12
Dec
  O desafio de ser 100% natural

Quando eu nasci, minha mãe adotou uma mania que virou coisa de família depois: com um radinho (Meu primeiro Gradiente, lembram?) ela gravava tudo que eu dizia.

Gravou por alguns anos, coisinhas pequenas.

Em um certo ponto eu comecei a ter opinião. Aí fodeu:

-Mirian?
-Queee?
-Onde você está?
-Não vem aqui, não! Tô fazendo arte!

Ou:

-Hoje, a Mirian e eu fomos ao parque e tomamos sorvete, não é Mi?
-É.
-E estava bom?
-Não.

Ou ainda:

-Hoje a Mirian foi passear com a turminha da creche e comeu cachorro-quente, certo?
-É, mas não tava quente.

E por aí vai.

Criança é um bicho desgraçado pra ser natural. Eu, por exemplo, além de falar muita verdade, não precisava me preocupar em fazer escova no cabelo, nem fazer dieta, nem em me ligar se alguém ia gostar do que eu ia dizer ou não.

Aos cinco anos eu citei o nome do Presidente da Rússia na época, o Gorbachov, no meio de uma conversa de adultos. Quase matei todo mundo de espanto. Mas eu não estava querendo fazer moral. Eu sabia, porra. Falei mesmo.

Não ligava pra refrigerantes e doces, passei a ingerir essas porcarias na pré adolescência. Antes disso, adorava uma água, e parava de comer quando matava a fome, não socava comida por dó das crianças da Nigéria. Porque elas não iam comer o que eu jogasse no lixo mesmo.

Hoje acordo no meio da noite pra comer bolacha recheada, e fico me xingando no outro dia. Sonâmbula maldita.

Enfim, naturalidade na fase adulta é uma coisa um pouco mais complicada.

Imagina só, você e a sua respectva, naquele clima, rolando uma musiquinha toda envolvente, um vinhozinho e tal. Aí ela vai até a mesa reabastecer a taça, e você solta:

-Nossa, amor, tá precisando queimar essa celulitezinha, hein?

Certamente você vai levar uma garrafada na fuça. E com razão. Eu jogaria.







12
Dec
  Spoiler do Agreste

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Era um dia normal. Eu, a caminho do trabalho, bêbada de sono, e no chacoalho do busão, como sempre. Até que um diálogo no assento dianteiro chamou a minha atenção.

Era uma nordestina, que falava alto pra burro, contando a história toda do filme “A noiva de Chuck”, para a colega desanimada.

-Não é de medo, não! É comédia, sabe?

Fiquei lá, me divertindo com a empolgação da cidadã, e com a cara de sem saco da receptora.

Quando, de repente, a rapariga faladeira solta:

-Ei, você já viu “A colheita do mal”?
-Ainda não, tô querendo ver.
-Acabou de sair, né?
-Uhum, eu vou alugar.
-Nossa, é muito interessante, viu?
-Hm
-É sobre as dez pragas da bíblia. Sabe, as pragas?
-Sei…

(E agora, tentarei ser o mais fiel possível ao que meus pobres ouvidos puderam presenciar)

-Então. É sobre elas. São dez né? Isso. Então, tem todas, a das vacas mortas, do mar vermelho. Tem as varejeiras também. Muito legal, tem todas mesmo, o rio de sangue, a úlcera, os bichos mortos, a chuva de fogos. Muito legal. Tem os piolhos também. E depois a morte dos não seguintes de Deus.
-Hm, legal mesmo.
-E o final é surpreendente, todo mundo pensando que é a menininha que está fazendo aquilo, mas não é. Todo mundo morre e a mulher fica grávida.
-…
-Mas e você, ainda não contou pra tua mãe que tá namorando? Por que? Tá com medo?

Nunca vi uma spoiler tão enrolada, devastadora e dissimulada ao mesmo tempo.