30
May
  Estamos aí, com uns projetos

Quer saber como poderia ser o primeiro cd da sua banda que não vai acontecer porque nem a sua vizinha fanha aguenta te ouvir no chuveiro?

  1. Acesse http://en.wikipedia.org/wiki/Special:Random – o título da primeira página aleatória que aparecer será o nome da sua banda.
  2. Vá pra http://www.quotationspage.com/random.php3 – as últimas quatro palavras da última frase da página formarão o título do seu disco.
  3. Acesse http://www.flickr.com/explore/interesting/7days/ – a terceira foto, não importa qual seja, será a capa do seu disco.

Depois é só usar um editor de imagens qualquer e voilà (clique pra ampliar):

Capa

Ps. Chupado do blog mais Frufru dessa internéte.

Ps2. Esse post inaugura a categoria B-Sides, que reunirá caqueirinhas internéticas divertidas, e que vocês poderão conferir alí do ladinho, na sidebar. )







29
May
  Uma Aprendizagem

Deitada com os pés voltados pra cabeceira e a cabeça para o pé da cama, de modo que pudesse ver as estrelas pela janela sem ter que me levantar, imaginava se já passava das dez. Tive ímpeto de checar, mas me contive. Depois de um banho quente e um pouco de vinho, já não sabia se esperava o alívio de todas as minhas dores ou uma pizza de mussarela. Tampouco sabia se tinha 15 ou 70 anos, a mente perdida naquele misto de euforia e nostalgia.

-Merda, vou beber mais.

Peguei a taça vazia e fui atrás do resto do vinho. A garrafa parecia torcer o nariz:

-Fraca.

-Cala a boca, sua garrafa.

Nem era uma garrafa. Era uma garrafinha. Não tinha vidro pra nem meia garrafa. Tinha mais é que ficar na dela.

Voltei pro quarto e sentei na cama. Pensei em beber aos poucos, pra condizer com o clima calmo e equilibrado do quarto, mas queria deitar logo. Tomei tudo num gole e fui espiar a rua, dando tempo pro liquido se acomodar no estômago. E então eu o vi.

Não podia desenhar detalhes alí da janela do oitavo andar, mas me parecia alto, magro e vestia camisa e calças escuras. E ajeitava duas caixas de papelão, numa distância suficiente para que acomodasse os pés dentro de uma e a cabeça dentro da outra, se cobrindo com uma terceira.

Fiquei zonza. Olhei pro lado, para a cama de casal, que acomodava uma só mulher. Que nem era uma mulher. Era uma mulherzinha. Não tinha tamanho para nem meia mulher. Mas tinha aquele quilômetro de cama, mais coberta e fronhas com estampa de zebra que tinham custado os olhos da cara.

Parecia que eu ainda olhava da janela, mas quando notei, estava parada na portaria com uma coberta nas mãos.

Era mais velho do que me parecia lá de cima, e tinha apenas dois dentes que se pudesse ver. Mas fui eu quem não deu conta de absorver a enxurrada de informações que ele despejou em menos de 15 minutos, discorrendo de forma brilhante sobre fé, vida e esperança, e deixando fluir um conhecimento escancarado sobre história, biologia e matemática, enquanto eu não conseguia dizer palavra.

Não quis me contar o que diabos nessa vida o fizera acabar alí, na minha calçada. Mas nem precisava.

E eu, tinha trocado um cobertor por uma boa dose de vergonha na cara.

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E pra complementar, vai um texto de Clarisse Lispector, que encaixa muy bien com a minha reflexão. Com trilha de Lenine, pelo mesmo motivo.

“Mas olhe para todos ao seu redor e veja o q temos feito de nós e a isso considerado vitória de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficando do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos do que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.

E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.”

(Lispector, Clarice. Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.)







21
May
  Mi casa es mi casa

welcome

E eis que o grande dia chegou. Eles vieram me visitar. Sabe né, ELES.

Porque botar a mochila nas costas e chegar Forrest Gumpemente desbravadora em Americana, sendo paparicada pela família toda como a neta/sobrinha/filha/prima putaquepariu de foda que foi putaquepariu morar sozinha na putaquepariu da cidade grande é uma coisa.

Provar que eu lavopassocozinho e limpo atrás da orelha direitinho, com pai, mãe, irmã, namorado da irmã, gato, cachorro e macaco observando é outra. Mas eu estava relativamente pronta.

A rempa ia chegar no sábado, e pra noite de sexta, planejei um show do Skank e depois, A faxina no apê. Mudança de planos, cineminha com o povo da agência, depois faxina no apê. Mudança de planos, cinema sozinha, depois faxina no apê. No fim, ficar até mais tarde na agência pra postar alguma coisa aqui, depois faxina no apê.

Acabou que saí quase duas da manhã e nem fodendo que eu ia faxinar. Além do mais, tudo estava limpinho, a moçoila que mora comigo estaria na sala vendo TV com o namorado, com umas latas de cerveja por perto, uns dois ou três copos pra lavar. Cinco minutos e eu arrumava tudo no outro dia.

Mas, ao sair do elevador, a música alta dos diabos vinha… da minha casa? Whatahell?!

Cumassim que a moça e o namorado se transformaram em um grupo beubo, faladô e fumero, a cerveja que eu esperava esteve lá, mas FORA da lata, no chão, e a louça (palavrão aqui)?

Não era feriado, não saquei a visita fora de época do Murphy. Só sei que a imagem de uma anã estressada andando pra lá e cá limpando bagunça afastou o povo e sua alegria. E no outro dia, depois do lerê lerê, tudo estava lindo, esperando um mundo de elogios.

Mas o primeiro comentário do Zé foi: “Não tem nada na geladeira. E eu doido pra tomar uma gelada.”

Não por isso, “Bóra pro mercado, gastar o SEU dinheiro.”

E foi o lucro máximo que consegui. Porque manceba que sou, devia saber que ela viria preparada após ler o final desse texto. Só não imaginava que envolveria muletas e eu de garçonete o final de semana todo. Ela mandou bem, perdi.

Prazer, Isaura soy yo.







17
May
  Vai subir?

elevador

Os prédios lá em Americana são pingados. Um aqui, outro acolá, e nem de longe alcançam 6465436 andares como aqui, na capitar. Por isso, era difícil, assim, no dia a dia, a gente elevadorar.

Sim, é um verbo. Porque não é só subir ou descer. Elevadorar é uma arte.

E começa antes mesmo de começar. O sujeito atrasado, catando as coisas pelo caminho, trupicando em tudo, tentando comer uma bolacha e trancar a porta ao mesmo tempo. E antes de conseguir, já dá tempo de lembrar que vai ter que chamar a bagaça e esperar subir 95 andares.

Lição número um: o elevador NUNCA está lá quando você mais precisa dele. E quanto mais raiva você tiver do fato, mais pessoas vão chamar ele pelo caminho. Mantenha a compostura, engula o choro e chame o dito antes de tentar trancar a porta. Noob.

Saindo de casa, você corre o risco de encontrar um vizinho. Eu me apavoro. Sempre fico imaginando se aquele é o cara que bateu no teto na noite em que eu tive insônia e resolvi faxinar de madrugada, arrastando as coisas pra lá e cá, ou se todo mundo comenta que eu sou a putaquepariu de menina que ouve o som nas alturas.

Mas eu tenho mais pânico mesmo de gente que puxa papo. As pessoas deviam aceitar que não se cria nenhum tipo de relacionamento num elevador.

- Bom dia!

-Bom dia.

-Nossa, menina, mas que virada, esse tempo, né?

-Pois é, esfriou bastante.

-Nossa, nem me diz, e eu que ia pegar uma piscininha nesse feriado, porque tô com umas amigas aqui, e a gente ia pra um hotel fazenda, a coisa já estava marcada faz um tempão, e agora eu não sei o que eu faço, vou ter que tentar aproveitar ass..

-Hm.. é.. eu fico aqui, até mais!

-Opa, até!

Santo Deus.

Lição número dois: não puxe papo com desconhecidos. Foda-se o terremoto. Não o faça.

Em casa, você vai cruzar com, no máximo, duas ou três pessoas num elevador. O foda, é no trabalho. De longe, você vê a fila. Óbvio que você tem a opção de esperar o próximo. Todos tem, mas ninguém faz. Eu não faço.

Aí você fica alí, espremida no meio de 15 nego, uns gordos, outros magros, outros baixos, outros altos, e todas as combinações possíveis, como na vida, né, gente?

Só que num elevador, isso significa:

-Ficar bem embaixo de um sovaco fedido.

-Ficar de cara com a pança do véio.

-Ficar com o sovaco na cabeça de alguém.

-Ter alguém com a fuça na sua pança.

E assim por diante.

Lição número três: tente se esmagar numa das paredes. Mas certifique-se de que não está apertando todos os botões. E se for vítima do sovaco, faça cara de paisagem. Vai durar pouco. Principalmente, por conta daquela véia maldita que dá duas de você e contribui para a lotação do elevador pra subir um andar. UM ANDAR.

Lição número quatro. Avise a véia que é por isso que ela está gorda. Vai fazer um favor pra ela e aliviar o elevador.

E a quinta e última lição. Condicione a sua cabeça a achar que TODO elevador está sendo filmado. Não tente se lembrar qual realmente está e qual não. SEMPRE aja como se estivesse sendo filmado, principalmente quando tiver um espelho na história.

Vai por mim, a consciência agradece.







5
May
  Familia-ê, família-a!

E teve aquela época em que o carro da família era um Passat verde metálico. E embora no fundo eu gostasse do bicho, porque afinal, ele nos carregava pra lá e cá, eu tinha uma vergonha desgraçada. Verde metálico, pô.

Também tinha vergonha de quando o meu pai ia me buscar na saída das festinhas. Com ou sem Passat. E quase morria quando a minha mãe vinha me dar beijo na bochecha, me melecando de batom. Na verdade eu odiava beijos e abraços em geral. Me sentia um ursinho, e eu não era ursinho. Eu era má.

A Maira era o ursinho, vivia tentando me abraçar, e eu corria. Coitada.

Mais tarde, queria ver uma anã enfurecida era me forçar a fazer a social e perder churrasco na casa de amigos pra ir numa festinha de aniversário de alguma tia. Eu acabava indo, sob ameaça, claro. Mas ia de jeans rasgados, e não falava com ninguém. Yo era rebelde.

Da mesma forma, odiava perder as férias e deixar o namorado pra ir pra praia com os pais e a irmã. Jurava que não ia me divertir nunca. Se não me engano uma vez tentei descer do carro em movimento pra fugir de uma dessas. Uma mula, mesmo.

Mas nessa época, entre achar que não se é mais criança e ainda não ser porra nenhuma na vida, tudo que tenha relação com a família embaraça. Levar a irmã junto na festa!? Nem a pau, Juvenal. E se chamasse de Tatá, morria, como já é sabido por aqui. Almoço de domingo na casa da vó era um drama na minha vida adolescente, ainda mais depois de acordar cedo e contra a vontade, pra ir à missa. Eu acho que é geralmente nessa idade que se cria um emo. Um tio me chamava de coruja, porque eu passava o domingo todo trancada num quarto escuro, vendo TV.

Mas o tempo passa. E eu não sei exatamente quando acontece, talvez em algum momento entre arrumar um trabalho e pagar as próprias contas, ou começar um namoro sério, o que interessa é que você começa a perceber que a família não é assim, uma coisa tão ruim. É divertido, até.

E de repente, quando você tomou um pé, e suas amigas estão todas namorando, você descobre que combinar seus pais e tios com cuba libre e trilha sonora 60’s pode ser infinitamente melhor do que acabar chorando bêuba numa balada cheia de um povo que você nunca viu mais gordo, feio e pobre.

Na verdade, quando você vê a sua vó mandando ver no twist, ou metade da sua família bêbada dançando macarena , você tem certeza que fez a escolha certa.

Vó (clique para aumentar)

Enfim, demora, mas a gente aprende que ligar pros pais é sempre a melhor escolha, porque além de não ficar de saco cheio de você, eles vão chorar, rir, ou xingar junto. E quando você ligar pra eles quase parindo pra conseguir falar porque tá com a garganta fodida, de cama, entupida de analgésico, eles vão ser foda o suficiente pra te dizer que estão na piscina tomando cerveja. Porque não podem fazer mais nada mesmo, a não ser te dar esperança de estar no lugar deles no próximo final de semana. Justo.

Mas não significa que eu não possa me vingar:

Na próxima, manera na cuba, véio!

Prepara a cerveja, vejo vocês na sexta! )