concreto dos centros abarrotados de gente que não se reconhece como igual, terminando o dia em camas e fugas cada vez maiores, que nunca bastam para cessar o anseio por simplesmente ser ouvido.

Hoje (14/02), estreia nos cinemas o novo filme de Spike Jonze, “Her”, que conta a historia de um homem que vai encontrar o amor num lugar improvável. O diretor, ao terminar o filme, mostrou o trabalho a algumas pessoas e registrou vários pontos de vista sobre o que seria o amor no mundo moderno, num documentário ao mesmo tempo delicado e forte:

Quando você acabar de limpar esse cisco no seu olho, se estiver a fim, deixa aí nos comentários a sua opinião sobre o assunto. E fica a dica pro cineminha da sexta de valentine’s day! Beijas!

 

A carta que eu queria ter recebido

Oi, Micky,

Você tem doze anos, quase treze. Já é quase dia das crianças e eu quis te dar um presente! Porque SIM, por mais que você negue, você ainda é uma criança.

E aaantes que você esbraveje, saia batendo as portas e se enfie no quarto com os seus incensos e cristais, espera eu dizer que você é uma criança incrível e que todas as histórias que aconteceram até agora (tipo sobre você começar a falar antes de andar e ficar no portão da casa da vó chamando estranhos na rua enquanto ainda nem levanta a busanfa do chão, sobre ter fugido da creche com menos de três anos de idade e sobre saber o nome do presidente da Rússia com cinco), serão sempre contadas com muita risada e sempre vão te dar muito orgulho.

Não tenha raiva de ser criança, é a fase da sua vida onde você foi mais autêntica e genial e, te juro, daqui pra frente isso fica cada vez mais difícil. É que mesmo que você seja, vai ser mais difícil se enxergar assim, porque vão pedir mais de você e você vai fazer o mesmo.

Mas sobre isso, eu queria te falar uma coisa muito, mas muito importante, que é o motivo de eu te escrever essa carta. No próximo ano, você vai sentir muita necessidade de ser outra pessoa. Porque mudou de escola, porque deu seu primeiro beijo, mudou de turma e quer ser mais legal. Tudo bem, faz parte. Mas eu preciso te avisar que nem tudo vale a pena.

Por exemplo, você vai querer colocar um piercing no supercílio que depois de dois anos vai ser a coisa mais ridícula do mundo e você vai poder tirar mas a cicatriz vai ficar, sua idiota uahauha. Mas tá, isso é de boa. Você também vai querer pintar o cabelo de vermelho porque tá na moda. Seu cabelo vai ficar uma bosta mas depois cresce, então é de boa também (mas não faça de novo aos dezessete!!! sério!!).

Outra coisa é que você vai gostar muito de um menino, escrever coisas, fantasiar e… ele vai querer a sua amiga que já tem peitos. Depois de um tempo você vai acabar ficando com ele e descobrindo que ele beija mó mal e vai desencanar dele em uma semana. Então não chore tanto, nem deseje tanto ter peitos porque peito que vem cedo, cedo cairá.

Mas agora, o mais importante: antes do fim do próximo ano, você vai ganhar uns dois quilinhos. Isso vai te deixar com pouco mais de 45 quilos, que eu te juro que não é NADA! É o peso perfeito pra você! Então, quando você ler aquela matéria da Reader’s Digest contando a história do menino com bulimia, por favor, POR FAVOR: não faça igual.

Vou te adiantar umas coisas que você poderia descobrir tarde demais:

1 – você vai se machucar muito. Muito mesmo. Desde as primeiras tentativas de forçar o vômito, até quando você já souber como fazer. Vai machucar sua garganta, seu esôfago, seu estômago, suas mãos. Vai vomitar sangue. Isso mesmo, tenta imaginar o quão horrível pode ser esse momento. Mas você pode escolher não passar por ele.

2 – você vai ficar doente, fraca, triste, sem vontade de sair da cama. Por isso, vai perder um ano na escola, amigos, momentos felizes e vai ser muito, mas muito difícil se perdoar.

3 – você vai ficar FEIA. Nessa tentativa de emagrecer e ser linda, você vai ficar horrível. Porque olhando no espelho procurando paranoicamente os seus OSSOS, você vai ignorar o seu ROSTO, que vai ficar inchado, parecendo uma lua cheia. São as suas glândulas de saliva que vão inchar de tanto vomitar. Sem contar o seu cabelo que vai cair e quebrar e a sua pele que vai ficar toda cagada. Sério, tipo uma caveira seca, é isso que você quer? Você vai rasgar muitas, muitas fotos por isso depois. Sem contar que, quando você vomita comida, o que vai embora é sua massa magra, não gordura. Ou seja, você vai ficar flácida e vai ter que correr atrás do prejuízo muuuito antes que todas as meninas normais.

O que nos leva ao último e pior ponto: eu te juro, mesmo, que se você começar, nunca mais vai se sentir normal. Ao contrário do que você possa pensar, você não vai conseguir parar quando quiser. Acredita em mim, não vai. Porque uma hora isso vai virar seu escape para todas as frustrações e vai ser tão, mas tão normal, que mesmo quando você aprender a se controlar, sempre vai ser um esforço enorme. Como se NÃO fazer é que não fosse normal. Nunca mais a sua relação com a comida vai ser natural, você nunca mais vai comer sem culpa e vai chorar muito muito quando perceber tudo isso.

Em algum canto do seu ser, a criança genial ainda vai estar guardada, então, se decidir não me ouvir e quiser passar por tudo isso mesmo assim, ainda vai se tornar uma pessoa legal, vai conseguir coisas legais, você não vai se afundar. Mas, ao olhar pra trás, vai perceber quanto tempo e oportunidades perdeu, tentando se encaixar numa perfeição que não existe! ME ESCUTA: NÃO EXISTE!

As pessoas da TV, elas não são tão de verdade e lindas como hoje você pensa. Muitas delas sofrem com tudo isso que você pode evitar. Muitas são lindas por fora e podres por dentro. Muitas não dormem e não têm paz.

E te juro que não compensa.

Então, por favor: se cuida. Lembra que uma pessoa linda é uma pessoa que se ama e ama a vida! Que pode até querer mudar uma coisinha ou outra, mas se ama tanto que NUNCA vai se machucar pra conseguir isso. E muito menos colocar a beleza em primeiro lugar a ponto de viver em função disso e não ter outra função no mundo (que tá precisando muito, muito de gente legal e linda).

Se a coisa apertar, não sofre calada, não procura na internet nem nas amigas da mesma idade que sabem tão pouco quanto você: fala pra sua mãe. Fala a verdade e pede ajuda, porque provavelmente nesse momento de confusão, ela te ama mais do que você mesma e, por isso, vai saber a coisa certa a fazer para o seu bem.

Beijos, e a gente se vê em 14 anos!

(essa carta teria sido perfeita pra mim, pra me poupar do terror que foram todos esses anos de dor – que ainda não acabaram, porque a luta é até o fim – mas a ideia dela ainda pode ser perfeita pra você, ou pra qualquer serzinho amado – criança ou não – que a gente possa salvar de se perder de si mesmo. BE THE CHANGE!)

Um recado às mulheres que semeiam vida

Quando eu tinha 12 anos, arrumei meu primeiro namoradinho. A gente mal sabia o que fazer, eu mal tinha dado o meu primeiro beijo e nem sabia mexer cas coisa lá embaixo mas assim que a paranóica da minha mãe descobriu, já me arrastou até uma ginecologista pra consulta, anticoncepcional, sermão sobre um monte de coisa que nem fazia sentido pra mim ainda e, além disso, daí pra frente me aporrinhava todo ano pra fazer aquela coisa insuportável que é o exame preventivo. Marcava e me levava com a cara emburrada. Desde os 12 fucking anos.

GRAZADEUS, SALVE SALVE DONA ELIANA.

Quem sabe se mais meninas tivessem uma dona Eliana paranóica que as colocasse em contato regular com um profissional de ginecologia, nós não teríamos perdido mais 4 MIL VIDAS no Brasil em 2012 para o CÂNCER DE COLO DO ÚTERO.

Fiquei a par dessa informação na última quinta, numa palestra-chacoaio com o pessoal da Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia. Esquece o nome complicado e prestenção no que interessa:

Se você é mulher fêmea do sexo feminino você sabe que o preventivo é um momento infeliz das nossas vidas. Sem nem te pagar um drink chegam com um bagulho de metal gelado que é basicamente uma alavanca pra enfiar em você e abrir caminho rumo ao seu útero, enquanto conversam com você sobre um assunto aleatório da atualidade (ou sobre a sua vida e família se é um profissional que vc já conhece) e você fica ali querendo se desintegrar pelo incômodo da situação de estar exposta e sendo cutucada pra coleta de material por… sei lá, menos de um minuto.

Mais ou menos um minutinho incômodo é o que dura a forma mais acessível de prevenção de um tipo de câncer que representa a QUARTA PRINCIPAL CAUSA DE MORTE ENTRE AS BRASILEIRAS.

Acontece que uma das principais causas do desenvolvimento do câncer de colo do útero é o HPV, um vírus sexualmente transmissível que tá por aí, é bastante silencioso e não muito levado a sério aqui na terra brasilis. Estudos pelo mundo comprovam que 80% das mulheres sexualmente ativas serão infectadas pelo vírus em algum momento da vida. OI TEN TA POR CEN TO.

Agora, a treta: justamente os tipos mais frequentes desse vírus, vêm com o brindezinho de POTENCIALIZAR O RISCO DE CÂNCER EM ATÉ 100 VEZES.

Só que, segundo os resultados de uma pesquisa feita pelo Ibope, 66% das brasileiras não relacionam o vírus com o câncer. Mas isso não é o pior: 40% NÃO RELACIONAM O EXAME PREVENTIVO COMO FORMA DE PREVENÇÃO DO CÂNCER.

Como eu cresci fazendo o preventivo todo ano e sabendo exatamente porque fazia, esse dado me deixou impressionada. Mas não mais que esse: 31% das entrevistadas NUNCA REALIZARAM ou fizeram APENAS UMA VEZ NA VIDA o papanicolau.

Gente, a gente não pode escolher ser assaltada e tomar um tiro, ser atropelada, cair e bater a cabeça e muitas outras formas de morrer. Mas se dá pra escolher não morrer de um câncer, com uma consultinha por ano, que pode ser feita pelo SUS, não dá pra fazer parte dessas estatísticas, né?

Todas essas informações levaram à campanha MULHERES QUE SEMEIAM VIDA, uma iniciativa ótima que usa as redes sociais como plataforma de conscientização sobre o assunto. Afinal, já que tá todo mundo no Facebook, porque não usar ele pra ampliar o acesso à informação e tentar diminuir o número de mortes no Brasil?

A cada 25 likes na página, uma árvore será plantada em homenagem às brasileiras que morreram vítimas da doença no ano passado, como eu comentei no começo do texto.

Mas, independente disso, curtam pra ler mais, entender mais, pra SE PREOCUPAR MAIS. Não é brincadeira, não dá pra ir deixando pra depois quando o depois pode ser muito tarde. E muito menos quando o que te separa de um “muito tarde” e nenhum depois é um examezinho de menos de um minuto, que é acessível no país todo de forma gratuita!

E, vale lembrar, existe uma informação que talvez seja mais chata do que o próprio exame: suas filhas, por mais novas que sejam, um dia VÃO TRANSAR. Acostume-se com essa ideia e ajude-a a se proteger e se cuidar. Não deixe o medo da perda da inocência da sua menininha ser responsável pela perda da VIDA da sua menininha.

E é isso aí, todo mundo ligando pra gineco e vamo que vamo!

Fazer o bem, mas OLHANDO MUITO BEM A QUEM

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espera eu comprar, senhor ladrão

Em 2010 comprei um lindo celular. Eu mesma escolhi, era TOUCH e ROSA, tipo super descolado e lindo.
Eu estava apaixonada por ele. Até carregava um paninho pra limpar a tela.
Completava exatamente 2 semanas que havia comprado quando, indo trabalhar num puta sol da porra, em plena 13h30 da tarde, um cara desceu de uma moto e veio em minha direção. Ele falou alguma coisa, eu não entendi. Com toda a minha simpatia idiota, sorri e disse “Como? Não te entendi!”

E ele repetiu, pausadamente: “Isso é um assalto. Cala a boca e me passa o telefone.”

Eu tinha pago 1 parcela. Eram 5.

Minha irmã ficou com dó da minha estupidez e me deu um telefone que tinha lá, extra, uns dias depois.
Fiquei super contente com ele. Não era rosa, não era touch. Mas pra quem ficou sem celular por pensar que o assaltante era alguém perdido nas ruas de São Paulo pedindo informação tava ótimo.

Daí fui comprar um café, coloquei o celular na bolsa, paguei o café e o celular já nao estava mais na bolsa. PUF. Nem vi.
O café mais caro da minha vida.

Comprei um outro, e fiquei com ele 1 ano. Ano passado, resolvi dar de presente pra minha mamma um telefone, porque o dela dava até dó.

Numa super promoção, comprei o dela e um igualzinho pra mim. Senti que era meio especial. É idiota, mas sabe essas coisas que a gente faz uma relação tonta e sentimental?

Aí, já aqui em Buenos Aires, num sábado, fui visitar uma amiga. Ela estava sozinha e eu quis ir fazer companhia, então fui até a casa dela (1 hora de busão), mas antes passei na padaria que ela curte e comprei uns doces e uns pães, pra tomar um café da tarde com ela.

Voltava contente pela tarde tranquila, cantarolando na rua e nem notei que uma moto parou ali — notei depois, quando um cara me roubou a mochila e me jogou no chão enquanto eu tentava bater nele e o xingava (em espanhol, pra constar. O que é engraçado, porque nunca pensei que em um momento de pânico ia xingar em espanhol. Chamava ele de “hijo de puta” e mandava soltar minha mochila (coisa que ele não ia fazer, afinal, estava tentando roubá-la).

Isso faz uns 2 meses. Depois disso, juntei uns trocadinhos e comprei outro telefone. Afinal, esse ano dei meu grito de independência e fui tentar a vida em outro país e não tá fácio o financeiro, minha gente.

E eis que hoje… hoje aconteceu algo simplesmente sensacional.

Acordei, mandei mensagem de bom dia pros meus amigos daqui, combinei de sair com um de sair para passear de bicicleta à tarde, porque hoje trabalho só meio período. Por esse motivo, saí de casa sem bolsa. Porque, né? Super incômodo sair pra passear de bike com bolsa e no último assalto me roubaram a mochila.

Saí de casa, coloquei o celular no bolso do casaco e fui tomar o ônibus pro trabalho.

Descendo na parada do ônibus, um velho passou mal perto de mim. Caiu uns 3 degraus da escada, eu o segurei. Uma senhora ajudou. Eu o ajudei a descer, ele colocou a mão no peito e começou a passar mal.

Minha mãe me deu uma boa criação. Ele estava tendo um ataque cardíaco. Eu estava atrasada mas, pô, deixá-lo lá não dava. No alto do meu heroísmo, ajudei o velho, ajudei a atravessar a rua e ele disse “Foi um susto, foi um susto… Obrigado, obrigado.”

E o deixei. Aí meti a mão no bolso pra ver a hora e… cade meu celular? Pensei “Porra! Me roubaram no busão enquanto ajudava o velho, puta mancada!”

Saí correndo como louca no meio de uma avenida de 3 faixas. Olhei e tinha 4 ÔNIBUS IGUAIS. Cena de filme, já me deu um ataque de nervo. Me meti no meio de dois ônibus, falei pro motorista que haviam me roubado.

Subi, não era aquele. Desci, entrei no do lado. Também não era.

Gritei igual uma gralha doida: “ME ROUBARAM E EU NAO SEI EM QUAL ONIBUS!”
Gritei pro motorista “SEGUE AQUELE ONIBUS!”
Ele seguiu, eu desci, entrei e não era aquele também! Falei pro motorista, “AVISA O ÔNIBUS DA FRENTE PRA NÃO SAIR!!” mas era tarde. O ônibus certo se foi.

Daí desci, chorando já. Na parada do ônibus, a senhora que me ajudou com o velho ligou os pontos — o velho se recuperou de um ataque cardiaco JUST LIKE THAT e roubaram meu telefone. Óbvio. Foi o velho.
Voltei correndo, mas né? Entre todas as trocas de ônibus, andei 4 quadras. Nem se ele estivesse mesmo tendo um ataque cardíaco ainda estaria lá.

Então tô meio triste, porque passei 22 anos aprendendo a ser uma boa pessoa e quando tenho a chance de exercer isso com um velho tendo um ataque cardíaco, ele me rouba.

Agora estou aqui, em outro país, sem telefone e sem dinheiro pra comprar um.
Dizem que o Universo traz de volta, né? Nesse ritmo, o Universo vai me dar de presente uma loja de celulares inteira.

Se alguém aí quiser me dar de presente adiantado ou atrasado (já que estamos exatamente no meio do caminho para o meu aniversário), eu super aceito. E se quiserem dar de presente para a minha irmã, repassem o presente pra mim, pois ela já perdeu na areia, já derrubou na piscina, já esqueceu no táxi umas 57 vezes e, de alguma forma, aquela pilantra sempre arruma um novo. Ô mundo injusto.

Ygor, o hamster russo

hamster
“Soon…”

Um dia eu acordei e senti que precisava ter um mascote. É que passo muito tempo sozinha aqui em Buenos Aires e, poxa, uma vidinha fazendo companhia pra gente é muito amor. Mais: eu precisava doar meu amor a uma vidinha.

Entao decidi comprar um peixe.
Estava super contente, pensando “vou ensiná-lo a fazer acrobacias!” mas quando compartilhei isso com a minha irmã, ela retrucou: “você não pode ensinar isso a um peixe.” Eu disse “claro que posso, vou dar comida quando ele fizer isso e..” e ela: “não.” Aí decidi comprar um hamster.

Cheguei no petshop e avistei os hamsters sírios. Aqueles douradinhos, gordinhos e fofos. Estavam todos dormindo com cara de lindos e de ternura pura.
No vidro ao lado, havia uma casinha e vi que tinha alguma coisinha embaixo. Levantei a casinha, sai um hamster cinza correndo, sobe na rodinha da gaiola e me olha com uma cara meio de raiva tipo “véi, por que você fez isso?”
Era um Hamster Russo. Comprei esse, claro. Achei ele muito mais divertido. Dei o nome de Ygor, o Russo.

No caminho à minha casa, já percebi que ia dar merda: tentava fazer carinho nele, ele me mordia. Mó grosseiro.
Cheguei em casa, solto o hamster na nova casinha dele – pela qual paguei uma puta grana, porque comprei uma super moderna – e o filho da puta agarra meia duzia de grãozinhos de comida, se esconde dentro da rodinha e NÃO SAI MAIS DE LÁ.

Quando saiu, tentei pegar ele na mão ele correu pela casa inteira, se escondendo em cada canto, me olhando com cara de “sai, porra!” e “o que cê está fazendo?!”
Parou no potinho de comida, comeu um pouco e eu agarrei ele na marra (tomando muito cuidado pra nao esmagá-lo).
Em menos de 1 minuto ele cagou e cuspiu toda a comida que tinha na bochecha… na minha mão.
E foi assim todo o fim de semana. Ele me odiando, eu tentando fazer carinho nele, ele me cuspindo comida e cagando na minha mão.
Daí no domingo à noite decidi que ia limpar a casinha dele, pra ter uma casinha mais confortável. Sei lá, eu fico feliz quando troco o lençol da cama, então na minha cabeça fazia sentido.

Mas minha estupidez foi tanta que eu comprei um desinfetante cheiroso. Pro hamster. Limpei a casinha toda e coloquei ele de volta. E foi aí que começou meu problema. O Ygor ficou puto. Começou a cheirar tudo, a tentar escapar da casinha, deu um salto mortal, pulou pra fora da casa, tentou entrar no lixo onde estava a sujeira da casinha dele e… começou a bater a cabeça na parede.

Ele tomava distância na metade do quarto, saía correndo e se jogava contra a parede.
Eu entrei em pânico, comecei a gritar “Você vai se matar!”, tentei segurá-lo, coloquei ele no lixo com a sujeira da outra casa, tentei dar comida, tirei ele do lixo, coloquei na casinha, tranquei ele lá dentro e ele ficou lá, se jogando na parede da casinha.

Comecei a chorar. Ele escalando as paredes da casa, eu derrubando ele, ele me mordendo.

Aí ele parou. Parou, sentou no potinho de comida e comeu. Comeu, comeu, comeu sem parar.
Liguei pra um amigo daqui e contei a história e ele disse “Maira… Eu acho que você drogou seu hamster com desinfetante e agora ele tá com uma puta larica. Fica de olho, se ele dormir, certeza.”
E foi exatamente isso que aconteceu. Passou a fome absurda, ele dormiu. No meio da comida.

Hoje acordei e ele estava calminho da vida. Acendi a luz do quarto e ele ficou em pé na casinha. Abri, ele subiu na minha mão e ficou ali. E ficou uns lindos 15 minutos, pedindo carinho.
Eu, com a maior cara de idiota, feliz da vida querendo mostrar pra alguém, corri no quarto de um dos meninos e falei “OLHA OLHA!! Ele não me odeia!!” e fiquei ali naquele momento lindo até que ele cagou e cuspiu comida na minha mão outra vez.

Falei “você é um ogro idiota, Ygor.” – coloquei ele na casinha e fui lavar a mão.

Enfim, vim pro trabalho pensando nisso. Será que eu comprei 15 minutos de carinho dele com um pouco de desinfetante que deixou ele louco? Cogitei comprar um pouco mais, pelo menos até ele se acostumar comigo…

Mas a maior dúvida é: se ele ficou tão feliz com desinfetante… será que se eu limpar a casinha com vodka, ele me ama pra sempre? Afinal, ele é um Hamster Russo, né?

TPMaira (sim, a gente curte trocadilho com nome, foda-se)

Pra mim, há TPMs e TPMs. Ainda assim, é um troço difícil de explicar ou entender como acontece (e se eu acho complicado sendo mulher, coitados dos homens).

Só sei que eu, por exemplo, nunca fui de ficar puta da vida, ficava sentimental.
Chorava por tudo. Mesmo. Chorava porque o chuveiro desceu um jato de água fria, porque tropecei na calçada, porque derrubei meu pão com manteiga no chão e estava atrasada pro trabalho. Assim, sem explicação.
É estranho, mas é verdade. Tudo parece a gota d’água das coisas ruins que acontecem com a gente. Sério, muito forte.

No começo desse ano, fui na ginecologista que me conhece há 10 anos, então sempre pergunta como estou me sentindo, o que estou fazendo da vida, me pergunta sobre minha mãe, minha irmã e a gente conversa um pouquinho durante a consulta.

Só que dessa vez, honestamente, não sei bem o que falei pra ela (porque, na minha cabeça, eu estava só atualizando sobre os meses que passaram), só sei que ela disse “… vou trocar sua pílula por uma que controla um pouquinho mais a TPM”.

E foi assim que começou o desastre.

Ao que me parece, eu nunca tinha me dado conta dos efeitos da TPM em mim e tomar a nova pílula foi uma entrada para o paraíso. Me senti super bem, tranquila, calma e nem lembrava que estava nessa semana maldita.

Só que mês passado, quando dois vagabundos covardes de merda roubaram minha mochila, levaram com ela minha última cartela de pílulas-ingresso-para-o-paraíso.

E eu tô em outro país. Não existe a merda da pílula aqui. E a minha cartelinha foi gentilmente jogada no lixo por um filho da puta que não precisava dela.

Eu tinha que esperar 1 mês e meio até minha irmã me trazer mais cartelas e como não é bem assim que funciona isso, troquei por uma outra pílula. E essa, me mostrou o lado negro da força.

Passei a semana com ódio de tudo. Caiu uma moeda do meu bolso, eu abaixei, peguei e taquei ela longe dizendo “cai então, filha da puta!”.

Cheguei em casa e um dos meninos (que não trabalha) estava em plena sexta-feira, 14h, descabelado e de pijama e eu me tranquei no quarto com raiva por ele não fazer nada o dia inteiro (como se eu tivesse algo a ver com isso).

Li notícias sobre o Feliciano e fiquei com raiva dele. Depois fiquei com raiva do Papa. Depois fiquei com raiva de todo e qualquer fanático, até de fanatismo-não-religioso.

Vi uns 15 postando um gif com um gordinho dormindo e a legenda “melhor gif de gordo” e, quando fui ver, era mais uma dessas brincadeiras juvenis que se faz com os amigos que estão dormindo. Era até legal, mas a minha pergunta é: por que é tão relevante dizer que é o melhor gif com um gordo? O que que o cu tem a ver com a calça?? Daí fiquei com raiva da galera que defende a barriga positiva, mas zoa os gordos.

E quando eu achava que nada mais podia me tirar do sério, um dos meninos me ligou pra avisar que vão vir conhecer o apartamento, já que o contrato acaba mês que vem e a gente não vai renovar.

Quer vir conhecer o apê enquanto eu ainda tô pagando aluguel dele? Pois que venha. Mas eu já aviso que agorinha mesmo estou indo dormir, porque na noite passada não consegui ligar a merda do aquecedor e quase morri de frio e, pra foder de vez, sonhei com o Nicholas Cage, então foi uma noite de merda. Portanto, se eu estiver dormindo e quiserem entrar no meu quarto, vou recebê-los com a cara do Jack Nicholson em “O Iluminado”. E nem pensem em abrir a porta do meu guarda-roupa pra vê-lo por dentro, porque eu seguramente vou mandar todo mundo tomar no cu.

Boa noite.

(Nota da irmã mais velha, que edita e posta os textos da menor: achei que havia um parágrafo que ofendia uma pessoa e, delicadamente, sugeri que a gente cortasse, pois a pessoa podia se chatear. A resposta foi: “ela que se foda”. Ainda bem que eu edito.)