14
Jan
  O feitiço contra o feiticeiro – ou o arquiinimigo de seu Teixeira.

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Não havendo mais pendências, e já passando da hora, deixei o trabalho. Assim que coloquei o pé pra fora do edifício e avistei a minha nova realidade, fui tomada por uma felicidade besta, mais ou menos como aquela que a gente sente quando uma brisa surge do nada, no meio daquele calorão, refrescando a alma.

E foi nesse clima patético de poesia que eu alcancei a Av. Paulista. Ia andando toda faceira, muito provavelmente com um sorrisinho também patético, que não condizia com o cansaço de final de expediente.

Foda-se, eu estava feliz.

Passei por uma farmácia, entrei e comprei uma besteirinha qualquer ao som de uma música boa. Até a farmácia parecia agradável. Fui mais simpática do que o normal com a atendente.

Cheguei ao ponto de ônibus, em frente a uma loja de cd’s, de onde vinha outra música boa, que combinava com o meu estado de espírito no momento. Tudo parecia tão bem que nem mesmo sabendo que eu estava prestes a me atrasar para um compromisso, eu conseguia ficar puta com o ônibus que não passava NUNCA.

Não fiquei puta mas depois de 20 minutos comecei a estranhar. Depois de muito estranhar, como eu ainda estava de bem com a vida, decidi pegar um táxi, pois eu já estava atrasada o suficiente para o tal compromisso.

Dei sinal e o táxi encostou. Pela janela, brinquei com o taxista: “Em quantos 5 minutos você consegue me levar até o Butantã?”, e entrei. Sentei e soltei um “Nossa, desisto desses ônibus, demoram demais!”. Ele deu um sorrisinho besta e me perguntou por onde eu queria ir:

-Ah, o ônibus costuma ir pela Rebouças e…
-Pela Rebouças? Mas a Rebouças fica pro outro lado…

No mesmo minuto eu olhei pro outro lado da Paulista, e lá estava ele, as letras brancas enormes, impossível não ver: Jd. Maria Luiza. Passando por mim, indo embora.

Puta que o pariu! Aquela BOSTA de felicidade me fez viajar na maionese e esperar o ônibus do lado errado da avenida!

Depois dessa, não havia o que fazer mesmo, descer do táxi e voltar pro ponto é que eu não ia, então decidi seguir.

Voltei a viajar, pensando na vida, enquanto rolava um padre Marcelo Rossi no rádio do táxi, e as coisas iam novamente tranquilas. Até que, depois de uns 15 minutos rodando, me dou conta de que a grana estava indo longe, e não estávamos sequer na metade do caminho:

- Mas viu, nós não chegamos nem na Rebouças ainda?
-Ah, sabe como é, né moça, esse trânsito…

Parei de viajar e comecei a prestar atenção. De repente avisto uma placa com um nome conhecido, uma rua bem perto de onde eu havia saído, só que num pedaço que eu não conhecia, bem mais abaixo. Ele estava dando voltas! Maldito! O ódio tomou conta quando me toquei o quanto teria que pagar se quisesse realmente chegar em casa. Num impulso, resolvi pedir pra sair:

-Faz o seguinte, moço, me deixa na Rebouças mesmo, de lá eu tomo um ônibus, porque a grana que eu tenho aqui não vai dar, não.

E ele, na maior calma: “Tudo bem, moça.”

Tudo bem, moça? Tudo bem, moça!?

Aí meu orgulho falou mais alto. Eu definitivamente não ia gastar aquilo pra ficar no primeiro terço do caminho, e muito menos engolir a satisfação do taxista safado.

-Moço, faz assim, eu tenho X aqui, você acha que consegue me levar por isso? É que eu já estou atrasada, e preciso chegar logo, mas se eu te der mais que isso, não terei dinheiro pra voltar.

Ele relutou um pouco, mas concordou. Como o taxímetro já contava muito perto do valor que eu havia proposto, daí em diante ele desembestou a correr, tentando chegar o mais rápido possível. Mas dessa vez, como que por um milagre, Murphy deve ter achado tanta sacanagem que resolveu ficar do meu lado, colocando um belo engarrafamento no caminho todo. Foi aí que o jogo virou.

Ele já havia concordado com o valor, não podia voltar atrás. Só que simplesmente não conseguia sair do lugar. Começou a suar e dar soquinhos no volante, irritado e nervoso, me perguntando incessantemente se faltava muito.

Eu, por outro lado, dizia que provavelmente era depois da próxima curva, mas que não tinha certeza, e fazia cara de paisagem, soltando esporádicos “Nossa, mas que trânsito”, que o deixavam ainda mais puto. Certa hora ele disse, cerrando os dentes:

-É, moça, eu te disse do trânsito.

Depois de uns 20 minutos, eu digo pra ele encostar. “Serve aqui?”, ele me pergunta, quase desesperado.

Pois servia perfeitamente. Estávamos em frente ao ponto onde eu desceria de ônibus, o taxímetro marcava 2 vezes o valor combinado, e certamente, a partir de então, ele pensaria bem melhor antes de fazer outro cliente de besta novamente.