18
Nov
  Os opostos se atraem, mas não se entendem

(Este texto foi originalmente publicado no Olla Blog. Aproveita e confere os da galere!)

opostos

Ele gosta de rock e ela de axé. Ele é racional e lida bem com os números, ela, um turbilhão de emoções que conduz através das palavras. Comédia e drama. Pra dentro e pra fora, preto e branco, dia e noite.

E como diabos eles acabam juntos?

Especialistas dizem por aí que eles querem é se completar, encontrar no outro – e possuir, através dele – as características que não encontram em si mesmos. Ok, faz sentido. Mas dá certo?

No começo, talvez. Porque a diferença encanta. Ele, na sua calma, vai ficar abestalhado com toda a vida que ela transmite. Ela, sem parada, vai admirar a incrível capacidade de concentração e traquilidade frente às dificuldades.

Perfeito. Até que, com o passar do tempo – e da novidade – a calma se transforme em falta de atitude e a extroversão em vontade de chamar a atenção pra si.

E como frequentar, com o mesmo ânimo, o mesmo lugar ou ter músicas tema quando os gostos são diferentes? Como criar os filhos com ideais que não batem?

Certamente deve ser mais fácil levar a parada quando as experiências são semelhantes e aproximam. Mas quem é que manda no coração?

O bom do amor (quando pega mesmo) é que ele te permite ceder sem se sentir um imbecil. Quando isso acontece dos dois lados, talvez a coisa funcione.

Quando uma mocinha, num blockbuster aleatório, disse pro cara que não queria cometer nenhum erro, a resposta deu um roundhouse kick em milhões de telespectadores chorosos:

“Então você está na espécie errada, amor. Seja um pato.”







26
Oct
  Como nossos pais?*

Lá no lar Bottânico, a gente tem mania de papear por horas com os velhos sobre o passado deles e como chegamos até aqui.

Na última dessas, eu fiquei horas refletindo sobre o que eu ouvi e cheguei a algumas conclusões.

Meu pai saiu do sítio e começou a trabalhar por volta dos 8 anos de idade, engraxando sapatos. Minha mãe entregava pão de madrugada, também criança. Os dois trabalharam durante toda a adolescência, como muitos de nós, hoje, só que o dinheiro ia todo pra casa. Minha mãe teve que dar até o último mês de salário pro meu avô, antes de se casar.

Mas o que me espanta é a trajetória pós-casamento. Uma sociedade com parentes onde os dois entraram com dinheiro e saíram sem nada; minha mãe vendeu alumínio; os dois montaram barraca na feira; meu pai foi viajar como vendedor e dormiu em hotel com cachorro debaixo da cama; deram quase tudo pra comprar uma mercearia e o antigo dono resolveu comprar uma perua e atender os antigos compradores em suas casas, ferrando o negócio.

Pagaram por anos um apartamento e depois descobriram que, por causa da inflação, a dívida só aumentava e, quando terminassem de pagar, estariam devendo cinco apartamentos. Pararam de pagar. Nesse meio tempo, minha mãe montou uma empresa de fraldas descartáveis, que deu dinheiro suficiente pra erguer a nossa casa antes do despejo do apartamento. Pouco tempo depois, um incêndio destruiu a fábrica toda.

Depois disso, meu pai abriu uma loja de materiais hidráulicos, com dez peças de cada. Foram alguns anos trabalhando pra pagar as contas, sem lucro, mas ele nunca deixou de acreditar. Quinze anos depois, ele vai pra Paris por bater recorde de vendas de um fornecedor.

Apesar de ter dormido nos sacos de arroz enquanto meu pai enchia linguiças, à noite, no açougue da mercearia, eu não tive uma vida dura. Não precisei trabalhar quando criança e sempre tive o que dava pra ter. E eu sempre soube o que dava pra ter e não pedia mais que isso.

Quantas dessas histórias há por aí? A geração dos pais dos quase-adultos de hoje foi a que mais se ferrou, a que passou pelas maiores mudanças. Já nós, nascemos e crescemos num mundo um pouco mais tranquilo, onde não era preciso lutar tanto. Porque eles lutaram por nós.

Só que, sinceramente, eu acho que isso fodeu com alguns de nós. Eu não me sinto digna de ganhar um carro, mas muita gente que eu conheço exige isso, sem ter conquistado porra nenhuma. Muita gente acha normal. Não é. Você tem que conquistar uma coisa pra dizer que é tua. Tem que pagar teu aluguel se quiser morar sozinho. Que trampo, né?

Fui pra São Paulo e vi um cara com as pernas atrofiadas, se arrastando num skate. Quem sou eu pra reclamar e desistir das coisas que eu quero?

Quem é você?

Shame on us, a vida é DEMAIS. É só enfiar a cara.

*Já usei esse título, mas não tinha mais adequado.







29
Jul
  Risky Business – parte II

caminho-facil-ou-dificil

Pode soar meio new age da minha parte, mas tenho cá pra mim que o maior desafio do ser humano é se livrar de suas ideias fixas, pra ser feliz de verdade.

Depois de um tweet sobre o aniversário de 1 ano da minha vida de solteira, de 1 ano sem um namoro que já tinha se tornado problemático e de como me sinto mais feliz por isso, recebi um reply que me deixou muito encucada.  O assunto era o mesmo, mas o cara mandou à merda um casamento de 12 anos e diz ser agora o pai solteiro mais feliz do mundo. Até ai, tudo bem. Mas o que me matou foi a forma como terminou:  ”Por que eu demorei tanto?”

Confesso que essa frase me deu um medo gigantesco. Por que demoramos tanto?

Você continua naquele trabalho porque é natural acordar, trabalhar todo dia, todo o dia, ganhando o mesmo salário.
Você continua com aquela pessoa porque é mais do que normal papear com a familia dela, sua família perguntar por ela, sair com os mesmos amigos, dividir as mesmas situações, o sexo de sempre, as brincadeiras de sempre.
Você continua saindo com aqueles amigos porque se conhecem há décadas e dividem as mesmas coisas que divide com a sua/seu namorado/namorada. Menos o sexo. Ou não.

E não para pra pensar se o que você julga “natural, normal” na verdade já se tornou algo chato ou até infeliz, a que você continua agarrado. Seja pelo medo de soltar, seja por não ter pensando nisso ainda.

Não penso que seja só pela segurança. Há um fator de grande peso que deixamos de lado: ideia fixa.

É algo que nunca me desceu pela goela. Pensar em manter qualquer coisa da minha vida sem emoção, sem querer fazer acontecer, sem o gostinho da conquista, sem um algo novo, me sufoca.

Tudo o que começamos, seja um novo trabalho ou um relacionamento, é também uma busca por novas experiências, algo que nos acrescente mais do que temos até então. Uma espécie de troca, sabe? Você ensina e é ensinado. Mas quando chega o comodismo, é porque também chegou o maldito ponto em que nada mais vai te fazer crescer!

É como terminar a escola e querer voltar para o primeiro ano. Não vai mais ter cabeça para as mesmas piadinhas, não vai mais ter graça sem as companhias e não aprenderá mais nada de útil. Porque assim como nos estudos, a vida é feita pra ser vivida em etapas, conforme a sua necessidade de algo maior.

Continuar na mesma é dizer “te amo” todo dia, pra alguém que você trocaria por uma mariola.

Não há problema em arriscar novas amizades, um novo trabalho e buscar um novo amor. Mas talvez haja em continuar pra sempre neles achando que já é tarde ou ainda é cedo.







18
Jul
  Risky Business

cage

Pode soar meio new age da minha parte, mas tenho cá pra mim que o maior desafio do ser humano é se livrar da necessidade louca de segurança, pra ser feliz de verdade.

Quando eu ouço o bom e conhecido “o seguro morreu de velho”, até me ataca um cacoete. Por dois motivos:

O primeiro eu até explico com um W. Shedd: “Um barco, no ancoradouro, está seguro. Mas não é para isso que os barcos são feitos”.

Mas o segundo é o meu preferido: desde quando somente as atitudes do seguro são fator determinante da sua própria segurança?

Atravessar na faixa não impede ninguém de ser atingido por um carro desgovernado.

Veja bem, isso não é um ode à quebra das regras todas, não tô dizendo pra ir dançar frevo no meio do cruzamento. Eu só acho que é uma questão de análise de “custo-benefício”. O que é que você perde, pra ganhar o que ganha?

Quanto valia a vida do policial à paisana, assassinado ontem, ao tentar impedir um assalto numa lotérica, aqui perto da minha casa?

Quanto vale a alegria daquela menina que eu vejo no mesmo ponto de ônibus, nos mesmos horários, com o mesmo uniforme da loja de sapatos, há mais de cinco anos? Eu posso estar enganada, mas será que o salário dela vale a expressão mau-humorada com a qual eu até me acostumei?

Quanto vale a sua liberdade?

Quanto vale poder errar e acertar sem se sentir culpado, quanto vale se sentir vivo?

Estar deitada no colo da mãe, o que parece ser o lugar mais seguro do mundo, não impediu a Maira de tomar uma laranjada no nariz. Fui eu quem jogou, foi sem querer e eu já pedi milhares de desculpas, mas o que eu quero dizer é que ela, deitada ali, provavelmente sentia que nada de ruim podia acontecer.

Usando a paçoca como exemplo novamente (coitada, se fode mais que eu): ontem, ela foi caminhar pelo bairro, que é tranquilo e relativamente seguro, e acabou correndo de quatro cães-de-guarda. Quem poderia prever que um dono sem-noção ia deixar os bichos soltos, num horário onde puta galera sai pra caminhar?

Enfim, quando ela chegou, o meu pai disse que ela não devia ter corrido e sim ficado parada, ou ainda, ido na direção dos cães! Ele já o fez. Talvez essa minha coragem venha um pouco daí, vai saber.

De qualquer forma, nesses cinco anos, onde parece que eu já fiz tanta doideira, acredito ter aprendido mais do que a menina dos sapatos.

Acordar já é perigoso. Se você pretende nem sair da cama, se mata.

“No bird is meant to be caged.”







10
Jun
  Sexta-Feira 12

cupid_dead

Aí marquei um chopp pra Sexta, com uma galera-gente-boa random. Porque, ah, eu estarei em Sampa pra dois trampos no dia e ninguém ia fazer nada, mesmo. Uma parada durante a manhã, tarde livre e a outra à noite, antes da farra.

-Nossa, na noite de Sexta, wtf?

-É que é uma parada com o d… dia dos… namorados… que é na… Sexta? Orra, meu! Esqueci o dia dos namorados!

Né, esqueci. Mesmo com as propagandas todas, não me liguei no dia, não calculei nada, caguei pro dia dos namorados.

Aí hoje, parei cinco minutos pra correr os olhos pelas fofocas twiteiras e pronto:

“Odeio o dia dos namorados.”

“Mais um dia dos namorados sozinho(a)”

“Sexta é dia de me enfiar embaixo das cobertas e esquecer do mundo.”

Gentem, na boa, vai todo mundo pra benzedeira, credo!

Olha só, se liguem-se no que eu vou compartilhar. De todos os anos que eu namorei (os quase oito) eu não me lembro de nenhum dia dos namorados em especial. Sério. Isso porque quando chegava esse dia maldito, TODOS os restaurantes estavam lotados, os motéis lotados, os banco de praça lotados, o bar do Zé lotado, o bar da Loira Drink’s lotado e nem os véio saíam tempo suficiente pra armar uma em casa.

Ou seja, era mais fácil planejar uma noite especial a dois em qualquer outro dia do ano, a não ser que programasse tudo dois meses antes.

Isso sem contar a porra da obrigação do presente. Eu sou do tipo que tá indo almoçar, vê uma roupa/perfume/cd que ele vai gostar e compra. Pode ser no dia 10 de Novembro, que é, sei lá, dia do trigo, simplesmente pra ver a felicidade do outro. Daí eu não vi nada legal, não faço idéia do que comprar, mas preciso.

Depois de anos de namoro, você ainda corre o risco de comprar pela obrigação e o lazarento esquecer o teu.

Enfim, meus argumentos não são apenas pelo “capitalismo disfarçado de sentimento, URRA!”. Porque datas como o Natal e a Páscoa, por exemplo, ainda te mandam pra casa, reúnem a família, vai todo mundo pra casa da vó encher a pança e passar um tempo junto, inclusive parentes que moram fora e você só vê algumas vezes por ano. Tipo, só nessas datas. Enfim, nem essa desculpa o dia dos namorados tem, porque, salvo um ou outro caso, os namorados se encontram e se pegam regularmente.

Pra ser sincera, o ano em que essa data mais me marcou foi o último, por ser o primeiro em que eu não estava oficialmente namorando, mas ao mesmo tempo estava num chove-não-molha, que não me deixava nem esquecer do dia, nem querer lembrar, aí confundiu a mente.

Mano, eu lembro que rolou a tag TPDN, ou “Tensão Pré Dia dos Namorados”, no Twitter. Pra quê, né gente, que fim de carreira.

Então assim, o ponto é: se a falta de um namorado te incomoda, eu presumo que te incomode o tempo todo, todos os dias, ou pelo menos no fim das baladas e nos dias frios, e não SÓ nos dias que antecedem a datinha florida. Então para de bancar a rosa da Fera quando tá caindo a última pétala, que é irritante. Os casais NÃO se multiplicam nessa data, muitos deles voltam pra casa e brigam depois do jantar, muitos outros dão uma trepadinha marromenos no estilo do presente, outros ainda não completaram nem dois meses de namoro, esses estarão super apaixonados e felizes todos os dias, é você que só vai reparar nisso nessa noite em especial.

Comemora a independência da Rússia, o dia do Beagle, o aniversário do Maguila e a fundação do Figueirense Futebol Clube, mas não fica aí chafurdando em auto-piedade.

Pega a grana que você não vai gastar com ninguém e marca um chopp com uma galera, enche o saco daquele camarada que tá borocoxô porque terminou com a mina, manda ele tomar no cu e curtir a noite. E curta também.

Lembre-se que, ao menos, caiu na Sexta. Além disso, Sexta-Feira 12 deve ser algum sinal.