Are we humans or are we players?

Você cortou a franja muito curta. Sai perguntando se tá muito ruim. Seus colegas dizem que não. Sua irmã diz que não. Seu namorado diz que não. Seu horóscopo diz que não.

Seu primo de seis anos diz que tá feio.

No fundo, você também achava. Mas só a partir daí você para de achar que se arrumar a franja assim e assado vai ficar bom. Agora, você desencana e prende a franja até crescer.

E por que caralhos todas as outras pessoas da sua vida, que não possuem a inocência de uma criança de seis anos, mentiram pra você, sendo que achavam a mesma coisa?

Seus colegas nem prestaram atenção, sua mãe não queria te magoar, seu namorado quis evitar que você ficasse emburrada e seu horóscopo diria qualquer coisa que você quisesse ouvir. Nenhum deles te ajudou a tomar uma decisão. Mesmo as pessoas que queriam evitar o seu sofrimento, acabaram te atrapalhando.

-”Eu ainda te amo, penso em você, mas você me machucou e eu decidi desistir.”

-”Eu só quero te comer e não ficar sozinho, senão eu desabo.”

-”Eu estou bem, mas curto um drama, me faz parecer mais interessante.”

-”Cara, se eu quisesse você, eu diria!”

Acabam virando:

-”Tá sofrendo? Agora chora.”

-”O quê você vai fazer hoje? Queria te chamar pra vir aqui.”

-Frase de impacto no MSN.

-”Ai, moço, hoje eu tô de boa, só vim pra dançar, hihi.”

O quê há de errado com a gente, que não consegue falar a verdade? Na maioria das vezes, nem estamos pensando no outro, então qual o problema em descomplicar a vida das pessoas e evitar sofrimento e perda de tempo? Ou qual o problema em se mostrar desprotegido?

Sabe qual a pior consequência dessa atitude egoísta e tão automática? Ninguém mais acredita nas verdades.

Já tentou virar pra alguém e dizer: “eu errei, me desculpe, eu realmente te amo”, depois de dizer um monte de merda pra parecer forte e superior? Não adianta. Vai parecer vazio. Somos tipo aquele Joãozinho mentiroso, resta rezar pro lobo não chegar, nunca.

ReveilLOL

E finalmente, o Ano Novo. Uma vez uma amiga me disse que era triste como todo mundo muda e acha que porque virou o ano tudo vai ser diferente e mais lindo. Balancei a cabeça concordando, fui mudando a expressão, meu rosto virou um ponto de interrogação e meti uma cabeçada interrogativa [!] na fuça da rapariga. Triste o caralho, eu acho isso demais!

Não sei vocês, mas eu tenho vontade de dar bom dia e desejar feliz Ano Novo até pro mafioso que mora na frente da minha casa! (será que ele vai ler isso aqui? #medo)

Acho belo todo mundo se preocupando com roupa, presentes de amigo-secreto, minha mãe surtando com a droga do pernil que meu pai trouxe pra ela preparar e mal cabe no forno de tão grande, meu cachorro chegando do pet shop com gravatinha branca brilhante e acho mais belo ainda todas as superstições de Ano Novo.

Na real, sempre falo que não ligo muito pra isso e blablablous, mas quando chega o dia tô lá eu cheia das frescuras.
Superstições são bem simples e se você quer ter muito amor, dinheiro, felicidade, fartura, sorte, saúde, luz, bondade, garantir teu futuro, pensamento positivo, se livrar da depressão e fazer seu intestino funcionar DI-REI-TI-NHO não tem outra opção, você DEVE seguir o que as superstições mandam e cala a boca aí.

Pra começar, compre calcinhas ou cuecas novas, pra ‘garantir o futuro’. Mas dependendo da cor, você roda. Então procura aí no Google a cor certa pra não fazer cagada, afinal, alguém disse que a regência de Vênus fodeu tudo esse ano e os significados das cores que conhecemos vai mudar geral e você, que sempre usa aquele amarelinho gracinha vai se foder pro resto do ano.

Deve colocar também uma nota de dinheiro dentro do sapato, que é onde a energia entra no nosso corpo. Não esqueça de preparar a lentilha, mas pode comer uma colher só, pq depois dela ainda vem as 7 uvas, a romã, nozes, avelãs, tâmaras, a maldita da castanha que é um pé no saco pra abrir e a carne de porco. E nem pense em peru pro Ano Novo, peru cisca pra trás e pelamordedeus você vai andar pra trás o ano inteiro depois de comer o bichinho!

Tudo preparado, hora da virada. Contagem regressiva e aí você faz tudo do jeitinho que foi ensinado:

Numa mão, um prato de lentilha, carne de porco, castanha, avelã, tâmara, nozes e uvas, mas terá que comer tudo isso sem utilizar a outra mão, porque nela estará a taça de champanhe que você deve estar segurando enquanto pula só com o pé direto, onde deve estar a nota de dinheiro dentro, três vezes. Cuidado pra não derramar nem uma gotinha do champanhe, senão já era. Os pulinhos devem ser dados em cima de um degrau, que é pra começar o ano subindo na vida. Agora saia na rua, jogue moedas pra dentro da casa, atrai riqueza, sacoé. Depois disso, dê um jeito de se teletransportar pra praia, e, no mínimo, acender velas, passar uma mistura de pétalas de rosa branca, arroz cru e essência qualquer no corpo, rezar olhando pro mar, depois entrar até onde a água fique na altura da canela, derramar pipoca ao longo do corpo e pular 7 ondinhas. Tudo isso enquanto alguém se preocupa com os fogos de artifício, sinos e músicas. Vale ressaltar: tudo isso à meia-noite.

Se achar que é pouco, corre pra dentro de casa, dá três chutes no vaso sanitário, fale três palavrões e dê três descargas. Não lembro bem o que acontece mas sei que dá certo!

Dicas dadas, vou ajudar minha mãe a virar o pernil gigante que já tá cheirando bem. Feliz Ano Novo e não se matem na maratona de superstições!

Corrente do mal

Uma vez, eu conheci um cara que estava sempre sorrindo para as pessoas ao seu redor. Claro que ele devia ter seus dias de cu virado, mas me parecia que, ainda nesses dias, ele tentava ser simpático, sempre. E não estou falando de ser simpático com os amigos, família e colegas de trabalho, mas com o cara do guichê do metrô, a atendente do pedágio e a caixa do supermercado. Aliás, ele sempre perguntava os nomes e os tratava pelos mesmos, perguntando como estavam.

Eu achava aquilo sensacional, porque ele conseguia fazer qualquer uma daquelas pessoas sorrir. Foi nessa época que eu percebi o quão carente de simpatia nós estamos.

Desde então, eu, que mesmo antes tentava ser NO MÍNIMO simpática com as pessoas no meu dia-a-dia, tentei aprimorar a técnica e ficar parecida com ele. Claro que falta muito (principalmente a cara-de-pau necessária), mas eu aprendi que na maioria das vezes que você sorri pra alguém, mesmo alguém que está tendo um dia ruim, a pessoa sorri de volta. E, de repente, o humor dela até melhora.

Parece simples, e é. Desde que você aprenda a lidar com a praga que faz o caminho inverso: a frustração alheia.

Se alguém está triste, chora. Se está com raiva de algo específico, geralmente foca naquilo e não desconta em todo mundo. Mas uma pessoa frustrada é capaz de acinzentar todo o ambiente ao seu redor.

Homens e mulheres frustrados por um casamento insatisfatório ou por ter que trabalhar no que não gostam para sustentar a família podem facilmente foder a vida de quem precisa conviver com eles. Pessoas que empurram a vida com a barriga, sonhando com outras coisas, mas sem coragem ou condições pra dar a volta e tomar um outro rumo, e terminam por achar formas de causar o sofrimento nos outros, talvez pra não se sentirem tão mal. Vai saber.

O que interessa é que, se você se deixa afetar por esse tipo de energia, você acaba descontando a frustração de não poder impedir o ataque em uma terceira pessoa. Que, se não conseguir não se deixar afetar, repassa pra uma quarta e assim por diante. É a corrente do mal.

E o maior problema é que, pra uma pessoa que sorri pra caixa do supermercado, existem CINQUENTA repassando energia negativa. Comofas?

Eu conheço duas mulheres, de mesma idade e estrutura familiar. A primeira tem e faz tudo o que quer, mas casou por falta de alternativas e é extremamente frustrada e infeliz. Já a outra, com o casamento completamente fodido (com um cara que ela ainda ama, mas que não dá a mínima pra ela) e orçamento mais limitado, é extremamente altruísta e faz com que todos ao seu redor se sintam bem e seguros.

O mal não nasce por causa dos problemas. Nasce em quem deixa a terra fértil pra ele.

Linguagens

lata

Existem inúmeras formas de se expor sentimentos e ideias. Particularmente, acho a fala a mais besta delas. É justamente falando, que a maioria das pessoas NÃO consegue se fazer entender. Como se o grau de subjetividade fosse inversamente proporcional à facilidade de exposição.

Assim, a gente acaba com preguiça de concatenar tanta coisa rodando na cabeça e se despede com “boas férias”, “até mais” e afins ou pergunta a hora, pensando no sentido da vida.

Eu já escrevi um email pra ser lido na minha frente, só pra não correr o risco de perder a linha de raciocínio e não conseguir dizer tudo que precisava. E é assim, eu falo demais sem dizer nada e digo tudo sem abrir a boca.

E tem gente que pinta o que sente, outros dançam, outros presenteiam. Tem quem fere, querendo dizer e tem quem diz, querendo ferir, quase como que fisicamente.

Não é o fim do mundo quando duas pessoas usam linguagens diferentes. Uma sempre pode aprender a linguagem da outra e, quando isso não é possível, sempre há uma forma de tradução. Uma amiga da minha irmã ficou com um cara que só falava inglês. Ela, sabia meia dúzia de palavras, incluindo “kiss me”. Depois da resposta, conversaram por mímica a noite toda. Nem tudo podia ser entendido assim, então, eles usaram um tradutor online.

Tem horas que não precisa mais do que olhar, pra mostrar tristeza, desejo ou raiva.

Por isso eu sinto por quem não tenta nenhuma das formas e deixa tudo não-dito, como se não fosse fazer diferença. Esses vão ficando pra trás. Esses matam o amor. E vão morrendo junto, sem que a gente possa fazer nada.

Mas os meus preferidos são os que cantam. Que juntam todas as linguagens numa só e fazem você se apaixonar até pela melodia que embrulha um contexto onde você se fode. Tem que ter muita alma, muito sangue correndo.

Aos músicos, o meu respeito.

Os opostos se atraem, mas não se entendem

(Este texto foi originalmente publicado no Olla Blog. Aproveita e confere os da galere!)

opostos

Ele gosta de rock e ela de axé. Ele é racional e lida bem com os números, ela, um turbilhão de emoções que conduz através das palavras. Comédia e drama. Pra dentro e pra fora, preto e branco, dia e noite.

E como diabos eles acabam juntos?

Especialistas dizem por aí que eles querem é se completar, encontrar no outro – e possuir, através dele – as características que não encontram em si mesmos. Ok, faz sentido. Mas dá certo?

No começo, talvez. Porque a diferença encanta. Ele, na sua calma, vai ficar abestalhado com toda a vida que ela transmite. Ela, sem parada, vai admirar a incrível capacidade de concentração e traquilidade frente às dificuldades.

Perfeito. Até que, com o passar do tempo – e da novidade – a calma se transforme em falta de atitude e a extroversão em vontade de chamar a atenção pra si.

E como frequentar, com o mesmo ânimo, o mesmo lugar ou ter músicas tema quando os gostos são diferentes? Como criar os filhos com ideais que não batem?

Certamente deve ser mais fácil levar a parada quando as experiências são semelhantes e aproximam. Mas quem é que manda no coração?

O bom do amor (quando pega mesmo) é que ele te permite ceder sem se sentir um imbecil. Quando isso acontece dos dois lados, talvez a coisa funcione.

Quando uma mocinha, num blockbuster aleatório, disse pro cara que não queria cometer nenhum erro, a resposta deu um roundhouse kick em milhões de telespectadores chorosos:

“Então você está na espécie errada, amor. Seja um pato.”

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