30
Jul
  O que eu desenharia para ganhar vida?

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Eu poderia deixar um comentário, mas essa pergunta lançada pelo Rev. Ibrahim merece mais do que uma rápida resposta. Merece uma ida mais a fundo (hm).

Se você pudesse desenhar algo que se tornaria real, o que seria? Será que é tão fácil responder? Depois de pensar por uns vinte minutos e fuçar em alguns desenhos de quando eu era mais nova, cheguei a uma conclusão: o ser humano é incapaz de escolher ou manter uma escolha quando se trata de desejos. Mesmo que você decidisse hoje, amanhã se culparia ao lembrar de algo melhor/mais importante.

Quando pequena, provavelmente eu desenharia algo relacionado a brinquedos gigantes. Se um brinquedo é legal, gigante então deve ser super! Assim que os mesmos aparecessem na minha frente, eu ia abrir o berreiro. Meu primo tinha um Macaco Murfy e eu adorava. Agora imagina essa porra em tamanho real e fazendo aquele barulho. Virge.

Quando eu fiquei “mocinha” eu era apaixonada por um dos integrantes do grupo Backstreet Boys (passado negro existe e eu que você também tem). Certeza que naquela época eu desenharia o amor da minha vida pra viver feliz pra sempre comigo. Me fala o que eu ia fazer com um mala cantando “Quit Playing Games With My Heart” o dia inteiro até hoje? Nah.

Quando podemos realizar um desejo, costumamos pensar nas coisas mais impossíveis de se ter, pelo menos naquele momento. Uma vez a professora de artes passou uma lição chamada “Sonho Meu” que era, basicamente, desenhar um sonho meu (é memo?). Na época eu estava aprendendo a tocar violão e pensava muito em ter uma bandinha, só que guitarras estavam fora de cogitação pra uma adolescente desempregada. Adivinha o que eu desenhei? Um mundo onde todo mundo tocava e guitarras nasciam em árveres árvoros árvores e notas musicais flutuavam sobre as nossas cabeças. Se guitarras nascessem em árvores, o que caralhos eu ia comer!? Se guitarras nascessem em árvores, Newton teria morrido com uma guitarrada. Mas naquela época a idéia me parecia boa. Nem sempre a gente realmente quer o que pensa que quer. Quando desejamos algo, desejamos apenas a parte boa, anulando qualquer possibilidade de algo dar errado.

Enfim, isso foi pra explicar o porque meu desejo seria algo como carro/casa, e porque eu não trocaria o Mobilon pelo Johnny Depp (apesar que.. brinks! uahau)

E eu deixo uma pergunta: O que o próprio Reverendo desenharia para ganhar vida?







27
Jul
  Por que o seu cachorro é mais feliz que você

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O ser humano é um ser pensante. Pensante até demais. Por isso acontece de eu me pegar questionando o sentido da vida enquanto lavo a louça. Nesse momento, sempre concluo que mais feliz é o meu poodle. A complicação começa no começo: enquanto eu preciso de fraldas, mamadeiras, chupeta, carrinho, berço com gradinha e alguém a postos o tempo todo, ele nasce e uma semana depois já anda e come sozinho, sem frescura. Ele aprende sozinho o que diabos ele precisar pra sobreviver, enquanto eu, seis anos depois estou apenas iniciando o processo de aprendizagem que vai levar um terço da minha vida para ser concluído e determinar diretamente o meu futuro.

Enquanto eu tenho que aprender alemão, ele vai se entender com qualquer cachorro apenas com uma mútua cheirada de bunda.

Enquanto eu me apaixono e desapaixono, sofro, choro, acho que minha vida acabou, tudo a que ele tem que se prestar é sexo casual, pelo instinto e reprodução. Sem lenga-lenga sentimental. Sem fotos rasgadas, sem conversas de quarenta minutos no telefone, sem traição. Eu duvido que ele fosse se importar caso sua última companheira tivesse um affaircom o seu truta Rex. Noup.

Enquanto eu tenho um guarda-roupa cheio de frescura, ele tem uma roupa pro frio. E isso porque ele é um poodle fresco, a minha finada rotweiller nem disso precisava.

Eu, pra ficar feliz, preciso de um conjunto inesgotável de coisas que mudam e aumentam a cada ano que se passa em minha vida. Pra ele balançar o rabinho euforicamente de alegria, basta que eu saia pra colocar o lixo na calçada e volte. Ele faz a festa de boas vindas como se há anos não me visse.

Ele nunca vai precisar viajar de avião a negócios. Conseqüentemente nunca vai sofrer um acidente. Nunca vai jogar videogame num dia de chuva e ser atingido por um raio. Nunca vai precisar ganhar dinheiro pra pagar a faculdade que vai prepará-lo para ganhar mais dinheiro pra comprar uma banheira de hidromassagem. Ele nem gosta de tomar banho. Ele não precisa de um computador, nem de um Playstation, não tá nem aí se o Harry Potter tá no vigésimo sétimo filme, ou quem vai sair pelada na próxima Playboy. Ele nem sabe o que é um blog e o que são palavras-chave.

Ele não precisa limpar a casa e ter talheres bonitos pra receber convidados pra jantar. Ele só precisa tomar um solzinho de manhã e dormir o resto do dia. E precisa da gente. Pra ir colocar o lixo na rua e deixar ele feliz com a volta.

A minha vida é mais interessante do que a dele? Depende do ponto de vista. De qualquer forma, eu vou bater as botas assim como ele. Só que ele nunca vai se perguntar – Afinal, pra quê?. Isso é bom ou ruim? Depende do ponto de vista.







29
Mar
  Amado Mestre!

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Eu sempre tive uma relação de amor e ódio com professores. Amor porque eu sempre gostei muito de aprender, e sempre fui uma ótima aluna, com ótimas notas. Ódio era o que eles sentiam por ter que me dar as ótimas notas. Explicarei melhor.

Segundo relatos, um belo dia, aos 3 anos e meio de idade, eu voltei da creche meio incomodada, ao descobrir que minha melhor amiga sabia ler, e eu não. Ao chegar em casa, soltei um “ela sabe, também quero”, e me tranquei no quarto. Em menos de dois meses, eu lia as faixas ao contrário na rua. Fato verídico, perguntem aos búzios.

O ponto chave dos professores com relação à minha pessoa era o seguinte: eu era autodidata, geralmente estava à frente dos outros alunos, e isso infernizava a vida deles. Eu acabava todas as tarefas rapidamente e atrapalhava o resto da classe. Diz a lenda, que na 1ª série, a professora deixou a sala por 5 minutos, e ao voltar, presenciou a seguinte cena: uma minúscula criança loira dançando em cima da mesa dela, com o resto dos bacurís dançando em volta, no chão. A criança era eu, obviamente.

Já o meu problema com relação a eles era falta de confiança. Ao longo da minha vida, tive várias provas de que eles nem sempre sabem o que estão dizendo. Vou citar três dos piores exemplos de mestres pelos quais passei:

Seu Romeu. Esse sujeito era estranho. Um cara com um tremendo descontrole emocional, que odiava não só a mim, como a todos os alunos, sem nenhum motivo aparente. Apenas por existirmos. Vivia dizendo que odiava ser professor, mas já o era há anos, e continua sendo.

Uma vez, ele desapareceu com uma prova e um trabalho para que eu não fosse aprovada. Como eu havia feito os dois, o caso foi parar na direção, eu chorava e jurava que ambos haviam sido entregues, assim ele acabou tendo que apresentá-los diante de meus pais e da diretora, e naquele momento, eu tive a impressão que ele desejou a minha morte. Jamais entenderei tal acontecimento. Talvez Chuck Norris explique.

Silvana. Mais conhecida como Zoraide, pela semelhança física com a personagem da novela Global. Olhava pros alunos com cara de nojo, e vivia limpando o ouvido com a ponta da chave do carro. Ugh! Eram tantas as pérolas, que o pessoal fez até um site pra ela. Sua expressão mais famosa era a “ONG não governamental”. Os conceitos eram MB (muito bom), B (bom) e I (insuficiente), e ela costumava dizer que MB podia significar I e vice-versa, de acordo com a vontade dela.

O terceiro exemplo é mais recente. Aconteceu ontem na faculdade, e dessa vez eu vou poupar a identidade do cidadão que, querendo nos ensinar termos de tecnologia em inglês, tentou explicar (sem sucesso) o que seria “bluetuth“, e se embananou com o Firewall.

Felizmente, em seguida ele se corrigiu, escrevendo na lousa em letras garrafais, para que os 60 alunos da sala nunca mais esquecessem, o que vinha a ser tal expressão:

-Na verdade pessoal, o Firewall nada mais é do que um SOFTER.

Acho de boa desistir do curso.







14
Feb
  Comunicação – Texto de Luis Fernando Verissimo

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Casais com problemas de comunicação têm um antecedente antigo. Adão e Eva, segundo Genesis.

Pode-se imaginar o clima quando Adão acordou e levou dois sustos: estava sem uma costela e com uma mulher. Especula-se que os dois levaram dois dias para se falar. Para começar, não tinham sido formalmente apresentados. E que assunto poderiam ter, naquele primeiro encontro?

- Como foi seu dia?

- Nem me fale. Até a hora da sesta estava tudo normal. Depois eu sofri uma cirurgia e mudei de estado civil e a população da Terra duplicou, tudo em questão de horas.

- E eu? Há horas eu nem existia. Agora estou aqui, mulher feita, nua e falando aramaico.
Minha tese é que Adão e Eva só se falaram no terceiro dia, e assim mesmo porque Adão foi levado por uma necessidade premente.

- Me coça atrás?

E Eva coçou suas costas, e Adão finalmente compreendeu os desígnios do Senhor ao criar a mulher. Embora nos anos que se seguiram não fossem poucas as vezes em que pensou em dizer a Deus que preferia sua costela de volta.

Quando passaram a ter assunto, Adão e Eva despertaram o ciúme de Deus.

Porque tinham uma coisa em comum da qual Deus não compartilhava: a humanidade, suas glórias e suas misérias. Os banhos de riacho e o medo do escuro, o cafuné e o furúnculo. E Deus providenciou o pecado para ter um motivo nobre para expulsá-los do Paraíso, já que não podia só alegar tagarelice. E quando a prole de Adão e Eva deu sinais de entendimento, pois falavam a mesma língua e celebravam a mesma humanidade, Deus decretou a destruição de Babel e a confusão das línguas. E assim duas vezes usou Deus o demônio para criar a desarmonia entre os homens. Primeiro na forma da Serpente. Depois na forma do Mau Tradutor.

Mas tudo que é humano quer se comunicar. Sem a mulher, Adão arranjaria outro jeito de coçar as costas. Talvez encontrasse até uma maneira de se reproduzir sozinho. Afinal, anos depois, um descendente seu inventou o xerox. Quando Deus lhe deu a mulher não lhe deu uma fêmea, uma companheira ou alguém para cuidar das suas camisas. Deu o que ele precisava para progredir, a precondição para o autoconhecimento e a razão, sem falar na literatura.

Um interlocutor.