Arquivos para July, 2014

Projeto Futurão

Há dois anos, entrevistei Paulo para o episódio sobre Paraisópolis do programa A Liga. Paulo tinha então 15 anos. Filho de mãe morta e pai preso por tráfico de drogas, Paulo vivia sozinho num barraco de um metro e pouco por menos de dois, onde havia um sofá para as visitas e para dormir (ele havia tentado colocar uma cama, mas era muito grande e ocupava muito espaço no pequeno barraco), um móvel com um rádio e um fogão que não funcionava. Sem banheiro, sem chuveiro, coisas que ele ainda pretendia “terminar”. Tudo ajeitado aqui e ali por ele mesmo. No meio de uma montanha de lixo e entulho numa das maiores favelas de São Paulo. Entrava chuva e vento, as telhas saíam voando. A porta do barraco ganhou um cadeado depois de algumas invasões. Paulo tinha medo que invadissem novamente, para roubar ou fazer com ele alguma “maldade”.

Além disso, Paulo estava ficando cego, por culpa de uma doença cujo tratamento estava completamente fora de suas possibilidades. A única pessoa da família, uma tia, já morava com várias crianças em outro barraco e só podia dar um pacote de bolacha lá e cá. Se quiser ver com os seus próprios olhos, está tudo aí, à partir de 47:35.

Um famoso poema de Ulisses Tavares diz: “Tem gente sem esperança. Mas não é o desalento que você imagina entre o pesadelo e o despertar”. Se Paulo resolvesse roubar para ter comida e roupas, para comprar drogas que o ajudassem a se distanciar da realidade esmagadora, ou até para se imaginar inserido num universo ao qual nunca lhe foi dada a chance de pertencer, quem seriam os juízes? Quem de nós, assistindo a essa realidade pela tela da televisão ou pela janela do nosso carro no farol, possui os elementos necessários para ser o detentor do direito de decidir que meninos e meninas com realidades como a do Paulo são culpados?

Felizmente, na nossa história real, Paulo, de alguma forma, seguia com uma postura firme contra o uso de drogas e quaisquer outros caminhos tortos que não eram os que ele queria para si. E enquanto eu conversava com ele e tentava entender como ele conseguia, comecei a pensar em como seria se EU estivesse no lugar dele. Como eu reagiria? Se desde os treze anos eu vomito comida por não conseguir lidar com uma IDEIA imposta pela sociedade sobre um padrão de beleza no qual eu até me encaixo! Vivendo no meio do lixo sem ninguém para olhar por mim, dependendo dos outros para comida e roupas, perdendo a visão, sem nenhuma saída à vista, como é que eu posso ousar dizer que não roubaria? Que não MATARIA? Eu não sei até onde aguentaria sem me despedaçar, logo, eu não posso ser juíza da história de nenhum Paulo que não se manteve na linha.

Ele é uma exceção, não a regra. Estar centrado nos próprios princípios e alheio às pressões externas é uma coisa que quase nunca conseguimos fazer. Conheço inúmeras pessoas que fazem carteirinhas de estudante falsas para se aproveitar de um benefício que não é deles. Que sonegam impostos como se fosse o normal a se fazer, porque nesse país, “quem faz tudo certo só se ferra”. Que forjam recibos no trabalho e ao fechar o caixa levam uns trocadinhos. Que recebem dinheiro para os gastos de um trabalho como vendedor na rua e ficam em casa, contando vantagem para os amigos sobre o chefe que estão lesando. Para um exemplo mais recente, muitos, mas muitos mesmo, compraram ingressos dos jogos da Copa e revenderam por mais de dez vezes o preço oficial. E não são moleques negros e pobres da favela, são pessoas de classe média, que viajam para outros países nas férias e têm o telefone da vez. Que vão continuar comprando roupas em lojas que utilizam mão de obra escrava e ainda fazer pouco caso da situação, porque isso “não lhes diz respeito”.

E ainda assim, nesses dias de opiniões compartilhadas para quem quiser ver, não precisamos nem sair da própria timeline do Facebook para encontrar quem acha que esse papo de oportunidade não existe e que aquele que quiser ser bom e batalhador, deve apenas… sê-lo. Eu não consigo entender como uma classe média tão tomada pela depressão e pela frustração, que afastam pessoas do trabalho, da vida social, que transformam pais de família em alcoólatras, e transformam o “ter” em “ser”, pode decretar que uma criança que cresceu sem direito a nada (nem material, nem emocionalmente falando) e num lar desde sempre destruído, precisa arrumar forças sabe-se lá de onde para ser uma pessoa batalhadora além da média e ainda vencer para contar a história e ser exemplo. Eu poderia dizer que essas pessoas não pensam no que estão dizendo, mas esse é justamente o problema, e não uma desculpa.

Nossos Paulos não vão desaparecer. Eles precisam viver e vão agarrar qualquer madeira que esteja flutuando para não afundar no mar de miséria do planeta capitalismo. Seja o assalto ou o tráfico. Sem saber ao menos ler aos 15 anos (uma situação muito comum em comunidades carentes), você escolheria ganhar duzentos reais num trabalho de 10 horas ou mais como servente de pedreiro ou dois mil vendendo drogas pra quem vai de BMW até você?

E enfim, cansada de apenas pensar e falar para o vento, decidi, junto com uma amiga querida, a jornalista Renata Souza, agir de acordo com o que me parecia o mais óbvio a se fazer para ajudar outros Paulos a terem uma chance real, um barco. E assim nasceu o Projeto Futurão.

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A ideia do projeto é que as crianças desenvolvam e aprimorem suas habilidades cognitivas através de aulas e oficinas envolvendo leitura e interpretação de texto, ensino de idiomas, atividades artísticas e práticas de meditação. Em todas as esferas serão trabalhadas também as temáticas meio ambiente, cidadania e noções básicas de higiene e saúde. Com essa combinação, esperamos possibilitar uma base de apoio e orientação na formação da identidade da criança e na percepção de seu papel dentro da sociedade.

Acreditamos que a desigualdade no sistema educacional é a causa e a consequência da desigualdade social e econômica. É a educação e o acesso adequado a ela que oferecem oportunidades na vida adulta e ampliam a nossa visão de mundo e de nosso papel dentro dele.

Por essas razões, o Projeto Futurão tem todas as suas atividades baseadas nos conceitos de cidadania, inclusão e democracia. Todas as nossas ações terão como objetivo o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico. A princípio, oferecemos as seguintes oficinas:

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Além de apoiar, paralelamente ao ensino formal, o processo de alfabetização, queremos trabalhar o desenvolvimento da capacidade de compreensão e análise de textos (de literatura a notícias), considerando que o analfabetismo funcional se faz presente em grandes números no país, e estimular o gosto pela leitura, uma vez que entendemos a importância da prática no acesso ao conhecimento. Por meio da leitura, a criança expande seu vocabulário, dá linearidade aos seus pensamentos e conhece mundos diferentes e distantes do seu.

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Sabemos que cursos de idiomas são praticamente inacessíveis para crianças de baixa renda e entendemos que esse conhecimento ressignifica a educação, agindo para além da parte linguística, desenvolvendo a autoestima e atuando também na ampliação das fontes de conhecimento e das possibilidades de interação social.

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Este núcleo engloba artes visuais, música e teatro. Acreditamos nessa tríade como fio condutor para o exercício da capacidade criativa, que contribui para a formação da personalidade da criança, promovendo o autoconhecimento e o desenvolvimento da autoconfiança.

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Estudamos ainda a introdução de práticas de meditação na realidade das crianças. Mais especificamente, o conceito de mindfulness.

De forma geral, quando falamos em meditação para crianças, na verdade estamos falando de “atenção plena”. Estas práticas buscam criar um espaço para que as reações impulsivas se tornem mais conscientes.

As crianças podem se beneficiar de diversas maneiras:
• Melhora no foco e na concentração;
• Maior senso de calma;
• Diminuição do estresse e da ansiedade;
• Maior controle sobre reações impulsivas;
• Aumento da autoconsciência;
• Maior habilidade em responder a emoções difíceis;
• Maior empatia e compreensão com relação aos outros;
• Desenvolvimento natural de habilidades para resolução de conflitos.
(trecho explicativo sobre atenção plena retirado daqui)

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Nossa primeira tchurminha, de mais ou menos 60 crianças de 7 a 13 anos, está ansiosa em Paraisópolis, esperando o início dessa aventura. Para tocar esse barco com mais passageiros, precisamos de mais tripulação. Vem com a gente! É só se increver nesse formulário aqui. Podemos chegar a ser muitos, mas nunca seremos demais!

Obrigada!

🙂

Ps. Um agradecimento mais que especial ao querido Camilo Coutinho, que fez (e continuará fazendo) toda a nossa comunicação, de forma voluntária e super atenciosa! Para conhecer mais do trabalho dele, acesse www.camilocoutinho.com.br!