as aventuras de gambiaira

sit

still a seat, right? (essa foto poderia ser de casa, mas é do google mesmo)

Em São Paulo, morei só com mulheres durante 4 anos.

O chuveiro queimava, a gente tomava banho no banheiro de empregada. Queimava o chuveiro do banheiro da empregada, a gente tomava banho frio por 1 mês até alguém chamar o zelador, porque mulher tem medo de trocar resistência (meu pai me criou dizendo que chuveiro 220 mata. Eu não tava a fim de ser a responsável por matar alguém torrado).
A luz da sala queimava, a gente usava a do corredor.
A torneira da cozinha zuou, a gente lavava louça abrindo e fechando o registro toda hora. O acabamento do registro emperrou, a gente tirou o acabamento e fechava com um alicate. O alicate zuou o parafuso do registro, a gente chamou o porteiro pra arrumar a pia, o registro e o acabamento, porque já não dava mais.
Era um ciclo. Uma coisa levava a outra que levava a outra e os problemas da casa nunca tinham fim.

Eu arrumei tomadas por 1 mês. Caia o acabamento da tomada, zuava a tomada; o ralo do banheiro saía toda hora; tinha um buraquinho na pia da cozinha que sempre parava sujeira; o assento da cadeira caiu.

Aí eu descobri a cola de silicone.

Colei as tomadas, preenchi o buraquinho da pia, colei o assento da cadeira e colei o ralo, o que foi uma puta estupidez, porque com 4 meninas em casa, era ÓBVIO que o ralo ia entupir em breve. Tive que descolar pra desentupir. Depois colei de novo, porque tava cansada de enfiar o pé no ralo.

E assim a gente ia levando. A cada hora aparecia um problema novo. Ora era a televisão que só funcionava em verde e rosa e todo programa parecia desfile da Mangueira, ora eram as formigas invadindo o apartamento e comendo um fucking pacote de pão inteiro, dentro do armário. Elas comiam mortadela, queijo, pizza, bolo e frutas, também. Ah, e tinha também os cupins, que migravam pra porta do banheiro ou pro lustre da sala, dependendo da época do ano. Eu total me acostumei a limpar morros de madeira que se formavam no banheiro e a respeitar o espaço dos cupins. Já eram da família.
Eu colocava quadros na parede uma vez por semana: os pregos caiam, eu chegava em casa e estava tudo no chão. Colocava de novo. Caía. Colocava de novo. Caía. O retrato do Marcos Pontes (o mascote da república), que ficava perto da porta, caía a cada vez que alguém fechava a porta. Parecia um episódio de Chaves. (até que eu prendi cada quadro de 40 centímetros com 3 pregos. Se caísse um, tinham outros dois. Problema resolvido.)

Só sei que quando eu vim morar em Buenos Aires e encontrei o apê dos meninos equatorianos (pra quem achou que era zoeira, não era), achei que não teria mais problema com isso. Afinal, viver com 3 homens deveria te dar a vantagem de nunca mais vai ter que arrumar nada na sua vida.

No meu primeiro dia aqui, a merda da minha janela emperrou. Como ainda não tinha nenhuma intimidade com eles, dormi uma semana com a janela aberta. Daí começou a ficar meio tenso acordar com o sol na cara e resolvi pedir uma chave de fenda. Na minha cabeça era óbvio que havia uma na casa, eu é que não tinha encontrado. TRÊS homens. Um deve ter um kit de ferramentas.

Só que não. Arrumei a janela com uma faca de cozinha.

Foi questão de 2 dias pra maçaneta da porta cair. E eu deixei, esperando que algum dos meninos arrumasse a porta.
3 dias…5… 1 semana… 2 semanas… nada. Qual foi minha lógica? Usar a faca da cozinha de novo e arrumar de uma vez. A maçaneta era velha e o parafuso estava enferrujado. Quebrei a merda da faca da cozinha e não arrumei nada.
Resolvi então deixar um pouco mais e ver se alguém arrumava. Nada.

Sussa, os meninos se acostumaram a erguer e abaixar a maçaneta toda santa vez que abrem a porta. Fuéin.

Foi aí que eu pedi uma chave de fenda emprestada pra uma amiga.
Estava eu, voltando num sábado a noite com a minha mochila com a chave de fenda quando… me roubam a porra da mochila. Isso já faz 3 semanas. A maçaneta tá quebrada e eu tô devendo uma chave de fenda. E preciso comprar uma mochila.

O botão do aquecedor do meu quarto funciona em código morse. Você tem que descobrir a senha pra acender. TÁ – TÁTÁTÁ – TÁTÁ. Os botões do aquecedor do chuveiro não param sozinhos, então tem um pedaço de papel cartão dobrado permanente lá, que a gente encaixa no botão pra ele ficar apertado. Quando a gente esquece a janela aberta e bate vento, o papel voa e o aquecedor desliga. Então tem que lembrar sempre de fechar a janela antes de tomar banho, pra não tomar banho frio.

Quando alguém abre a água quente na cozinha, o chuveiro fica frio.
No lavabo, a descarga deu merda e não para nunca mais de sair água e fazer barulho de encanamento. Caiu uma pecinha minúscula que fazia toda essa função. Por sorte, a pecinha tem o exato tamanho de 3 moedas de 10 centavos. Então toda vez que vai dar descarga, a gente tira as 3 moedas, dá descarga e coloca as 3 moedas de volta.
Nosso congelador não pode ser descongelado, porque em alguma festa, um dos meninos tentou fazer gelo pra galera raspando o gelo do congelador e acabou furando tudo.

A porta do armário caiu há 2 meses. Mas ela ficou linda atrás da porta da cozinha e o armário ficou muito mais prático sem porta. Economizo cerca de 3 segundos do meu dia, todo dia pela manhã. O que é ótimo, porque isso se desconta do tempo que eu uso pra erguer e abaixar a maçaneta da porta.

E é isso aí… aparentemente, quem atrai o empurrando com a barriga style sou eu. Mas estou sofrendo? Não.

Eles estao perdoados, porque no dia do roubo da mochila, um foi me buscar na delegacia, o outro me trouxe uma cerveja, xingaram o ladrao comigo, 2 deles me emprestaram celulares que não usavam mais e até saíram pra balada comigo pra eu não ficar em casa pensando no roubo.

Tudo bem que a noite terminou comigo bêbada, dançando salsa, derrubando batata frita e hamburguer no carro do amigo de um deles e fernet com coca na minha roupa. E devendo um pote novo pra cozinha.

No outro dia, pós-porre, o Martin chegou pra mim com uma tampa de pote toda derretida e disse “Eu nao entendi bem mas… por que você fez isso com a tampa?”

Teoricamente, eu cheguei e fui esquentar um pão na panela. Coloquei a tampa no fundo da panela e quando estava derretida, joguei o pão em cima. Ele me disse: “Eu não entendi, mas sei lá, cada um com a sua cultura. Vai que no Brasil se come pão com plástico derretido, né?”

Eu comi pão com tampa derretida. Zuei a panela, o pão e meu estômago, porque no outro dia vomitei até as tripas.
Puramente culpa da tampa, óbvio. Nada a ver com a tequila.