A Carolina

Um dia, a Carolina entrou na minha vida como tanta gente já entrou. Mas trouxe com ela o que não vem sempre: um riso sem freio. Daqueles que entregam a bebedeira, como ela mesma define. Ela ria e ria, dela e da vida. E foi assim que eu gostei um pouco mais daquela Carol linda.

Um dia, naquele rolê SUPER descolado e pra frentex (pós-qualquer-outro-rolê) de ir pro puteiro da Augusta, enquanto eu pensava que aquilo não tinha mais a mínima graça, ela sentou ao meu lado e falou sobre investimento em pesquisas acadêmicas. E eu achei a Carol mais que linda.

Ela tinha tanto de mim e eu tanto dela que não deu pra ignorar. Além disso, ela fazia um irmão (de alma) feliz, de um jeito que eu não podia fazer, pois com incesto não trabalhamos.

Um dia, a Carolina entrou na minha casa, como pouquíssima gente entrou. E, a partir daí, vendo nos caminhos dela um projeto de muitos dos que eu já havia trilhado, comecei a despejar nela (como eu faço aqui com vcs) as minhas balelas e teorias, que ela ouvia e absorvia quase como se eu soubesse de alguma merda dessa vida.

E enquanto a gente montava racks, colocava quadros na parede e consertava o armário do banheiro, eu ia vendo a vida da Carolina se moldando de acordo com alguns dos meus conselhos e, de uma forma estranha, me orgulhava disso. Até o dia em que a vida me deixou em pânico às seis da manhã de um sábado. Nesse dia, a Carolina virou mais, muito mais. Ela cuidou de mim e eu prometi cuidar dela.

Um dia, a Carolina não olhou a rua ao atravessar. E a partir do momento em que eu a vi caída no chão, ao lado daquele monstro de ferro, eu repeti a minha promessa como um mantra.

Naquele primeiro dia, eu só queria não perder a risada da Carolina. As noites discorrendo sobre a miséria da raça humana e falando mal de quem merecia. Eu queria que ela visse a persiana colocada na janela. Eu queria que ela derrubasse a energia do apartamento, pra gente tirar foto no escuro.

Ela não sabe, mas, no segundo dia, eu descobri que eu nunca teria sido atropelada por um ônibus, porque enquanto ela estava pra rua, seguindo um caminho que eu defendia, eu estava em casa, pensando em qual deles seguir, mas sem escolher nenhum. E então, eu resolvi seguir dois: o meu e o dela.

Ela não sabe, mas eu não perco mais a hora. Porque quando o despertador toca, eu me levanto com as minhas pernas e as dela.

Ela não sabe, mas eu lavo o meu cabelo e o dela todo dia no banho, porque no hospital ela não pode.

Eu estico todos os meus músculos e os delas, todo dia, porque ela me pediu pra lembrar que isso não é pouco.

E por falar em pouco, eu vou vivendo muito, por duas vidas: a minha e a dela. Cuidando com o dobro de amor da minha toquinha que agora é nossa, dos meus planos de dominação mundial que agora são nossos, do meu gordinho que agora é nosso.

E, principalmente, do meu coração, que há muito também é dela.

Pra quando ela levantar, não sentir que nenhum mínimo detalhe da vida se perdeu ou ficou pra trás, e precisar se preocupar com uma, e apenas uma coisa: andar na faixa.

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53 comentários em “A Carolina

  1. Luis Gustavo

    Como já dito ai em cima, lagrimas de pura masculinidade brotam aqui, que texto, que forma de expressar um amor tão grande, puro e verdadeiro… parabéns é uma palavra que não define nem a metade do que gostaria de te desejar agora….

  2. vida

    Não sei bem o que dizer….bateu uma sensação de algo desconhecido, tlvz pq o texto é assim… o que dizer?o que dizer? me resta deixar o meu sentimento em forma de letras………………………………………………………………………………….

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