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	<title>Substantivolátil &#187; Causos</title>
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	<description>O primeiro rascunho de qualquer texto é uma m#$&#38;@.</description>
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		<title>Murphy Reloaded</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Aug 2009 18:18:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mirian Bottan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>

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		<description><![CDATA[
Já fazia um tempo que Murphy não fazia uma de suas aparições marotas em minha vida. Daquelas, sabe, perto dos feriados prolongados e tal. Mas quando eu resolvi tirar uma semana pra ficar de bobeira em Sampa, entre passeios culturais e bebedeiras com os trutas, ele quis me lembrar quem é que mandava. Esperou a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-812 aligncenter" title="lei de murphy" src="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2009/08/lei-de-murphy1.jpg" alt="lei de murphy" width="360" height="246" /></p>
<p>Já fazia um tempo que <strong>Murphy </strong>não fazia uma de suas aparições marotas em minha vida. Daquelas, sabe, perto dos feriados prolongados e tal. Mas quando eu resolvi tirar uma semana pra ficar de bobeira em Sampa, entre passeios culturais e bebedeiras com os trutas, ele quis me lembrar quem é que mandava. Esperou a semana toda e resolveu me foder na Sexta-Feira.</p>
<p>Estávamos na Vila Mariana, eu e <a href="http://twitter.com/pintodemoraes" target="_blank">Pablito</a> e tínhamos compromissos em Pinheiros e Vila Olímpia, respectivamente.  Ambos faríamos uso do transporte público paulistano mais confortável e pontual: o busão. Paulo calculou o tempo e decidiu sair com uma hora de antecedência, pra não correr riscos. Como o moço só tinha notas altas, juntei os trocados e mandei levar, que depois eu sacava a grana na galeria da rua de trás. Ele insistiu pra eu ficar com alguma merreca, eu insisti pra ele levar tudo.</p>
<p>Ele me ligou, meia hora depois de sair, dizendo que o trânsito estava fluindo e que já havia chegado, com bastante tempo de folga, ia até ligar pra um amigo e chamar pra um café. Decidi, então, sair um pouco mais tarde, afinal, eu só tinha que ir até a Faria Lima e meu ônibus me deixaria a apenas 100 números do meu destino. Nem um quarteirão.</p>
<p>Depois de pronta, enrolei a ponto de tentar entender, por uns minutos, porque <strong>Donald Trump</strong> e <strong>Backstreet Boys</strong> estavam no mesmo programa. Faltando 45 minutos pro <a href="http://encontrosnateia.wordpress.com/2009/08/07/papo-de-meninas/" target="_blank">chat na Teia</a>, com as minhas queridas lulus <a href="http://www.ladybugbrazil.com/" target="_blank">Lucia Freitas</a> e <a href="http://lilianeferrari.com/" target="_blank">Liliane Ferrari</a>, saí. Afinal, o tempo calculado por <a href="http://maps.google.com.br" target="_blank">Deus</a> era de 30 minutos, incluindo as minhas caminhadas.</p>
<p>Eu não aprendo, MESMO.</p>
<p>Ao chegar na galeria, alguém duvida que o terminal da Caixa Econômica estava SEM NOTAS e o 24hs PIFADO, enquanto todos os outros que não me eram úteis estavam perfeitamente operantes?</p>
<p>Perguntei pro segurança se perto de onde eu deveria pegar o ônibus havia algum lugar onde eu poderia sacar a grana e ele disse que sim. Então, bóra. Era uma subidinha DE LEVE, debaixo do sol das 13hs, mas, afinal, eu sou nova, né? E aquele caminho eu teria que fazer, de qualquer forma.</p>
<p>Chegando lá, parei num boteco pra saber de um caixa e o cara me indicou o sentido contrário do ponto de ônibus. Fiz cara de nojinho, por causa do sol, mas ainda tinha tempo.</p>
<p>Andei, andei, andei até <span style="text-decoration: line-through;">encontraaar</span> avistar uma galeria, onde, pra não enrolar, não tinha o que eu precisava e o segurança me mandou subir mais um quarteirão, virando a esquina. Eu sempre me esqueço, quando me dizem &#8220;um quarteirão&#8221; em Sampa, que eu não estou em Americana. Depois de mais andar e andar e andar, sabe onde eu cheguei? Na agência da Caixa, em frente ao metrô Ana Rosa. Sabe quanto tempo eu levo da localização inicial até lá? 10 minutos. Sabe quanto tempo eu levei com a volta LAZARENTA que eu dei? Quase 25.</p>
<p>Enfim, entrei e parei atrás da modesta fila de cinco mancebos. O caixa estava lento, mas, pelo menos, eu não estava mais no sol. Uns 10 minutos e pronto, eu era a primeira da fila, esperando uma senhora. Quando, de repente, uma mulher que estava dois negos pra trás, na fila, um tanto quanto irritada com a demora, resolveu descontar na senhora, dizendo pra ela pedir ajuda, se não sabia usar o caixa. Quando ela deu aquela olhadinha pra trás, por cima dos óculos e deu uma cruzadinha no pé, eu respirei fundo. A véia ia empacar, de propósito. E depois de fazer tudo o que podia lá, ela resolveu sair. Não porque tinha cansado, mas porque o caixa TRAVOU.</p>
<p>Juro, eu fiquei esperando a torta no meio da fuça, porque mais pastelão que aquilo, não dava. Quinze minutos depois, quando eu peguei aquela nota de DEZ CONTOS, eu ria histericamente, por dentro. Eu nem ia usar tudo, eu só precisava de DOIS.</p>
<p>Enfim, resolvi perguntar por alí mesmo qual eu pegava pra ir pra Faria Lima. Afinal, com tanto ônibus passando por mim, pra quê voltar tudo, até o ponto com o que eu havia pesquisado? Tive 30 minutos de trânsito na Paulista pra responder essa pergunta. Até vi um cara tocando flauta pelo nariz.</p>
<p>E só pra fechar com chave de ouro pra quem adoooora as minhas desgraças Murphéticas, o novo caminho tranformou os 100 números que eu teria que andar em exatos 1000. Um só zero, tantos quarteirões.</p>
<p>Concluindo:</p>
<p>- Meus trocados são meus trocados.</p>
<p>- Nunca destrate alguém que está na sua frente na fila do caixa.</p>
<p>- Nunca perca tempo com o Donald Trump nem com os Backstreet Boys. Muito menos com os dois juntos.</p>
<p>Sem mais.</p>
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		<title>No rancho puto</title>
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		<pubDate>Thu, 21 May 2009 03:46:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mirian Bottan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando a mãe Bottan me perguntou se eu topava me juntar à caravana familiar rumo a três dias em um rancho durante o feriado, eu logo me empolguei. Afinal, sempre foi a maior diversão aqui em casa: trilhas, pescarias, ficar longe da bagunça da cidade e perto da natureza, nem que a gente precisasse abstrair [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando a mãe Bottan me perguntou se eu topava me juntar à caravana familiar rumo a três dias em um rancho durante o feriado, eu logo me empolguei. Afinal, sempre foi a maior diversão aqui em casa: trilhas, pescarias, ficar longe da bagunça da cidade e perto da natureza, nem que a gente precisasse abstrair o meu pai imitando mugido de vaca incansavelmente.</p>
<p>Conferi o site da bagaça, era belo! Lago, pra pescar, cavalos, piscina, uma bela casa e pra completar, rolava até usar a internet da dona da bagaça pra gravar um podcast que estava combinado pra sexta. Score, score, COMBO!</p>
<p>Então partimos, na sexta, pouco antes do almoço. Seriam três horas de viagem até a região de Miguelópolis, onde ficava a rancheira. Passando pela cidade, um sentimento estranho tomou conta da galere, porque, tipos, Miguelópolis era um bairro. Tipos que tinha um posto de gasolina de 5 metros quadrados. Tipos que são 3 farmácias, que revezam o&#8221;plantão&#8221; aos domingos. Tipos que tinha um outdoor parabenizando a cidade pelos seus SESSENTA E QUATRO anos.</p>
<p>O meu avô é mais velho que isso. Imagina que, se a origem da cidade foi um cara que se perdeu e resolveu parar ali e formar uma família, esse cara ainda tá vivo! Creepy.</p>
<p>Tá, aí passamos os dois quilômetros de cidade fantasma e dobramos mais dois em direção ao paraíso. Avistamos vacas. Mais vacas. Um boi. Outra vaca. No fim da estrada, a casinha do porteiro, com outras vacas around. Mais uns metros e o porteiro parecia cada vez mais com a minha tia. As filhas do porteiro pareciam&#8230; as minhas primas. Desejei sinceramente que eles estivessem gentilmente tomando um café com a galere da recepção. Mas não, era o milagre da fotografia aumentado cinco cômodos na casa e transformando a piscina de 3 mil litros numa piscina olímpica. <a href="http://http://sadtrombone.com/">Sad trombone</a> ecoou na minha mente por uns minutos, até o espírito aventureiro voltar. Afinal, quem precisa de conforto pra curtir a natureza? Bóra caçar a emoção!</p>
<p>E foram até a recepção &#8211;  essa sim, uma senhora casa &#8211; perguntar sobre as opções. Após descobrir que internet não era uma delas (o que já era de se esperar, àquela altura), a segunda mais esperada era cavalgar! E descobrimos que eram três cavalos, mas um havia morrido. Coitado, tudo bem, a gente revezava dois. &#8220;Então, mas um é muito bravo e o outro, bem, se colocar a cela, ele empaca. Mas dá pra colocar o bicho na charrete, aí ele vai.&#8221;</p>
<p>Nesse momento, descobrimos que não ia rolar cavalo, mas que ao menos as vacas tinham conseguido uma cambada de burro como companhia pro final de semana. </p>
<p>Quando o cavalo empacou com charrete e tudo, disparou na minha cabeça um LOL LOL LOL LOL LOL LOL LOL LOL LOL LOL, que durou até domingo.</p>
<p>Mas a emoção de perder o sono no meio da noite e ao dar uma volta lá fora, ficar na dúvida se o cavalo que pastava era o bravo,  o empacado ou que havia morrido valeu a sexta. Ah, minha mãe descobrir uma perereca no box do banheiro, bem acima da minha cabeça, depois do meu banho de 40 minutos também me causou uma sensação interessante. Não tanto quanto deve ter sido a da minha tia, quando uma outra perereca (ou a mesma, sei lá, eram todas iguais, todas as milhares que apareceram) caiu na cabeça dela, assim que ela abriu a porta da cozinha.</p>
<p>Sobre a pescaria, depois de descobrir que o aluguel do barquinho pra pescar no meio do lago era de cair o cu da carça, meu pai e meu tio tomaram coragem em forma de cerveja e foram pescar no pier, durante a noite. Voltaram mega empolgados com um peixe razoalvelmente digno, o que deu ânimo pra juntar as tralhas logo cedo e voltar pro pesquerê. Nem tudo estava perdido.</p>
<p>Pena que, depois de horas sem pescar nem mato, batendo um papo com um capiau, descobriram que ali do pier ninguém pega nada, apesar de um fiadamãe sortudo ter conseguido uma corvina na noite anterior.</p>
<p>&#8230;</p>
<p>No fim das contas, a maior diversão da viagem que combinou todos os nomes de filmes sobre viagem zoada da sessão da tarde (Entrando numa fria maior ainda, nessas férias muito loucas do barulho), foi brincar no &#8220;<a href="http://www.sapiranga.rs.gov.br/fotos/pp1.jpg" target="_blank">samba</a>&#8221; do parque de diversões, durante a quermesse que rolou na noite de sábado, na terra dos Miguelitos.  Como diria Seth Cohen, eu era o Nemo e só queria voltar pra casa. Mas não sem fotos e uma singela homenagem (clique para aumentar).</p>
<p><a href="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2009/05/dsc00748.jpg"><img class="alignnone size-thumbnail wp-image-755" title="dsc00748" src="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2009/05/dsc00748-150x150.jpg" alt="dsc00748" width="150" height="150" /></a><a href="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2009/05/dsc00743.jpg"><img class="alignnone size-thumbnail wp-image-754" title="dsc00743" src="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2009/05/dsc00743-150x150.jpg" alt="dsc00743" width="150" height="150" /></a><a href="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2009/05/dsc00659.jpg"><img class="alignnone size-thumbnail wp-image-752" title="dsc00659" src="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2009/05/dsc00659-150x150.jpg" alt="dsc00659" width="150" height="150" /></a><a href="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2009/05/dsc00714.jpg"></a></p>
<p><a href="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2009/05/dsc00625.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-751" title="dsc00625" src="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2009/05/dsc00625.jpg" alt="dsc00625" width="500" height="350" /></a></p>
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		<title>Até mais ouvir</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Dec 2008 03:49:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mirian Bottan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Dói a alma]]></category>
		<category><![CDATA[fobias]]></category>
		<category><![CDATA[telefone]]></category>

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		<description><![CDATA[
E estava a professora de alemão a me falar, semanas atrás, sobre a expressão auf wiedersehen, o nosso talvez outrora mais falado: até mais ver. Porque pode ser que alguns de vocês ainda até-mais-vereiem as pessoas, mas cá com os meus sou mais de um falou. E seguindo, me mostrou que assim como basear a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-633 aligncenter" title="i-hate-talking-on-the-phone" src="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2008/12/i-hate-talking-on-the-phone1.jpg" alt="" width="350" height="302" /></p>
<p>E estava a professora de alemão a me falar, semanas atrás, sobre a expressão <em>auf wiedersehen</em>, o nosso talvez outrora mais falado: até mais ver. Porque pode ser que alguns de vocês ainda até-mais-vereiem as pessoas, mas cá com os meus sou mais de um<em> falou</em>. E seguindo, me mostrou que assim como basear a despedida numa esperança de ver o cujo do dito novamente, lá pras terras alemoas, as conversas ao telefone terminam baseando-se na possibilidade de ouví-lo. Um &#8220;até mais ouvir&#8221;, ou <em>auf wiederhören</em>.</p>
<p>Aí que, depois de negar uma chamada no celular, me pipocou aqui a idéia de que talvez eu nunca use essa expressão.</p>
<p><a href="http://twitter.com/mbottan/status/1046956478" target="_blank">Eu odeio telefone.</a></p>
<p>Não sei explicar quando e como começou. Sei que aos 12 anos eu chegava da escola, preparava um copo gigantesco de leite com achocolatado, enfiava o cartucho no meu Super Nintendo, e passava horas desvendando os segredos do Super Mario World e comentando o último episódio de Pokemon com o meu&#8230; er, primeiro namoradinho, e hoje, eu simplesmente não posso colocar músicas que gosto como ringtone do meu celular, porque pego ódio mortal de todo barulho que me indique que alguém do outro lado da linha espera que eu diga alô.</p>
<p>O meu último namoro começou quando, num impulso, passei o meu número pro amigo dele. Mas eu devo ter feito isso na esperança de encontrá-lo pessoalmente antes que o hombre resolvesse discar o que estava no papelzinho. Não aconteceu. Minha próxima lembrança é a minha mãe parada com o telefone na mão, esticando aquela jeringonça na minha direção, enquanto eu me escondia atrás de uma quina de parede, como se o próprio interlocutor estivesse na mão dela: é&#8230; oi?</p>
<p>Quando eu passo o número do meu celular, eu quero dizer &#8220;me envie sms&#8221;. Se alguém me pergunta quando pode me ligar, eu invento compromissos, ou qualquer coisa que impossibilite a situação. Eu nego chamadas e envio uma mensagem. Cheguei a cogitar fobia social, mas pessoalmente eu sou exageradamente sociável. Principalmente com saquê e morango nas mãos.</p>
<p><strong>O telefone é traçoeiro</strong>. Veja bem, nós temos dois exemplos que deixam a situação mais confortável, ou por esconder ou por mostrar demais.</p>
<p>Face-to-face, você fica desprotegido, tem a desvantagem de não ter muito tempo pra elaborar, pensar no que responder, ou começar uma idéia e desistir dela no meio. Falou tá falado, você pode mudar, mas o outro já ouviu. Porém, mesmo que você fique em silêncio, tem a vantagem de visualizar cada reação, cada sinal de linguagem corporal, podendo identificar rapidamente um <em>tamos aí, baby</em>, ou <em>pediu pra parar, parou</em>.</p>
<p>Com cartas, mensagens ou os nossos queridos <em>instant messengers</em>, podemos começar uma frase, parar, pensar, apagar e reescrever, ou ainda elaborar com mais calma uma idéia antes de passar adiante, pra não ficar dando volta e acabar falando nada com nada.</p>
<p>Mas o telefone mistura a parte ruim disso tudo. O silêncio é incômodo, você não vai ter pra onde olhar, nenhum outro elemento alí vai te indicar como agir. Você não vai saber se está falando e o outro está fazendo cara de saco cheio. E falou, também tá falado. Só tem números, não tem tecla delete.</p>
<p>E tem a tecla mudo. Ai.</p>
<p>Ao lembrar dessa informação, dedico este texto à senhora minha mãe, que na última semana pediu uns minutos pra uma cliente durante a ligação, e quando retornou, depois de chamar algumas vezes pelo nome da fulana, sem obter resposta do outro lado da linha soltou, da forma mais espontânea e cagada possível, com o telefone ainda fora do gancho:</p>
<p>- Ô anta, desligou.</p>
<p>Pergunta se a tal anta havia desligado.</p>
<p>Até mais ler, senhores.</p>
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		<title>Desapego</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Nov 2008 03:43:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mirian Bottan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[
Já fazia um tempo que eu andava torcendo o nariz pro meu computador. Grande, gordo e velho, ocupava 80% da minha escrivaninha, entre aquela cabeçona e o corpo barulhento feito um avião, que juntava uma poeira do capeta.
Aí começou a faltar espaço, faltar rapidez, faltar silêncio durante a madrugada, quando eu não queria ser descoberta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2008/11/letting1.jpg" alt="" width="300" height="314" /></p>
<p>Já fazia um tempo que eu andava torcendo o nariz pro meu computador. Grande, gordo e velho, ocupava 80% da minha escrivaninha, entre aquela cabeçona e o corpo barulhento feito um avião, que juntava uma poeira do capeta.</p>
<p>Aí começou a faltar espaço, faltar rapidez, faltar silêncio durante a madrugada, quando eu não queria ser descoberta por um pai bêbado de sono, possesso com a cria que nunca dorme. E pior, começou a sobrar oportunidade onde eu precisava enfiar aquela tralha numa mochila e levar comigo.</p>
<p>Não fiz isso, né, gente. Fui lá e comprei um notebook. Com o dobro de HD, o dobro de memória, o dobro de velocidade, uns 20% do tamanho, e nenhum barulho. Demoréds. Peguei o bichinho quase ouvindo aquele coro gospel do comercial do cream cheese.</p>
<p>Configurei, instalei programas, testei daqui, de lá, reiniciei, fucei mais, tirei foto, desliguei. Fui tomar banho, e quando voltei, tendo mexido no treco de tudo que era jeito possível, na sétima hora, Mirian viu que aquilo era bom, transferiu os arquivos do monstrengo antigo pro brotinho prateado, e foi dormir.</p>
<p>Não sem antes deletar os arquivos do idoso jamantador. Porque o lance é que eu sou uma maldita de uma hiperativa e curto as coisas aqui, agora e assim, e eu queria tudo limpo alí, um lance assim meio neurótico.</p>
<p>Quem não me viu <a href="http://twitter.com/mbottan/status/1002108978" target="_blank">comentando o fato</a> no <a href="http://twitter.com/mbottan" target="_blank">Twitter</a>, já deve estar soltando um &#8216;que é que vem&#8217;, então, sem mais delongas, na manhã seguinte o note não ligava. Não vou desenrolar o problema aqui, mas fiz o que pude, tentei o que deu, e foi inevitável: perdi TUDO.</p>
<p>Por isso eu não tive forças pra discutir na loja, por isso eu chorei o caminho todo pra casa, por isso eu cheguei em casa, sentei na cama e pensei: &#8220;fudeu, mano. Vou virar hippie.&#8221;</p>
<p>Fotos, textos, logs, lembranças de anos, Gigafuckingbytes de música. Plóf. Ou uma onomatopéia qualquer que represente merda na água. Sblóft cai bem.</p>
<p>Depois de algumas horas de choro, fiquei anestesiada e voltei a raciocinar. <strong>Primeiro</strong> que muitas das coisas eu tenho em CD. <strong>Segundo</strong> que muitas das coisas eu tenho online. <strong>Terceiro</strong>, e mais importante: muitas das coisas, eu não queria mais, e só não havia me desfeito por dó.</p>
<p>Fotos que eu escondi de mim mesma pra não ver, músicas que eu pulava sempre que o shuffle resolvia me lembrar que elas ainda existiam, programas que eu nunca mais ia usar, mas deixava lá porque demorou um século pra baixar, filmes que eu não ia mais ver, mas não ia deletar pelo mesmo motivo dos programas.</p>
<p>Pensando um pouco mais (o processo foi longo), também concluí que eu não sou a pessoa mais adequada pra chorar os dados derramados (Oo). Eu nunca pensei duas vezes antes de digitar um nome na busca do Gmail, selecionar tudo, excluir e limpar lixeira. Rasgar fotos. Queimar coisas (pela poesia do ato, confesso). Destruir diários. Às vezes nem era por mim, mas por outra pessoa ou um outro motivo qualquer, eu logo me desfazia do que poderia me atrapalhar naquele momento. Se um tempo depois, a pessoa ou o motivo não existissem mais, as lembranças não voltariam, mas prazer, inconsequência soy yo.</p>
<p>Ao mesmo tempo, tenho uma caixinha de coisas não-tão-relevantes, que existe há séculos, e de lá, as coisas não saem. Porque não doem, não incomodam, são pedaços aleatórios de fases que me permitem lembrar como eu virei esse meio metro de paçoca escrivinhante.</p>
<p>Eis que logo após o ocorrido, empolgada com o raciocínio da vida hippie e das coisas que eu não preciso mais, peguei uma caixa de fotos velhas e resolvi fazer a busca, selecionar tudo, excluir e limpar a lixeira.</p>
<p>Parei no segundo seguinte.</p>
<p>Eu não sou um novo namorado com ciúme do antigo. Nem um bando de amigos novos de uma galerinha <em>über cool, man</em>, que achariam estranho o meu antigo cabelo vermelho-fogo, e as roupas coloridas. Eu não sou alguém que me admira hoje, e não conseguiria ligar o nome à pessoa quando se trata do período em que a bulimia me estragou legal. Eu não preciso me desfazer de mim. Também não sou um Windows Vista zoado, pra me apagar.</p>
<p>Peguei todas as lembranças, principalmente as frescas e que ainda doem, e coloquei na caixinha. Fechei, lacrei, e escrevi: purgatório.</p>
<p>Em seguida tirei fotos novas. E muito provavelmente, foram as mais lindas que eu já fiz.</p>
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		<title>Aí eu choro</title>
		<link>http://substantivolatil.com/archives/ai-eu-choro.php</link>
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		<pubDate>Fri, 14 Nov 2008 19:25:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mirian Bottan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>

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		<description><![CDATA[
Uma amiga da minha mãe, que mora nos EUA há 10 anos, tá por aqui. Por aqui mesmo, ali no outro quarto, roubando a cama da paçoca (liga não, Leiloca, a gente te ama!). Daí que, depois de ela contar como o básico pra uma vida decente é garantido por lá, a gente estava discutindo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-602 aligncenter" title="cry" src="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2008/11/cry1.jpg" alt="" width="350" height="440" /></p>
<p>Uma amiga da minha mãe, que mora nos EUA há 10 anos, tá por aqui. Por aqui mesmo, ali no outro quarto, roubando a cama da paçoca (liga não, Leiloca, a gente te ama!). Daí que, depois de ela contar como o básico pra uma vida decente é garantido por lá, a gente estava discutindo sobre como aqui no Brasil o negócio é armar um barraco pra fazer valer os seus próprios direitos.</p>
<p>Quando eu era criança, costumava ter vergonha de quando a minha mãe erguia a voz. Eu não entendia por que ela não podia simplesmente esperar, quieta, como todos, sem chamar atenção de todo mundo pra gente (logo eu, que dançava em cima da mesa da professora, mas ok).</p>
<p>Fui entender quando tinha uns 14 anos. Não tínhamos convênio, e aguardávamos na fila do SUS, pra falar com o psiquiatra (eu, Mirian Bottan, 14 anos, bulímica &#8211; dava filme). Esperávamos por volta de duas horas, quando uma senhorinha de uns 70 anos levanta e vai até o atendente perguntar se ia demorar pra chegar a sua vez. O cara simplesmente gritou com ela, mandando sentar e esperar, enquanto a pobrezinha já chorava de dor.</p>
<p>Eu teria repetido sílaba por sílaba tudo o que a minha mãe disse, indignada, praquele pedaço de bosta que era o cara.</p>
<p>Ou uma outra vez, num hospital infantil, onde uma menininha andava pra lá e pra cá com parte do intestino pra fora (!), e quando as enfermeiras disseram que não podiam dar prioridade à menina, pois os outros pacientes poderiam se irritar, ela levantou e perguntou se alguém ali se incomodaria em ceder a vez. Óbvio que não.</p>
<p>Enfim, eu admiro muito quem, como ela, tem essa coragem de cobrar os seus direitos, e até os dos outros. Porque eu, apesar de ter muita força de vontade pra coisa, não aguento pressão. E depois de uns cinco minutos de pose e fala firme, eu geralmente&#8230; choro.</p>
<p>Sério, é patético.</p>
<p>Numa briga, eu começo falando alto e parecendo um poodle raivoso. Se eu não começar a chorar no meio, assim que acaba, eu procuro o canto isolado mais próximo.</p>
<p>Essa semana, comprei um notebook. Fiquei a noite toda configurando o bicho, instalando todos os programinhas e transferindo arquivos. No outro dia, pela manhã, o treco não ligava. Levei de volta pra loja, sangue <em>nozóio</em>, praguejando contra Deus e o mundo, dizendo que não voltava pra casa sem ele. Pois voltei.</p>
<p>No outro dia, quando fui buscar o pepino que deveria estar resolvido, o mesmo discurso: &#8220;Não quero saber, mano!&#8221;. Quando o cara me disse que eu teria que esperar até o outro dia (longa história), eu me preparava pra pular o balcão e estrangular o mancebo, mas não deu tempo, no segundo seguinte tive que respirar fundo pras lágrimas voltarem. Saí correndo da loja e fui chorar no banheiro. Depois no estacionamento. Depois até chegar em casa.</p>
<p>Mas o mais bonito foi no dia da festa do meu aniversário, que aconteceu em sampa. Todos os hotéis estavam lotados por causa da corrida, e eu já estava desistindo, quando surge uma vaga, de última hora, e num hotel meia boca. Fizemos a reserva, eu e a paçoca, e partimos, no sábado à tarde.</p>
<p>Chegando no hotel, de mala e cuia, e empolgadinhas:</p>
<blockquote><p>-Oi moço, a gente tem reserva.</p>
<p>-?</p></blockquote>
<p>Medo.</p>
<blockquote><p>-Não moça, não tem nenhuma reserva nesse nome.</p></blockquote>
<p>Faltava menos de três horas pra festa, e não havia possibilidade de hotel na região. Eu virei um monstro. Eu não queria saber, não ia sair dali até me arrumarem um quarto, porque aquilo era um absurdo, uma falta de respeito, de profissionalismo, blablablablous.</p>
<p>Meia hora nessa, e nada. O tempo passando.</p>
<p>E bla bla bla whiskas sachê, eu vou processar isso aqui, onde está o gerente, e eu não quero saber, e qual é  seu nome, e vai.</p>
<p>E nada.</p>
<p>Eu já estava no meu limite, ok. Desabei a chorar. Expliquei a história pra camareira, pro porteiro, pro atendente, era a minha festa de aniversário, oh, me socorram.</p>
<p>Aí rolou uma comoção. A mulher começou a ligar pra tudo que era hotel, tentando achar vaga. Em vão, eu havia feito aquilo a semana toda.</p>
<p>No fim, acabou surgindo um quarto, de uns africanos que não queriam dormir juntinhos numa cama de casal. Aí pegamos o bicho. Chegando lá, não tinha água. Voltou vinte minutos depois, gelada, trincando. Ao entrar no banho, a Maira soltou três palavras que descreveram perfeitamente a sensação:</p>
<blockquote><p>-AI MINHA ALMA!</p></blockquote>
<p>Conseguimos ir pra festa, voltar e ter um teto, e <strong>uma </strong>cama (dura) pra dormir. No outro dia, pela manhã, encontramos com uma hóspede que havia presenciado o drama na recepção:</p>
<blockquote><p>-Deu tudo certo, não é? Que bom! Porque ontem eu fiquei com dó e acabei saindo daqui e indo procurar um quarto pra vocês.</p>
<p>-Caramba, não precisava! Mas aposto que não encontrou, estava tudo lotado.</p>
<p>-Que é isso menina, precisava sim! E eu até acabei encontrando, mas quando voltei, vocês já haviam subido.</p>
<p>-Encontrou!?</p>
<p>-Sim, no <strong>Ibis</strong>. Mas felizmente já estava tudo certo por aqui.</p></blockquote>
<p>Eu parei, fazendo uma retrospectiva mental da noite anterior. Na verdade eu só precisava lembrar do banho. Fingi uma satisfação, de leve.</p>
<blockquote><p>-Pois é. Felizmente.</p></blockquote>
<p>É, mãe, reivindicar não é pra todos. Eu vou é entrar num curso de teatro.</p>
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		<title>Upside Down!</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Oct 2008 07:13:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mirian Bottan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Substantivolátil.com]]></category>
		<category><![CDATA[publieditorial]]></category>

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		<description><![CDATA[
Faltando menos de um mês para o meu 22º aniversário, parei, sentei, respirei, e minha mente sagaz começou a produzir uma bela retrospectiva Bottânica.
Não que eu sempre tenha tido uma vidinha normal, insossa e tal, porque eu meio que nasci rock &#8216;n rolleando o mundo, né, fazendo tudo cedo, meio torto, aprendendo as lições por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-539 aligncenter" title="upside_down_house" src="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2008/10/upside_down_house1.jpg" alt="" width="399" height="309" /></p>
<p>Faltando menos de um mês para o meu 22º aniversário, parei, sentei, respirei, e minha mente sagaz começou a produzir uma bela retrospectiva Bottânica.</p>
<p>Não que eu sempre tenha tido uma vidinha normal, insossa e tal, porque eu meio que nasci rock &#8216;n rolleando o mundo, né, fazendo tudo cedo, meio torto, aprendendo as lições por meios empíricos sempre, enfiando o dedo no fogo pra ver que queima. E dá-lhe <em>Paraqueimol </em>até parar de arder.</p>
<p>Mas, felizmente, fiz tudo dentro do limite de cagadas necessárias pra me tornar um ser humano de 20 anos equilibrado e possuidor das faculdades mentais e de todos os membros, não me faltando nenhuma orelha sequer. A vidinha acalmou, tudo tranquilo, namoro com planos de casamento, faculdade, uma partezinha da massa proletária que vai ao mercado na quarta, porque é dia de oferta.</p>
<p>Mas aí fiz um blog.</p>
<p>Um blogzinho inocente, um <em>pontocomzinho</em> meio rosa, meio tosco, de nome esquisito, pra escrever tudo que rolava em caderninhos há tanto tempo.</p>
<p>Exatamente um ano depois, saí num encarte da Playboy e me mudei pra capital. Né.</p>
<p>De repente, não tinha mais namorado, muito menos planos de casamento, da faculdadezinha de jornalismo interiorana pra selva selvagem da publicidade na cidade enorme, com números e tendências, e veneno, e aluguel, e falta de tempo, muito blog, muito blogueiro, muito bar, quilos a mais, oitavo andar com vista ampla e solitária, aprendendo a não precisar dos outros, descobrindo que todo mundo precisa de alguém, descobrindo que menos é mais, descobrindo que <strong>PUTAQUEOPARIU, que que eu tô fazendo aqui, cadê a minha vida!?</strong></p>
<p>E quando eu disse em voz alta, um amigo me respondeu: &#8220;ei, ESSA É a sua vida&#8221;. Né.²</p>
<p>Como eu não estava contente com aquilo, juntei a tralha toda em um dia e vazei de volta pro meu aconchego. Pra recuperar o fôlego, a paz de espírito, o tempo, e me livrar dos quilos, do aluguel, e da solidão.</p>
<p>Mission accomplished, zero meia, caveira. Mas pra quem acha que nessa parte é que eu digo que recuperei os planos de casamento e voltei pra faculdadezinha interiorana, eu dou um um duplo mortal carpado na fuça e digo que há dois dias eu fotografei pra uma marca famosa e conheci um ator da <em>Grobo</em>. Há!</p>
<p>- <em>Vai fazer a goshhtosa pra cima dinói, então?</em></p>
<p>Nem, leitor amigo. Só estava aqui matutando que todas as loucuras que eu já fiz na minha vidinha, ainda iam me levando pra vida dos meus pais (nada contra ela, pais, aqui estou eu, o seu <span style="text-decoration: line-through;">menor</span> melhor legado, que vai comprar uma casa na praia e um jatinho pra vosmecês <span style="text-decoration: line-through;">NOT</span>). E com a coisa mais (inicialmente) insignificante, um passatempo, a minha vida virou de cabeça pra baixo, descobri quem vai estar sempre lá, me livrei de coisas e pessoas que eu pensava serem garantidas e eternas, cresci, descobri <em>quemsô</em>, <em>oncotô</em> e <em>doncovim</em>.</p>
<p>Agora me resta saber <em>proncovô</em>.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p>Observações gerais:</p>
<p>1 &#8211; Já deu pra ter uma noção da pilha que eu tô, e por que aindei sumida?</p>
<p>2 &#8211; Não, eu não posso dar mais detalhes ainda.</p>
<p>3 &#8211; Façam pressão, entrem na <a href="http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=41999949" target="_blank">comunidade do Subs</a> e me enviem pautas!</p>
<p>4 &#8211; Meu aniversário é dia 05/11.  CINCO DO ONZE, TÁ?</p>
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		<title>Na boca do povão!</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Sep 2008 03:20:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mirian Bottan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[u]]></category>

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		<description><![CDATA[
Tudo começou quando eu dormia o justo sono dos recém desprovidos do título de assalariado. Eis que me toca a bagaça do telefone. Eu, achando que era a senhora minha mãe querendo saber se eu já estava isaurando no fogão, saio capotando, batendo cabeça, canela, num auto massacre sem fim para chegar até o dito. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-520 aligncenter" title="bush" src="http://substantivolatil.com/wp-content/uploads/2008/09/bush1.jpg" alt="" width="323" height="353" /></p>
<p>Tudo começou quando eu dormia o justo sono dos recém desprovidos do título de assalariado. Eis que me toca a bagaça do telefone. Eu, achando que era a senhora minha mãe querendo saber se eu já estava <em>isaurando</em> no fogão, saio capotando, batendo cabeça, canela, num auto massacre sem fim para chegar até o dito. Exagero <em>mode off</em>, foi só pra vocês entenderem o porquê da minha raiva quando eu atendo o bicho gritante e ouço:</p>
<p>&#8220;Olá! Aqui é o Fulano de tal!&#8221;</p>
<p>-Ahn?! &#8211; Ainda no mundo dos sonhos, não consigo compreender muito bem o fato de um candidato à prefeitura da cidade estar me ligando. Enigma devidamente resolvido no segundo seguinte:</p>
<p>&#8220;Queria agradecer ao povo de Americana por blablablabla..&#8221;</p>
<p>-FÉLADAPUTS, mano!</p>
<p>Fui acordada por uma gravação maldita, de um candidato querendo ganhar a minha simpatia forjando uma pseudo intimidade telefonal! Achei tosco, e por perder o sono, ainda cultivei uma raivinha de leve.</p>
<p>No mesmo dia, mais tarde, fui ao centro da cidade resolver uns trololós, e olhem só! Se não era o dito da ligação acima, num outdoor num dos pontos mais movimentados da cidade. Normal né, o cara se promovendo e tal. É, seria normal, se ele não estivesse com uma puta cara de babaca, e com aquela mãozinha de miss estendidinha (pro povo, né, gente, que lindo). Parecia um manequim de loja, argh, feio.</p>
<p>Daí tô lá, batendo perna pra cima e pra baixo, e me passa um <span style="text-decoration: line-through;">carro</span> chevete com auto falantes que diziam, numa melodia ridícula, que pra sorte de vocês eu não consigo reproduzir aqui:</p>
<p>&#8220;Cicranooo, cicranooo, tá na boca do povão!&#8221;</p>
<p>Parei, naquele momento da minha vida, e fiz um exercício simples: imaginei o meu pai no lugar do tal cicrano. E concluí que se ele se submetesse àquilo, eu abriria mão da herança, juro.</p>
<p>Minha gente, época de eleição é overdose de <em>marketing pessoal FAIL</em>.</p>
<p>É um festival de sorrisinho maroto na foto, quando todo mundo (incluindo os sorridentes) sabe que todo mundo sabe que aquela lá saía com o cara casado, o outro dá ré no kibe, o outro tenta ser candidato desde que o homem inventou a roda, o outro vende até a mãe, e o outro fecha o poço artesiano que fica no terreno dele, quando não vence. O brinquedo é dele, só brinca se ele brincar.</p>
<p>E quando o cara <em>talvez, quem sabe, pode ser que seja</em> uma pessoa de índole aceitável, não tem o suporte necessário pra ter uma faixa com sorrisinho maroto, e aí sai essas merdas todas.</p>
<p>Tipo o Théo. Nesses nossos tempos modernos, tentem adivinhar qual música o capiau escolheu pra chamar de sua, e gravar na cabeça do povo o seu belo nome de homem <strong>sério</strong>, <strong>competente </strong>e <strong>confiável</strong>.</p>
<p>Uma dica: <strong>rima</strong>.</p>
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		<title>Rockstar</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Aug 2008 16:31:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mirian Bottan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[E todo adolescente, no auge da acne e da rebeldia sem causa, já pensou em ter uma banda.
O meu fogo no rabicó com isso começou muito antes, desde pirralha, quando eu imitava as coreografias dos Backstreet Boys e sabia que cantava bonitinho. No chuveiro, óbvio. Lá, eu ganhava até troféu, logo depois de ir pra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>E todo adolescente, no auge da acne e da rebeldia sem causa, já pensou em ter uma <strong>banda</strong>.</p>
<p>O meu fogo no rabicó com isso começou muito antes, desde pirralha, quando eu imitava as coreografias dos Backstreet Boys e sabia que cantava bonitinho. No chuveiro, óbvio. Lá, eu ganhava até troféu, logo depois de ir pra outro planeta toda vez que mudava a temperatura da água pro frio, ou depois de surfar radicalmente na banheirinha da boneca que fazia xixi, a Pipizinha.</p>
<p>No karaokê, eu e a minha prima éramos duas Tollers mandando Casinha de Sapê, definitivamente.</p>
<p>Lá pelos 14, com cabelo vermelho, unhas cor de laranja, bolsa de acrílico do Mickey e saias de prega das mais variadas cores, fui me enfiar numa aula de violão. Foi lindo quando comecei a ouvir música saindo daquilo, mesmo que demorasse dois anos pra mudar o acorde.</p>
<p>Eis que comecei a pegar um pouquinhozinho de prática, e quando consegui parir o dedilhado de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=VOymZu9hCac&amp;feature=related" target="_blank">Love in the Afternoon</a>, rapaz, <em>só dava eu</em>.</p>
<p>Até que ela surgiu no meu caminho. Suja, trapaceira, evil, evil, evil, destruindo meus sonhos de rockstar: a <strong>pestana</strong>. No dia que uma criança de cinco anos (com a mão do tamanho da minha) conseguir fazer isso, eu também conseguirei.</p>
<p>Eu sei que tem criança de cinco anos que faz isso, mas meu dedo torto complica tudo.</p>
<p>Tá, eu que sou uma imprestável.</p>
<p>Anyway, joguei a <span style="text-decoration: line-through;">palheta</span> toalha, e esqueci a história. Até o dia em que, no meio da tarde, recebo uma ligação, do ex-professor das artes cordísticas, dizendo que havia umas meninas querendo começar uma banda, e que ele havia me indicado pra cantar.</p>
<p>Cuma!?</p>
<p>E fui. Me botaram pra fazer a Avril, e foi ridículo, que eu não aguento o tom da lombriga. Cantei tudo em falsete (que na época, eu te diria que é uma menina falsa, no máximo), mas as meninas, que também não sabiam budega nenhuma, acharam lindo, maravilhoso, <em>uow, mano</em>! E assim, viramos uma banda.</p>
<p>Nunca ganhamos dinheiro nenhum, mas aquela foi uma das épocas mais divertidas da minha vida. A banda &#8220;nasceu&#8221; no dia 8 de março, e era formada por 5 mulheres. Lindo, né, gente? Todo um contexto e tal. O nome inicial era &#8220;Feministheory&#8221;, que ninguém sabia falar, daí foi traduzido e traduzam vocês, que eu vou me calar por questões de vergonha alheia. Enfim, era a TF.</p>
<p>A gente meio que sabia que aquilo não ia vingar como cada uma sonhava. Mas se é pra sonhar, então sonha direito, com pseudo gravações, pseudo músicas próprias, e pseudo showzinhos em festa de amigos, concurso de escola de inglês (segundo lugar, truta) e&#8230; festa de halloween do clube da cidade, onde eu tinha que interromper o auê do <em>putz putz</em>, e conquistar a galera em 3 segundos pra não ser odiada.</p>
<p>A meia listrada até o joelho e o cabelo de água de salsicha devem ter despertado curiosidade, no mínimo.</p>
<p>Com as cinco raparigas no palco, o povo concentrou. E a gente se fodeu de todas as formas. Cabo do baixo deu problema, corda da guitarra estourou, eu com uma vontade incontrolável de chutar a cabeça do puto tentando ver a minha calcinha.</p>
<p>No fim das contas, há uma grande possibilidade de ter sido uma bela merda, e a galera ter gritado apenas por conhecer a gente, ou por sermos um grupo de meninas. Nunca vou saber, pois ninguém lembrou de registrar o momento. Uma pena, né?</p>
<p>Não.</p>
<p>Foi a melhor coisa que fizemos. Pra nós, foi animal e ponto. A empolgação era tanta, que eu aguentei o tom de uma parte de uma música que eu só fazia em falsete, e é só disso que eu quero me lembrar. Lembrar que os meus amigos ficaram orgulhosos da gente lá em cima. Lembrar que uma puta amiga minha que nunca saía praquele tipo de lugar, tava lá na frente do palco, pulando. Isso tudo tá muito bem registrado na cachola, onde não dá pra perder, nem rasgar, nem estragar, nem apagar.</p>
<p>Se eu ainda penso nisso? Mais do que deveria. A música me trouxe muito mais do que eu esperava dela. Daquele monte de cabos, cordas e ensaios atrapalhados, surgiram as pessoas que eu mais confiei na vida. A maior delas (literalmente?), me ensinou ainda como entrar no ritmo da vida, e parar de desafinar por aí.</p>
<p>Enfim, venho matutando há algum tempo aqui em São Paulo, e cheguei a uma conclusão:</p>
<p>Lápis e papel no camarim, por favor.</p>
<p>[ E já diria Silvão: "Aguarrdemm" ]</p>
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		<title>Who says you can&#8217;t go home?</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Jul 2008 19:16:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mirian Bottan</dc:creator>
				<category><![CDATA[Causos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[E roubaram minha carteira. Não foi hoje, não foi ontem, faz quase dois meses. Eu, como a mula relapsa que sou, demorei 2 semanas pra fazer o boletim de ocorrência. Achou feio? Então vou te dizer que fui pra Americana e peguei minha permissão pra dirigir (vencida) pra usar como documento e nunca mais lembrei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>E roubaram minha carteira. Não foi hoje, não foi ontem, faz quase dois meses. Eu, como a mula relapsa que sou, demorei 2 semanas pra fazer o boletim de ocorrência. Achou feio? Então vou te dizer que fui pra Americana e peguei minha permissão pra dirigir (vencida) pra usar como documento e nunca mais lembrei de ir atrás da segunda via de RG, CPF, CNH, <span style="text-decoration: line-through;">PT, RPG, IPTU, CPMF,TPM,</span> etc.</p>
<p>E foi aí que eu descobri que eu não sou ninguém sem aqueles pedacinhos de papel e plástico. Diacho.</p>
<p>Tipo quando minha garganta inflamou, depois de dois dias sem dormir e sem comer, chegou o meu cartão do convênio. &#8220;Uau, que sorte!&#8221;</p>
<p>Mas sem um documento com foto, eu não podia provar que eu era eu, e não iam me atender. Como eu estava num estado deplorável, a atendente ficou com dó e deixou passar. Talvez seja por eu chorado. Não, foi depois que eu implorei pela benzetacil, certeza. Um ser humano implorando por benzetacil só pode estar passando um puta perrengue.</p>
<p>Mas no banco, não teve choro, nem vela, nem fita amarela, como diria a mãe Bottan. Sem o cartão, fora da sua agência, você não faz porra nenhuma. Só saca uma quantia ridícula, e se o documento é uma permissão vencida, todo mundo te olha torto. Não interessa se vc depositou mil e tá sacando cem, nem se você tem um metro e meio, olhos azuis e bochechas rosadas. Aquela japa é arisca.</p>
<p>Daí que pra pagar o aluguel, eu ia ter que sacar o dinheiro na agência onde abri a conta&#8230; em Americana. Isso significava tirar um dia de folga e passar o bendito por lá. Estiquei o fim de semana, e acordei no interior, numa segunda feira ensolarada, com o telefone tocando e eu trombando com as paredes pra chegar até a cozinha e ouvir a minha mãe me mandando não voltar pra cama. Agora sim, home. <img src="http://substantivolatil.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif" alt=")" class="wp-smiley" /> </p>
<p>Tomei um banho, e fui pro ponto de ônibus. O ponto de ônibus de toda a minha vida. Ponto de partida pra ir pra escola, pra aula de violão, pra ir pro ensaio da banda, pra ir pro trabalho, pra terapia, pra faculdade, pra ir encontrar o amor da minha vida, e pra fugir dele.</p>
<p>Sentada antes da roleta, espiando os velhinhos faladores que batiam papo com o motorista, eu ria sozinha. Eu não sabia que sentia falta daquilo. Me perguntaram da família e da vida.</p>
<p>Ao passar pela roleta, entreguei o dinheiro, e o cobrador me empurrou de volta a moeda de cinqüenta centavos. &#8220;Aqui são dois reais! E pra mim tá caro menina, você se lembra de quando era um e pouco?&#8221;.</p>
<p>Passava um pouco da hora do almoço, e algumas pessoas descansavam na praça, resmugando por ter que sair do solzinho bom e voltar ao trabalho. Como eu costumava sentar na praça. Como a gente costumava sentar na praça. A praça que tem uma barraca com o melhor sorvete de doce de leite do mundo. A senhorinha da barraca me perguntou por que eu sumi.</p>
<p>Entrei numa loja pra fazer compras. O cadastro não existia mais, mais de um ano que eu não aparecia por lá. Mas a moça disse: &#8220;Você é a amiga da Marcela, eu lembro de você! Sem problemas!&#8221;.</p>
<p>Cheguei ao banco com preguiça do tanto que eu ia ter que me explicar, e com medo de dar rolo com o documento vencido x quantia grande que eu precisava sacar.</p>
<p>Mas quando fui ao balcão de informações, a menina disse: &#8220;Ei, você não é a filha da Eliana?&#8221;. Sim, eu sou. E a menina era minha prima de segundo grau. E tudo se resolveu. Na fila, encontrei um amigo, e falei sobre pessoas conhecidas e lugares conhecidos, ao invés de comentar o clima.</p>
<p>É incrível como quanto mais paulistana eu me torno, mais eu me aproximo do interior. Morar numa cidade enorme, cheia de números e estatísticas, onde é tudo tão impessoal, te faz pensar que não dá pra viver sem pertencer a um lugar onde você seja a amiga da Marcela, a filha da Eliana, a menina que sempre compra sorvete de doce de leite, ou que senta antes da roleta até perto do destino. Todas aquelas pessoas me conhecem, conhecem a minha história, e eu sempre achei isso um pé no saco. Odiava que me julgassem, ou achassem que sabiam da minha vida.</p>
<p>Hoje, eu só consigo pensar no quão indispensável é ter um lugar onde eu seja mais que um pedaço de papel plastificado. Até porque, <strong>eu</strong> não tenho segunda via.</p>
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		<title>Who says you can&#039;t go home?</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Jul 2008 19:16:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mirian Bottan</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[E roubaram minha carteira. Não foi hoje, não foi ontem, faz quase dois meses. Eu, como a mula relapsa que sou, demorei 2 semanas pra fazer o boletim de ocorrência. Achou feio? Então vou te dizer que fui pra Americana e peguei minha permissão pra dirigir (vencida) pra usar como documento e nunca mais lembrei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>E roubaram minha carteira. Não foi hoje, não foi ontem, faz quase dois meses. Eu, como a mula relapsa que sou, demorei 2 semanas pra fazer o boletim de ocorrência. Achou feio? Então vou te dizer que fui pra Americana e peguei minha permissão pra dirigir (vencida) pra usar como documento e nunca mais lembrei de ir atrás da segunda via de RG, CPF, CNH, <span style="text-decoration: line-through;">PT, RPG, IPTU, CPMF,TPM,</span> etc.</p>
<p>E foi aí que eu descobri que eu não sou ninguém sem aqueles pedacinhos de papel e plástico. Diacho.</p>
<p>Tipo quando minha garganta inflamou, depois de dois dias sem dormir e sem comer, chegou o meu cartão do convênio. &#8220;Uau, que sorte!&#8221;</p>
<p>Mas sem um documento com foto, eu não podia provar que eu era eu, e não iam me atender. Como eu estava num estado deplorável, a atendente ficou com dó e deixou passar. Talvez seja por eu chorado. Não, foi depois que eu implorei pela benzetacil, certeza. Um ser humano implorando por benzetacil só pode estar passando um puta perrengue.</p>
<p>Mas no banco, não teve choro, nem vela, nem fita amarela, como diria a mãe Bottan. Sem o cartão, fora da sua agência, você não faz porra nenhuma. Só saca uma quantia ridícula, e se o documento é uma permissão vencida, todo mundo te olha torto. Não interessa se vc depositou mil e tá sacando cem, nem se você tem um metro e meio, olhos azuis e bochechas rosadas. Aquela japa é arisca.</p>
<p>Daí que pra pagar o aluguel, eu ia ter que sacar o dinheiro na agência onde abri a conta&#8230; em Americana. Isso significava tirar um dia de folga e passar o bendito por lá. Estiquei o fim de semana, e acordei no interior, numa segunda feira ensolarada, com o telefone tocando e eu trombando com as paredes pra chegar até a cozinha e ouvir a minha mãe me mandando não voltar pra cama. Agora sim, home. <img src="http://substantivolatil.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif" alt=")" class="wp-smiley" /> </p>
<p>Tomei um banho, e fui pro ponto de ônibus. O ponto de ônibus de toda a minha vida. Ponto de partida pra ir pra escola, pra aula de violão, pra ir pro ensaio da banda, pra ir pro trabalho, pra terapia, pra faculdade, pra ir encontrar o amor da minha vida, e pra fugir dele.</p>
<p>Sentada antes da roleta, espiando os velhinhos faladores que batiam papo com o motorista, eu ria sozinha. Eu não sabia que sentia falta daquilo. Me perguntaram da família e da vida.</p>
<p>Ao passar pela roleta, entreguei o dinheiro, e o cobrador me empurrou de volta a moeda de cinqüenta centavos. &#8220;Aqui são dois reais! E pra mim tá caro menina, você se lembra de quando era um e pouco?&#8221;.</p>
<p>Passava um pouco da hora do almoço, e algumas pessoas descansavam na praça, resmugando por ter que sair do solzinho bom e voltar ao trabalho. Como eu costumava sentar na praça. Como a gente costumava sentar na praça. A praça que tem uma barraca com o melhor sorvete de doce de leite do mundo. A senhorinha da barraca me perguntou por que eu sumi.</p>
<p>Entrei numa loja pra fazer compras. O cadastro não existia mais, mais de um ano que eu não aparecia por lá. Mas a moça disse: &#8220;Você é a amiga da Marcela, eu lembro de você! Sem problemas!&#8221;.</p>
<p>Cheguei ao banco com preguiça do tanto que eu ia ter que me explicar, e com medo de dar rolo com o documento vencido x quantia grande que eu precisava sacar.</p>
<p>Mas quando fui ao balcão de informações, a menina disse: &#8220;Ei, você não é a filha da Eliana?&#8221;. Sim, eu sou. E a menina era minha prima de segundo grau. E tudo se resolveu. Na fila, encontrei um amigo, e falei sobre pessoas conhecidas e lugares conhecidos, ao invés de comentar o clima.</p>
<p>É incrível como quanto mais paulistana eu me torno, mais eu me aproximo do interior. Morar numa cidade enorme, cheia de números e estatísticas, onde é tudo tão impessoal, te faz pensar que não dá pra viver sem pertencer a um lugar onde você seja a amiga da Marcela, a filha da Eliana, a menina que sempre compra sorvete de doce de leite, ou que senta antes da roleta até perto do destino. Todas aquelas pessoas me conhecem, conhecem a minha história, e eu sempre achei isso um pé no saco. Odiava que me julgassem, ou achassem que sabiam da minha vida.</p>
<p>Hoje, eu só consigo pensar no quão indispensável é ter um lugar onde eu seja mais que um pedaço de papel plastificado. Até porque, <strong>eu</strong> não tenho segunda via.</p>
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