A Missão Roomate (ou um recado para meus pais)
E, um dia, eu acordei em Buenos Aires, buscando apartamento, me surpreendendo com os preços, tentando alugar um lugar sem ter um trabalho no país, sem ter comprovante de pagamento, sem ter garantia proprietária, sem ter visto permanente, fazendo malabarismo pra explicar que tudo isso é porque cheguei faz pouco tempo, mas que essa semana mesmo já tenho o visto, que tenho o dinheiro pro aluguel pelo trabalho que eu tinha no Brasil e que eu JURO, eu JURO que VOU PAGAR.
Em vão. O máximo que eu consegui foi ser mal-tratada pelo cara da imobiliária, que duvidou da minha nacionalidade e disse “É, não sei.. seu sotaque é bem de italiana.” – what? (No mínimo engraçado, visto que o taxista duvidou também, mas disse que eu tinha sotaque de americana. Sou uma Ítalo-Norte-Americana com quadril de parideira.)
Tudo bem que já passei algumas vezes pelo “Ahh! Você é a brasileira? Queem diria!” porque é, eu não sou morena, alta, bonita e sensual. Mas acho que me mandar um ~fala uma frase em português então, ô brasileira!~ era desnecessário.
O Wellington, simpático corretor da imobiliária onde aluguei meu apê em São Paulo, me defendia do zelador que entrava no meu apartamento sem permissão; desentupiu o ralo do apartamento com 4 meninas de cabelo comprido (eca eca eca!); trocava lâmpadas; arrumou o registro do banheiro de visitas e mandou um pedreiro trocar o sanitário do banheiro de empregadas.
Ele me encontrava na rua e perguntava da minha faculdade, dizia que tinha a mesma idade da filha dele e me cumprimentava com abraço.
O cara da imobiliária daqui me disse “Nesse país, você não é ninguém.”
E aí eu saí de lá chorando.
É isso. Descobri que eu sou uma bunda mole, que aguenta desaforo, pede desculpas e sai chorando. (ou, aparentemente, quando você tá começando sua vida adulta, você volta a ter 12.)
Por fim, como é muito difícil alugar sozinha porque pedem a maldita da garantia proprietária na Capital (tipo, é, eu sou estrangeira, tô vindo pro seu país agora, tenho uma casa aqui, mas quero alugar um apartamento JUST FOR THE LOLS…), resolvi buscar apartamento dividido com outras pessoas.
Acontece, que nesse mundão existem muitas pessoas bizarras interessantes… então estava meio difícil escolher o companheiro de apartamento ideal. Estava entre:
- Fabian, o cara que, como foto do anúncio, colocou uma 3×4 com cara de maníaco num fundo vermelho;
- Daniel “Activo. Muy profesional.” – protegendo meu cu em 3…2…
- Viviana, cujo apartamento é, segundo o anúncio, pra dividir com ela e 3 gatos. Podemos ver a simpatia da pessoa com a frase “Se você é alérgico ou não gosta de gatos, este anúncio não é pra você.”
- Rafael, o cara que deve ter vivido com alguém muito porco pra colocar na descrição “Procuro alguém descomplicado e liimmmpoooooo……..”
- Gabriel, que procura “Persona que necesite habitación y se comunique. No importa sexo…” e me deixou bem confusa… Não importa meu sexo ou não importa se eu for morar com você e não pagar com o corpo, só com dinheiro mesmo, contanto que eu converse com você?
- EL TIGRE. – Dispensa comentários. RAWR!
Ou com o…:
- Loiro Grisalho, o senhor de 55 anos que colocou na descrição que deveria ser sobre o apê:
“Sou alto, 1.78m, magro, ~buena presencia~, educado, responsável e de bom trato, acompanhado de uma foto dele com a mão nas cadeiras, encostado numa varanda, armado de seu olhar 43.
Minha impressão sobre esse site de companheiros pra dividir apê? Deveriam dar suporte emocional pras pessoas. Sério. Eu fiquei extremamente chateada quando entrei em contato com alguém e a pessoa leu e ignorou minha mensagem. Fico pensando tipo.. o que eu tenho de errado pra você? Me fala, cara, talvez a gente possa se entender. Não me ignora… ME AME!
Tipo o Eduardo, que não me aceitou só porque quer compartir o apartamento com alguém que seja homossexual. Pensei até em pedir carta de recomendação pras amigas bees.
Mas aí apareceu o Sebastian, que divide apê com o Martin e o José. São equatorianos, vivem aqui há alguns anos, se conhecem desde… muito tempo. Têm entre 23 e 26 anos. O Sebastian e o Martin tem uma banda de Salsa, o José faz psicologia. São três caras bem legais, o apê é graaaande, tem 4 quartos, cozinha, banheiro social e banheiro de visita e a sala tem até uma sacadinha! O quarto disponível tem uma janela que vai até o chão, o apê já tem tudo que se precisa numa casa, todos os móveis e, a única coisa em discussão é se vão ou não juntar grana pra comprar uma tábua gigante e colocar em cima da mesa que está na sala, pra fazer uma enorme mesa de ping-pong.
Assim que, na verdade, esse texto foi todo um pretexto pra falar que…
Pai, mãe… Estou indo morar com 3 equatorianos em Buenos Aires. Eles são bem legais, eu juro. Não surtem. Mudo semana que vem e meu quarto é lindo. A Tatá apoiou a ideia. Amo vocês.



mbottan
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