20
Feb
  Sobre pés: os vermelhos e os ausentes

Por Maira Bottan

Não sei se é praxe cidade pequena ser no meio do mato. Ou ter muito mato.  Mas deve ser, afinal, ela não cresceu o bastante pra deixar apenas um pedacinho de mata no meio de um grande pedaço de terra asfaltada.

Amigos, digo que é bem pior quando você mora no fim de uma cidade pequena. Ali, na divisa do canavial.

Não sejamos ingratos, o bairro tem uma beleza. Verde. Pra todo lado.
Se você olhar ao leste, vê o sol nascer no meio do nada. Se olhar a Oeste vê um bairro que não tem…nada. Se olhar ao sul, vê a área rural. Que nem deve mais ser do meu município. E por último, se olhar ao norte, verá uma avenida que só tem comércio de um lado. Do outro é mato.

Não entendam como reclamação. O bairro tá bom agora. Sim, quem morava por aqui era chamado de pé vermeio. Quando chovia a gente amarrava sacola de supermercado no pé pra não sujar de barro. Foda.

De qualquer forma, barro não falta. E o que vem junto do barro? João-de-barro!

                                periquito curioso 
                                                    Epa! Esse não é o Jão!

Apesar de gostar de passarinhos, não conheço tudo sobre todos. Mas posso dizer sobre ele o que sei.

Ele constrói casinhas de barro. Oh!

Quase sempre em cima dos postes. É uma verdadeira obra. Considero esse passarinho o mais pedreiro dos passarinhos.
Tem todo um esquema a casinha. Montar o alicerce, parede e coisa e tal. E sabe como fazem isso? Óbvio. Preparam o barro e levam com o bico. E sabe como preparam o barro? Pezinhos. E como colocam na casinha? Pezinhos. E bico.

Eis que há algumas semanas, saio eu pra ir pegar ônibus. Não tenho motorista. Meus pais fazem muito de me dar o passe do busão.
Dado uns cinco passos na calçada, vi um João-de-barro em cima do muro. Pensei: "Nossa, que legal! Faz tempo que não vejo um!!"

Fui chegando mais perto e vi que ele estava escondendo um pezinho!

– Igualzinho a um flamingo! – parei, num momento de reflexão – engraçado, nunca vi passarinho escondendo o pé.

Confesso agora que eu tenho um sério problema. Se eu vejo um botão, nao sossego até apertar. Logo, se eu vejo um passarinho com o pé escondido, não sossego até ver o pezinho.

Andei até o Jão, e ele continuou lá. Parado.

– Passarinho folgado! Era pra voar! Só pomba não voa quando a gente chega perto.

Pomba não voa quando você chega de mansinho. E como você faz pra ela voar? EXATO! Dei um pulo em direção do coitado. Coitado mesmo.  O passarinho não voou, tudo que ele fez foi rodopiar. Num pé só.

Pensamento: MAIRAIDIOTADEUMAFIGAAA! Coitado do passarinho, não tinha um pé! Saí andando rápido pro coitado se acalmar e parar de rodar..

Depois me veio o pensamento profundo: certa vez ouvi dizer que o João-de-barro constrói a casinha e a fêmea passa e vê se gosta. Se gostar fica com ele.
Como uma Maria-de-barro vai gostar de uma casinha feita por um passarinho que se tentar preparar o barro, cai? Pobre Joãozinho.

Será que já inventaram mini pernas mecânicas?







15
Feb
  Vivendo só, consigo mesmo

2.jpg

Aviso: Recomendo aos senhores meus pais que não prossigam com a leitura deste texto. Confiem em mim, ou estarão por sua conta e risco.

Janeiro de 2006. Eu, 19 aninhos e bochechas rosadas, me encontrava numa recém solteirisse enlouquecida e enxergava um alvo festa em cada segundo do meu dia. Só queria saber de sair, dançar, beber e rever os amigos.

SÓ QUE, apesar de trabalhar e pagar com a minha própria alma a bagaça toda, meu pai insistia em me botar uns limites surreais:

– Volta às 2.
– Mas, pai, a festa começa 11!

Depois de uma sessão descarrego eu conseguia permissão para voltar às 2 e meia. ÓBVIO que isso nunca aconteceu. Parece que quanto mais torta eu voltava da balada, menos barulho eu fazia. Coisa de mestre.

Mas chegou uma hora que aquilo começou a me incomodar, eu não queria e nem precisava ficar passando por aquele perrengue. E um belo dia, no meio do marasmo de uma viagem de férias, eu peguei o telefone, e chamei um táxi para a rodoviária.

Desci com as malas, já dando tchau:

– Tchau mãe! Tchau pai!
– Como assim!? Cancela, esse táxi, cancela!

Cancelar o escambau, já estava pagando. Algumas latas de cerveja na mochila, e fugi da viagem. Voltei pra casa, peguei as minhas roupas e fui direto pro meu novo lar, o apartamento de uma amiga. Assim, do nada.

Po-rém, coleguinhas, eu aviso: para sair de casa, há de se ter um belo propósito, e muita responsabilidade. Caso contrário, você vai viver a época mais louca da sua vida. E não vai ser no bom sentido, bem.

Como eu, no meio daquele êxtase todo e endoidecida como estava, não tinha nem um, nem o outro, já podemos imaginar: fodeu homericamente.

Hoje, novamente morando sozinha, e em outra cidade, tive que repassar todo o insucesso da última tentativa, pra evitar entrar em depressão, ficar desnutrida e infeliz, sem ninguém pra chamar de meu bem muita merda.

Então vamos conversar.

1. Se você mora sozinho, MORE SOZINHO, e NA SUA CASA – Isso mesmo. Morar sozinho te dá uma liberdade que parece sem fim. E você fica a um pulo de dormir cada dia na casa de um amigo/affair ou de trazer tooodo mundo pra morar contigo. Ameba, só vai se ferrar. No segundo caso, vão quebrar seus copos, comer sua comida e não vão te ajudar lavar a louça, não se iluda. Até porque, a tendência é você trazer as pessoas pra sua casa quando quem tá no comando é o teu “alter-ébrio”. Nesse caso ainda podem vomitar no teu tapete, se você tiver um. E por favor, tenha. O que nos leva ao próximo ponto.

2. Tenha uma casa decente – Eu ainda estou morando num república, mas me mudo em poucos dias e já tenho a lista de tudo que preciso ter no meu novo apartamento. E isso inclui tapetes, cortinas, abridor de garrafa, espremedor de alho, baldes, potes e várias outras coisas que você vai achar toscas e dispensáveis, simplesmente por nunca ter se preocupado com elas, que eram responsabilidade de seus pais.

Quando você sair do banho e escorregar no chão molhado, eu espero que você não tenha um traumatismo craniano. E também espero que você não engula nenhum pedaço de vidro depois de quebrar a boca da garrafa de cerveja tentando abrir numa quina qualquer.

3. Nem só de Texas Burger vive o homem – Tome vergonha na fuça e aprenda a cozinhar. Senão vai ficar gordo e desnutrido (sim, é possível). E frutas e legumes são muito mais baratos que uma caixa de nuggets.

4. Limpe a casa – Fazer amizade com as baratas NÃO É NORMAL. Aquilo era só um filme, e elas não sabem dançar.

5. A sua cama não serve só pra fazer sexo – Durma nela, às vezes. De preferência algumas horas por noite.

6. Last but not least – Controle o seu dinheiro. Ligar pro seu pai pra pedir vai ser MUITO feio.

Pai, caso você tenha lido até o final, eu juro que te pago no próximo mês.







1
Feb
  Mirian Bottan Facts por Maira Bottan. Ou quase isso.

                 paçoca

                                          Bottans mandando um fusqueta                              

Tentei um outro começo, mas o melhor mesmo é começar me apresentando.
Meu nome é Maira, e carrego o sobrenome Bottan. Sou bastante citada aqui como "irmã".

Mas me diga, Maira, o que faz aqui?

Simples. Após um comentário no texto "Astrologices à parte" sobre sonhos com abacates, ou melhor, um monte deles, em meio a macarrão sendo preparado e faxina sendo feita, recebi um telefonema do senhor meu pai dizendo que a senhorita minha irmã me mandou estar online. Direto assim.

Fui logo pensando "Lá vem, lá vem. Olha o favor! O que será dessa vez? Vai  papear pelo mundo afora e eu vou ter que cobrir o sumiço!"

Mas não! O assunto era um convite pra escrever aqui no Substantivolátil!

Então cá estou eu, pegando o bonde andando, sentando na janelinha e dando tchau!
A justificativa é que eu e minha querida irmã Bottan sempre fomos uma dupla e tanto. Uma sempre diferente da outra. Com 5 anos ela jogou sal no permanente da minha tia. Com 5 anos eu falava com ervilhas. Acho que gera um estranho tipo de equilíbrio…

Enfim, ela sempre foi a espertona, e eu sempre a mais boba. Acho que a coisa vem dos pais. Minha mãe era a certinha que não tem histórias pra contar pros netos e meu pai era o malvadão que só aprontava. Depois vem dizer que não sabe pra quem minha irmã puxou..

De todas as pessoas, a que foi mais afetada pelas mudanças de humor e pelas fases de Mirian Bottan, obviamente, fui eu. Passo então a vocês, caros leitores do Substantivolátil, as mais variadas Mirians, simplesmente para conhecerem as positivas e as negativas dessa baixinha.

 "Ah! Pegadinha do Malandro" – Sempre me aprontava alguma. Como quando me fez chorar dizendo que eu havia comido farofa vencida, seguido de um ‘Ma! Você vai morrer!!’

Protetora da Maira fraca e oprimida – Pra me defender, ela virava uma barraqueira de primeira.

Imaginem a cena: eu com 7 pontos no pé quis ficar no meio do vuco-vuco num show de Ska. Porém a rodinha punk na minha frente não estava prevista. Começaram a me empurrar de lá pra cá daqui pra lá e minha irmã tomou a frente, deu um puta de um empurrão em um menino que achou que ela queria participar da rodinha punk. Ela mandou o segundo empurrão seguido de um "TEM MENINA AQUI CARALHO!" A rodinha punk mudou de lugar e eu continuei procurando a menina a quem ela se referia….

Irmã mais velha – Essa era a pior. Tinha direito a tudo. Até à Diddy roxa no Donkey Kong. Aliás, quando o assunto era roxo x rosa eu nunca podia escolher.

Irmã mais nova – Cheguei a acolher muitas vezes essa peça na minha cama no meio da madrugada porque tinha assistido filme de terror. Ainda tinha q ir buscar o travesseiro dela e doar o lado da cama encostado na parede.Terrível.

Aproveitadora – Acabava com a mesada dela, pedia a minha emprestada, não pagava e ainda me chamava de mercenária quando eu cobrava de volta.

Malvada – Me batia e se eu ainda estivesse chorando quando minha mãe chegasse falava "ENGOLE O CHORO!" e eu engolia.

"Ow, foi mal" – Só me dava os canos. "Não janta não que a gente vai sair pra jantar!" "Não assiste o filme ainda que a gente assiste junto!" "Vou só dar uma saidinha e volto pra te ajudar a pintar o quarto." "Dá um pulo lá no apê hoje que a gente conversa um pouco!"

Pré-adolescente – O que não faltou na fase mais irritante de um ser foram gritos, batidas de porta, "por que você nasceu?! eu era mais feliz sem você!". Além disso, ai de mim se chamasse de "Tatá" na frente dos amigos..Se saísse só o "Tá" já me lançava um olhar "você tá morta"

Bottan Style – Um tio certa vez disse que os Bottans não bebem socialmente.. bebem pra acabar. Tenho que concordar com ele. E todos os Bottans também. Esse lado "Bem Bottan" apareceu na minha festa de 15 anos. Todos juntos, cantando parabéns. Acabado a música, alguém grita "Mi, corta o bolo com a sua irmã!".. "Miii…." "Cadê a Tatá?".. Ai aparece a flor. Com uma cara impagável.
  – Oh, já foi o parabéns? Eu tava no banheiro…

Missão cumprida! Agora vou voltar à faxina que me foi interrompida, porque pior que a Mirian Malvada é a Mãe Bottan descendente de alemão que não vai gostar nada nada da casa nesse estado!

Abraços, sigam lendo os textos da Bottan II que prometo um dia escrever igual a minha Tatá!

[Nota: Então é isso,  Maira Bottan também pintará por aqui from now on. E já chegou queimando o meu filme. Tatá não, porra.]