E todo adolescente, no auge da acne e da rebeldia sem causa, já pensou em ter uma banda.
O meu fogo no rabicó com isso começou muito antes, desde pirralha, quando eu imitava as coreografias dos Backstreet Boys e sabia que cantava bonitinho. No chuveiro, óbvio. Lá, eu ganhava até troféu, logo depois de ir pra outro planeta toda vez que mudava a temperatura da água pro frio, ou depois de surfar radicalmente na banheirinha da boneca que fazia xixi, a Pipizinha.
No karaokê, eu e a minha prima éramos duas Tollers mandando Casinha de Sapê, definitivamente.
Lá pelos 14, com cabelo vermelho, unhas cor de laranja, bolsa de acrílico do Mickey e saias de prega das mais variadas cores, fui me enfiar numa aula de violão. Foi lindo quando comecei a ouvir música saindo daquilo, mesmo que demorasse dois anos pra mudar o acorde.
Eis que comecei a pegar um pouquinhozinho de prática, e quando consegui parir o dedilhado de Love in the Afternoon, rapaz, só dava eu.
Até que ela surgiu no meu caminho. Suja, trapaceira, evil, evil, evil, destruindo meus sonhos de rockstar: a pestana. No dia que uma criança de cinco anos (com a mão do tamanho da minha) conseguir fazer isso, eu também conseguirei.
Eu sei que tem criança de cinco anos que faz isso, mas meu dedo torto complica tudo.
Tá, eu que sou uma imprestável.
Anyway, joguei a palheta toalha, e esqueci a história. Até o dia em que, no meio da tarde, recebo uma ligação, do ex-professor das artes cordísticas, dizendo que havia umas meninas querendo começar uma banda, e que ele havia me indicado pra cantar.
Cuma!?
E fui. Me botaram pra fazer a Avril, e foi ridículo, que eu não aguento o tom da lombriga. Cantei tudo em falsete (que na época, eu te diria que é uma menina falsa, no máximo), mas as meninas, que também não sabiam budega nenhuma, acharam lindo, maravilhoso, uow, mano! E assim, viramos uma banda.
Nunca ganhamos dinheiro nenhum, mas aquela foi uma das épocas mais divertidas da minha vida. A banda “nasceu” no dia 8 de março, e era formada por 5 mulheres. Lindo, né, gente? Todo um contexto e tal. O nome inicial era “Feministheory”, que ninguém sabia falar, daí foi traduzido e traduzam vocês, que eu vou me calar por questões de vergonha alheia. Enfim, era a TF.
A gente meio que sabia que aquilo não ia vingar como cada uma sonhava. Mas se é pra sonhar, então sonha direito, com pseudo gravações, pseudo músicas próprias, e pseudo showzinhos em festa de amigos, concurso de escola de inglês (segundo lugar, truta) e… festa de halloween do clube da cidade, onde eu tinha que interromper o auê do putz putz, e conquistar a galera em 3 segundos pra não ser odiada.
A meia listrada até o joelho e o cabelo de água de salsicha devem ter despertado curiosidade, no mínimo.
Com as cinco raparigas no palco, o povo concentrou. E a gente se fodeu de todas as formas. Cabo do baixo deu problema, corda da guitarra estourou, eu com uma vontade incontrolável de chutar a cabeça do puto tentando ver a minha calcinha.
No fim das contas, há uma grande possibilidade de ter sido uma bela merda, e a galera ter gritado apenas por conhecer a gente, ou por sermos um grupo de meninas. Nunca vou saber, pois ninguém lembrou de registrar o momento. Uma pena, né?
Não.
Foi a melhor coisa que fizemos. Pra nós, foi animal e ponto. A empolgação era tanta, que eu aguentei o tom de uma parte de uma música que eu só fazia em falsete, e é só disso que eu quero me lembrar. Lembrar que os meus amigos ficaram orgulhosos da gente lá em cima. Lembrar que uma puta amiga minha que nunca saía praquele tipo de lugar, tava lá na frente do palco, pulando. Isso tudo tá muito bem registrado na cachola, onde não dá pra perder, nem rasgar, nem estragar, nem apagar.
Se eu ainda penso nisso? Mais do que deveria. A música me trouxe muito mais do que eu esperava dela. Daquele monte de cabos, cordas e ensaios atrapalhados, surgiram as pessoas que eu mais confiei na vida. A maior delas (literalmente?), me ensinou ainda como entrar no ritmo da vida, e parar de desafinar por aí.
Enfim, venho matutando há algum tempo aqui em São Paulo, e cheguei a uma conclusão:
Lápis e papel no camarim, por favor.
[ E já diria Silvão: "Aguarrdemm" ]




