Por Maira Bottan
Não sei se é praxe cidade pequena ser no meio do mato. Ou ter muito mato. Mas deve ser, afinal, ela não cresceu o bastante pra deixar apenas um pedacinho de mata no meio de um grande pedaço de terra asfaltada.
Amigos, digo que é bem pior quando você mora no fim de uma cidade pequena. Ali, na divisa do canavial.
Não sejamos ingratos, o bairro tem uma beleza. Verde. Pra todo lado.
Se você olhar ao leste, vê o sol nascer no meio do nada. Se olhar a Oeste vê um bairro que não tem…nada. Se olhar ao sul, vê a área rural. Que nem deve mais ser do meu município. E por último, se olhar ao norte, verá uma avenida que só tem comércio de um lado. Do outro é mato.
Não entendam como reclamação. O bairro tá bom agora. Sim, quem morava por aqui era chamado de pé vermeio. Quando chovia a gente amarrava sacola de supermercado no pé pra não sujar de barro. Foda.
De qualquer forma, barro não falta. E o que vem junto do barro? João-de-barro!
Apesar de gostar de passarinhos, não conheço tudo sobre todos. Mas posso dizer sobre ele o que sei.
Ele constrói casinhas de barro. Oh!
Quase sempre em cima dos postes. É uma verdadeira obra. Considero esse passarinho o mais pedreiro dos passarinhos.
Tem todo um esquema a casinha. Montar o alicerce, parede e coisa e tal. E sabe como fazem isso? Óbvio. Preparam o barro e levam com o bico. E sabe como preparam o barro? Pezinhos. E como colocam na casinha? Pezinhos. E bico.
Eis que há algumas semanas, saio eu pra ir pegar ônibus. Não tenho motorista. Meus pais fazem muito de me dar o passe do busão.
Dado uns cinco passos na calçada, vi um João-de-barro em cima do muro. Pensei: "Nossa, que legal! Faz tempo que não vejo um!!"
Fui chegando mais perto e vi que ele estava escondendo um pezinho!
– Igualzinho a um flamingo! – parei, num momento de reflexão – engraçado, nunca vi passarinho escondendo o pé.
Confesso agora que eu tenho um sério problema. Se eu vejo um botão, nao sossego até apertar. Logo, se eu vejo um passarinho com o pé escondido, não sossego até ver o pezinho.
Andei até o Jão, e ele continuou lá. Parado.
– Passarinho folgado! Era pra voar! Só pomba não voa quando a gente chega perto.
Pomba não voa quando você chega de mansinho. E como você faz pra ela voar? EXATO! Dei um pulo em direção do coitado. Coitado mesmo. O passarinho não voou, tudo que ele fez foi rodopiar. Num pé só.
Pensamento: MAIRAIDIOTADEUMAFIGAAA! Coitado do passarinho, não tinha um pé! Saí andando rápido pro coitado se acalmar e parar de rodar..
Depois me veio o pensamento profundo: certa vez ouvi dizer que o João-de-barro constrói a casinha e a fêmea passa e vê se gosta. Se gostar fica com ele.
Como uma Maria-de-barro vai gostar de uma casinha feita por um passarinho que se tentar preparar o barro, cai? Pobre Joãozinho.
Será que já inventaram mini pernas mecânicas?




