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Era uma noite de sábado sexta como tantas outras. Com o frio congelando até o fígado, só podia ser pizza e filme debaixo do cobertor, mesmo. “Hum, olha esse aqui, é aquele filme novo do Mel Gibson, dizem que é bom, vai esse mesmo.”
Chegando em casa, o primeiro comentário foi da mãe do Mobilon: “Mas a Mirian vai ver esse filme? É bem sanguináreo.” Ué, mas a Mirian é macho, tchê. Afinal, ela assiste Jogos Mortais dando risada. Que tem demais, um sanguinho à toa.
Eis que, após meia hora de filme, entre cabeças cortadas e corações arrancados, sinto um forte gosto de sangue e me sento. Tontura, pernas fracas, tento levantar e quase desmaio. “Tô passando mal, me leva pro hospital!”. Param o filme. A sogra sai correndo, busca água, depois sal, depois Coca-Cola. “Calma é só a sua pressão que caiu!”. E aquele gosto de sangue, que pressão que nada! Teorizo o mais óbvio: “É uma hemorragia interna, algum órgão explodiu, eu vou morrer”, penso, enquanto digo: “Me leva pro hospital!” incessantemente, como uma gralha maldita. Quando a sogra resolve empurrar a minha cabeça pra baixo e me manda forçar pra cima eu imagino o sangue jorrando de algum lugar da minha cabeça. Mas não acontece nada. Sem sangue. A tontura melhora, mais ainda tremo mais que vara verde. Eu nunca vi uma vara verde tremer, mas a minha avó e minha mãe sempre disseram isso.
No fim das contas virei motivo de piada. Eu ali (ainda) achando que ia morrer, e estavam rindo da minha desgraça. Chorei pra mostrar que eu não estava brincando.
Assisti ao resto do filme sem olhar as cenas de sangue. Ou seja, só ouvi o resto do filme. Continuei mole pelo resto da noite e fui dormir choramingando de medo (do treco, não do filme). O estranho é que eu estava tranquila, segundo a sogra, foi meu inconsciente que não aguentou. Por causa dele vou ter que aposentar os apelidos Mirão e Mirian Bravo. Foi-se a minha honra.
Inconsciente babaca.




