24
May
  Muito do que não basta
Lá pro tempo da minha avó (ou da infância dos meus pais), a despesa da casa era feita em armazéns. Um balcão, um tio atrás do balcão. Não eram muitos os tios, nem os balcões, nem as opções.
Exatamente por isso, pra crescer, tinha que ser de outro jeito.

Vieram os PEGUE E PAGUE, onde o cliente entrava e pegava o que quisesse, botava na cestinha e passava pelo caixa. Agregamento de ítens HORTIFRUTIGRANJEIROS, carnes, pães e lacticínios, crescimento exponencial da variedade de marcas e produtos.

Hoje, o foco é suprir todas as necessidades que o cara possa ter, no mesmo espaço físico. Eletrodomésticos, roupas, remédios, eletrônicos e serviços. Dá pra abastecer o carro, tomar um café, pagar contas, colocar crédito no celular, revelar fotos, fazer amigos e dançar a conga. 24 horas por dia.

Eu lembro de uma infância num esquema armazém do tio.

Eu tinha uma professora, eu tinha uma turma onde ninguém era ruim. Eu tinha umas poucas vontades. Queria gibis, roupas roxas, um macacão e repicar o cabelo. Sabia desde janeiro o que pedir no natal.

E tinha mais PAIXÃO. O peito doía de alegria com as férias na casa das primas, com a semana na praia, com o oi do Renan, com o domingo no clube, com o pacote de Passatempo, a bolacha mais gostosa do universo. Nada era ruim por muito tempo. Assim que o choro secava, já tava tudo bem.

O tempo e as surras vão laceando as emoções, ao mesmo tempo que a gente sofre mais. Uma roupa nova já não tem tanto valor no fim do dia, um sentimento novo já não tem tanto valor no fim da noite. A gente já não sabe qual é a melhor bolacha, já não sabe qual pacote de feijão comprar, tem coisa demais no supermercado, tem gente demais na vida da gente.
Eu ando quilômetros com o carrinho e não levo nada. Eu não gosto mais das coisas que eu gostava e o problema de experimentar uma daquelas que a gente nunca pensa em pegar porque é muito caro, é que a gente tem mania de viciar no que não dá pra ter sempre que a gente quer.

Eu andei perguntando pras pessoas se elas são felizes e ninguém diz “sim”. Ao invés de três letras, elas usam o resto do alfabeto, os números e a mitologia grega. Elas não sabem, elas estão trabalhando pra isso, elas são 70% felizes. Elas se encontram no mercado, de madrugada, procurando por alguma resposta. Andam, olham, pegam, hesitam, devolvem, continuam com fome.

No meio de tanta opção, ninguém dá bola pra algo como uma bala. Não mata a fome, mas adoça uns minutos da vida. É uma alternativa simples e desinteressada, mas boa. Como um cafuné pra dormir.

Da próxima vez que você se perder no mercado, com fome, compre balas.






9
Feb
  Extremos

Há algumas semanas, me perguntaram no Formspring se me comparam muito com a mancebinha da minha irmã. Resolvi discorrer sobre o assunto e colocar na ponta do lápis dedo três comparações que sempre foram um fantasma na vida dessa irmã mais nova que vos fala:

1. Toda reunião de família, o pessoal começa a lembrar como era quando os filhos/sobrinhos/netos eram pequeninos e, como já foi dito muitas vezes por aqui, minha irmã era o capeta em forma de guria.

- Ela abriu e virou um vidro de shampoo na cabeça de uma tia no meio do supermercado, enquanto a coitada da tia segurava a infeliz no colo, olhando para o outro lado ao invés de vigiar a semente do mal.

- Pediu laranja com sal pra minha mãe, supostamente, pra comer. Na verdade, era só pra jogar o sal na cabeça da outra tia que tinha acabado de fazer permanente.

- Fugiu de casa com 3 anos e foi encontrada lavando o banheiro do vizinho.

- Fugiu de casa com 5 anos pra fazer compras no supermercado, onde foi encontrada com uma cestinha cheia de besteiras tipo doces e um absorvente mini, ítem que alegou ser feito para ela, pois era pequenino.

- Defecou no corredor do meu avô.

- Batia nos meus primos que eram mais velhos que ela.

E mais mil ítens que posso continuar citando aqui até enjoar, porque, acabar,  não acaba nunca.

E, lógico, sempre depois de falar da minha irmã ficam todos em silêncio lembrando dos episódios e acho meio impossível não pensar ‘e a Maira?’.

Pois é. Perguntem: E você?

Eu? Eu, nada!

Porque enquanto minha irmã aprontava, eu estava na mesa da cozinha conversando com ervilhas, no chão da sala arrancando as asinhas de insetos, brincando de formar casais com os lápis de cor, picotando papéis ou dormindo, porque como uma tia disse uma vez, era me deixar quieta por 1 minuto que eu deitava onde estava e dormia.

2. Sempre demorei muito mais pra pegar no tranco e isso não é segredo pra ninguém.

Quando minha irmã tinha uns 5 aninhos, minha mãe disse pra paçoquinha que se ela não fizesse xixi na cama naquela semana, ganharia um presente. Parou naquele dia e nunca mais fez.

Tentou isso comigo desde antes dos 5 anos e eu parei faltando 15 dias para completar… 9 anos.

Eu fazia questão de escolher minha fralda no supermercado e colocá-la sozinha. O mínimo de dignidade, né, por favor.

3. Por último, algo que sempre compararam é inteligência/esperteza. Claro, é normal irmãos disputarem as melhores notas e tal.

Mas só vou fazer UM comentário: na mesma idade em que minha irmã sabia quem era Gorbachev, eu perguntava pra minha mãe qual parte da vaca era o frango.

Né.

Pra constar: todas as informações desse post foram confirmadas pelos meus pais e eu agradeço a eles por não desistirem de mim apesar de tudo isso.

Mas é aí que vem um porém. No fim das contas, sem mim, a minha irmã-mais-velha-prodígio não ia conseguir: fazer as malas pra viajar, fazer contas, virar à direita, chegar a lugar algum de carro, achar um apartamento, saber as horas em relógio analógico, dormir depois de um filme de terror e, sem mim, ela não ia ser uma pessoa minimamente equilibrada.

Sem contar que se essa lazarenta não parar de tomar diurético eu, provavelmente, vou ter que doar um rim pra ela.

Então, se você tem um filho que parece meio banana e autista, dê tempo a ele pra crescer e se desenvolver no seu próprio ritmo. É absolutamente normal.

Já se você tem um filho que foge da creche aos cinco anos, passando pela segurança sem NINGUÉM ver, como ela fez, jogue no rio, o quanto antes.

Sério, era o que a gente deveria ter feito.

Brincadeira, Tatá. Sem você, quem iria tomar a minha Coca após dizer que não queria refrigerante? Quem iria morar no meu apartamento sem ser convidada, comer minha comida e bagunçar meu quarto? Quem me deveria dinheiro eternamente? Quem quase me mataria do coração ao passar raspando o retrovisor do carro na cabeça de um burro (o animal) no meio da rua?

Brincadeira de novo! Sabe que tenho vontade de dar na sua cara por essas coisas, mas, sem você, quem me defenderia? Quem me mandaria ser gente quando só tenho vontade de sentar e chorar? Quem me ajudaria a me vestir? Quem faria pipoca pra mim? Quem arrumaria meu notebook? Quem me daria força pra ir pra cidade grande, quando até minha mãe não queria que eu fosse? E continuaria escolhendo as minhas roupas, mesmo em cidades diferentes? Quem me mandaria viver um pouco?

Se sem mim, ela não é uma pessoa minimamente equilibrada, sem ela, não sou uma pessoa minimamente desequilibrada. E sem o desequilíbrio, sem arriscar, eu não seria metade do que sou.

Um viva pros extremos!

E te amo, vaca véia. P







3
Jan
  Are we humans or are we players?

Você cortou a franja muito curta. Sai perguntando se tá muito ruim. Seus colegas dizem que não. Sua irmã diz que não. Seu namorado diz que não. Seu horóscopo diz que não.

Seu primo de seis anos diz que tá feio.

No fundo, você também achava. Mas só a partir daí você para de achar que se arrumar a franja assim e assado vai ficar bom. Agora, você desencana e prende a franja até crescer.

E por que caralhos todas as outras pessoas da sua vida, que não possuem a inocência de uma criança de seis anos, mentiram pra você, sendo que achavam a mesma coisa?

Seus colegas nem prestaram atenção, sua mãe não queria te magoar, seu namorado quis evitar que você ficasse emburrada e seu horóscopo diria qualquer coisa que você quisesse ouvir. Nenhum deles te ajudou a tomar uma decisão. Mesmo as pessoas que queriam evitar o seu sofrimento, acabaram te atrapalhando.

-”Eu ainda te amo, penso em você, mas você me machucou e eu decidi desistir.”

-”Eu só quero te comer e não ficar sozinho, senão eu desabo.”

-”Eu estou bem, mas curto um drama, me faz parecer mais interessante.”

-”Cara, se eu quisesse você, eu diria!”

Acabam virando:

-”Tá sofrendo? Agora chora.”

-”O quê você vai fazer hoje? Queria te chamar pra vir aqui.”

-Frase de impacto no MSN.

-”Ai, moço, hoje eu tô de boa, só vim pra dançar, hihi.”

O quê há de errado com a gente, que não consegue falar a verdade? Na maioria das vezes, nem estamos pensando no outro, então qual o problema em descomplicar a vida das pessoas e evitar sofrimento e perda de tempo? Ou qual o problema em se mostrar desprotegido?

Sabe qual a pior consequência dessa atitude egoísta e tão automática? Ninguém mais acredita nas verdades.

Já tentou virar pra alguém e dizer: “eu errei, me desculpe, eu realmente te amo”, depois de dizer um monte de merda pra parecer forte e superior? Não adianta. Vai parecer vazio. Somos tipo aquele Joãozinho mentiroso, resta rezar pro lobo não chegar, nunca.







31
Dec
  ReveilLOL

E finalmente, o Ano Novo. Uma vez uma amiga me disse que era triste como todo mundo muda e acha que porque virou o ano tudo vai ser diferente e mais lindo. Balancei a cabeça concordando, fui mudando a expressão, meu rosto virou um ponto de interrogação e meti uma cabeçada interrogativa [!] na fuça da rapariga. Triste o caralho, eu acho isso demais!

Não sei vocês, mas eu tenho vontade de dar bom dia e desejar feliz Ano Novo até pro mafioso que mora na frente da minha casa! (será que ele vai ler isso aqui? #medo)

Acho belo todo mundo se preocupando com roupa, presentes de amigo-secreto, minha mãe surtando com a droga do pernil que meu pai trouxe pra ela preparar e mal cabe no forno de tão grande, meu cachorro chegando do pet shop com gravatinha branca brilhante e acho mais belo ainda todas as superstições de Ano Novo.

Na real, sempre falo que não ligo muito pra isso e blablablous, mas quando chega o dia tô lá eu cheia das frescuras.
Superstições são bem simples e se você quer ter muito amor, dinheiro, felicidade, fartura, sorte, saúde, luz, bondade, garantir teu futuro, pensamento positivo, se livrar da depressão e fazer seu intestino funcionar DI-REI-TI-NHO não tem outra opção, você DEVE seguir o que as superstições mandam e cala a boca aí.

Pra começar, compre calcinhas ou cuecas novas, pra ‘garantir o futuro’. Mas dependendo da cor, você roda. Então procura aí no Google a cor certa pra não fazer cagada, afinal, alguém disse que a regência de Vênus fodeu tudo esse ano e os significados das cores que conhecemos vai mudar geral e você, que sempre usa aquele amarelinho gracinha vai se foder pro resto do ano.

Deve colocar também uma nota de dinheiro dentro do sapato, que é onde a energia entra no nosso corpo. Não esqueça de preparar a lentilha, mas pode comer uma colher só, pq depois dela ainda vem as 7 uvas, a romã, nozes, avelãs, tâmaras, a maldita da castanha que é um pé no saco pra abrir e a carne de porco. E nem pense em peru pro Ano Novo, peru cisca pra trás e pelamordedeus você vai andar pra trás o ano inteiro depois de comer o bichinho!

Tudo preparado, hora da virada. Contagem regressiva e aí você faz tudo do jeitinho que foi ensinado:

Numa mão, um prato de lentilha, carne de porco, castanha, avelã, tâmara, nozes e uvas, mas terá que comer tudo isso sem utilizar a outra mão, porque nela estará a taça de champanhe que você deve estar segurando enquanto pula só com o pé direto, onde deve estar a nota de dinheiro dentro, três vezes. Cuidado pra não derramar nem uma gotinha do champanhe, senão já era. Os pulinhos devem ser dados em cima de um degrau, que é pra começar o ano subindo na vida. Agora saia na rua, jogue moedas pra dentro da casa, atrai riqueza, sacoé. Depois disso, dê um jeito de se teletransportar pra praia, e, no mínimo, acender velas, passar uma mistura de pétalas de rosa branca, arroz cru e essência qualquer no corpo, rezar olhando pro mar, depois entrar até onde a água fique na altura da canela, derramar pipoca ao longo do corpo e pular 7 ondinhas. Tudo isso enquanto alguém se preocupa com os fogos de artifício, sinos e músicas. Vale ressaltar: tudo isso à meia-noite.

Se achar que é pouco, corre pra dentro de casa, dá três chutes no vaso sanitário, fale três palavrões e dê três descargas. Não lembro bem o que acontece mas sei que dá certo!

Dicas dadas, vou ajudar minha mãe a virar o pernil gigante que já tá cheirando bem. Feliz Ano Novo e não se matem na maratona de superstições!







15
Dec
  Linguagens

lata

Existem inúmeras formas de se expor sentimentos e ideias. Particularmente, acho a fala a mais besta delas. É justamente falando, que a maioria das pessoas NÃO consegue se fazer entender. Como se o grau de subjetividade fosse inversamente proporcional à facilidade de exposição.

Assim, a gente acaba com preguiça de concatenar tanta coisa rodando na cabeça e se despede com “boas férias”, “até mais” e afins ou pergunta a hora, pensando no sentido da vida.

Eu já escrevi um email pra ser lido na minha frente, só pra não correr o risco de perder a linha de raciocínio e não conseguir dizer tudo que precisava. E é assim, eu falo demais sem dizer nada e digo tudo sem abrir a boca.

E tem gente que pinta o que sente, outros dançam, outros presenteiam. Tem quem fere, querendo dizer e tem quem diz, querendo ferir quase que fisicamente.

Não é o fim do mundo quando duas pessoas usam linguagens diferentes. Uma sempre pode aprender a linguagem da outra e, quando isso não é possível, sempre há uma forma de tradução. Uma amiga da minha irmã ficou com um cara que só falava inglês. Ela, sabia meia dúzia de palavras, incluindo “kiss me”. Conversaram por mímica a noite toda. Nem tudo podia ser entendido assim, então eles usaram um tradutor online.

Tem horas que não precisa mais do que olhar, pra mostrar tristeza, desejo ou raiva.

Por isso eu sinto por quem não tenta nenhuma das formas e deixa tudo não-dito, como se não fosse fazer diferença. Esses vão ficando pra trás. Esses matam o amor. E vão morrendo junto, sem que a gente possa fazer nada.

Mas os meus preferidos são os que cantam. Que juntam todas as linguagens numa só e fazem você se apaixonar até pela melodia que embrulha um contexto onde você se fode. Tem que ter muita alma, muito sangue correndo.

Aos músicos, o meu respeito.