19
Aug
  Rockstar

E todo adolescente, no auge da acne e da rebeldia sem causa, já pensou em ter uma banda.

O meu fogo no rabicó com isso começou muito antes, desde pirralha, quando eu imitava as coreografias dos Backstreet Boys e sabia que cantava bonitinho. No chuveiro, óbvio. Lá, eu ganhava até troféu, logo depois de ir pra outro planeta toda vez que mudava a temperatura da água pro frio.

No karaokê, eu e a minha prima éramos duas Tollers mandando Casinha de Sapê, loco.

Lá pelos 14, com cabelo vermelho, unhas cor de laranja, bolsa de acrílico do Mickey e saias de prega das mais variadas cores, fui me enfiar numa aula de violão. Foi lindo quando comecei a ouvir música saindo daquilo, mesmo que demorasse dois anos pra mudar o acorde.

Eis que comecei a pegar um pouquinhozinho de prática, e quando consegui parir o dedilhado de Love in the Afternoon, rapai, só dava eu.

Até que ela surgiu no meu caminho. Suja, trapaceira, evil, evil, evil, destruindo meus sonhos de rockstar: a pestana. No dia que uma criança de cinco anos (com a mão do tamanho da minha) conseguir fazer isso, eu também conseguirei.

Eu sei que tem criança de cinco anos que faz isso, mas meu dedo torto complica tudo.

Tá, eu que sou uma imprestável.

Anyway, joguei a palheta toalha, e esqueci a história. Até o dia em que, no meio da tarde, recebo uma ligação, do ex-professor das artes cordísticas, dizendo que havia umas meninas querendo começar uma banda e que ele havia me indicado pra cantar.

Cuma!?

E fui. Me botaram pra fazer a Avril, e foi ridículo, que eu não aguento o tom da lombriga. Cantei tudo em falsete (que na época, eu te diria que é uma menina falsa, no máximo), mas as meninas, que também não sabiam budega nenhuma, acharam lindo, maravilhoso, uow, mano! E assim, viramos uma banda.

Nunca ganhamos dinheiro nenhum, mas aquela foi uma das épocas mais divertidas da minha vida. A banda “nasceu” no dia 8 de março e era formada por 5 mulheres. Lindo, né, gente? Todo um contexto e tal. O nome inicial era “Feministheory”, que ninguém sabia falar, daí foi traduzido e traduzam vocês, que eu vou me calar por questões de vergonha alheia. Enfim, era a TF.

A gente meio que sabia que aquilo não ia vingar como cada uma sonhava. Mas se é pra sonhar, então sonha direito, com pseudo-gravações, pseudo-músicas-próprias, e pseudo-showzinhos-em-festa-de-amigos, concurso de escola de inglês (segundo lugar, dron) e… festa de halloween do clube da cidade, onde eu tinha que interromper o auê do putz-putz, e conquistar a galera em 3 segundos pra não ser odiada.

A meia listrada até o joelho e o cabelo de água de salsicha devem ter despertado curiosidade, no mínimo.

Com as cinco raparigas no palco, o povo concentrou. E a gente se fodeu de todas as formas. Cabo do baixo deu problema, corda da guitarra estourou, eu com uma vontade incontrolável de chutar a cabeça do corno tentando ver a minha calcinha.

No fim das contas, há uma grande possibilidade de ter sido uma bela merda e a galera ter gritado apenas por conhecer a gente, ou por sermos um grupo de meninas. Nunca vou saber, pois ninguém lembrou de registrar o momento. Uma pena, né?

Não.

Foi a melhor coisa que fizemos. Pra nós, foi animal e ponto. A empolgação era tanta, que eu aguentei o tons não antes aguentados e é só disso que eu quero me lembrar. Lembrar que os meus amigos ficaram orgulhosos da gente lá em cima. Lembrar que uma puta amiga minha que nunca saía praquele tipo de lugar tava lá na frente do palco, pulando. Isso tudo tá muito bem registrado na cachola, onde não dá pra perder, nem rasgar, nem estragar, nem apagar.

Se eu ainda penso nisso? Mais do que deveria. A música me trouxe muito mais do que eu esperava dela. Daquele monte de cabos, cordas e ensaios atrapalhados, surgiram as pessoas que eu mais confiei na vida. A maior delas (literalmente?), me ensinou ainda como entrar no ritmo da vida, e parar de desafinar por aí.

Enfim, venho matutando há algum tempo aqui em São Paulo, e cheguei a uma conclusão:

Lápis e papel no camarim, por favor.

Será?







7
Aug
  The end of the world as we know it

E o Doni disse que o mundo pode acabar. Ele acabou de reafirmar no Twitter, e não faz o mínimo sentido eu vir correndo escrever esse texto pra dar tempo de alguém ler, se o mundo for acabar mesmo.

Então, na verdade, eu não estou escrevendo pra vocês, e sim pra mim mesma, pra tentar entender o porquê de não conseguir saber o que eu quero fazer agora se o mundo for acabar daqui a pouco.

Eu estou na agência, com os fones de ouvido, e fucking ironicamente está tocando “Keep The Faith” do Bon Jovi. Meu maxilar dói, como sempre dói, e eu já tomei dois comprimidos de Dorflex, e não ia tomar mais porque faz mal. Mas se o mundo for acabar mesmo, não quero passar as últimas horas com dor na merda do maxilar.

Péraê. Passei a manhã toda com vontade de comer uma trufa e não o fiz por que estou de dieta. Mas se o mundo for acabar isso não faz diferença, então aguardem um minuto que eu vou comprar uma.

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Pronto.

E nesse exato momento, essa trufa, esse pedaço de coisa doce me confirmou que eu sou uma panaca. Porque ela é tradicional. De novo. Nem perto do fim do mundo eu consegui experimentar um sabor novo de trufa.

Aliás, eu não queria uma. Eu queria cinco, DEZ trufas. Queria me entupir de trufa até vomitar. Mas não tenho coragem. Como também não tive coragem de xingar o cara que me esmagou no elevador na volta, pra subir apenas um andar. E isso apesar de o tempo lá fora estar cinza, colaborando com o clima de fim do mundo.

Sentada aqui, eu fico pensando nas coisas que eu faria. Quando na verdade, tudo o que eu faria seria pensar no que eu faria. Porque se eu fosse mulher, pegaria esse telefone e ligaria pra falar um “If I give up on you, I give up on me”, ou uma frase cafona do Bon Jovi pra dizer que eu não aguento mais não ter ele aqui, ou pra mandar pra puta que o pariu, porque ele tá fodendo com a minha vida e com a minha sanidade.

Entraria no Orkut daquela lambisgóia e diria pra ela que ela parece o Costinha. Porque ela parece mesmo e eu odeio ela! Sairia dessa cadeira AGORA e pegaria o ônibus pra Americana porque é onde eu queria estar, com a minha familia. Mas antes disso, passaria na lanchonete e diria pro carinha de lá que é RIDÍCULO quando ele me chama de anjo azul e que ele não vai conseguir nada comigo me dando chocolates, NUNCA.

Mandaria pro inferno todo mundo que está me interrompendo enquanto eu tento raciocinar e escrever esse texto.

Tiraria os fones de ouvido, e cantaria pra todo mundo aqui ouvir, como eu estava cantando ontem à noite, só porque estava sozinha. Eu canto bem, e nunca deixo ninguém ouvir. Pintaria meu cabelo de novo, porque eu queria ter nascido morena. Falaria pro menino que senta do meu lado que eu NÃO SUPORTO ele fazendo aquele barulho com o nariz, e que é nojento!

Se eu fosse mulher, eu desabaria a chorar aqui mesmo, agora, porque é o que eu tô com vontade de fazer. E jogaria uma garrafa na cabeça daquela menina que me encara com aquela fuça esnobe no banheiro.

Mas eu não vou fazer nada disso. Simplesmente porque eu já devia ter feito. Não deveria ser a proximidade do fim a única coisa que iria me convencer a fazer todas as coisas que eu quero fazer. Todos os dias da minha vida, ao acordar, poderia ter sido meu último dia. Eu sempre pensei que podia cair, bater a cabeça no meio fio e morrer. Eu tentei dizer isso tantas vezes, e ninguém nunca me entendeu.

É por isso que eu jogo cadeiras quando brigo, bato e peço desculpas num intervalo de cinco minutos, xingo e digo que amo, por isso que eu já saí da minha casa às duas da manhã pra bater naquele portão, e nunca quis deixar pra terminar uma discussão no outro dia. É por isso que pego o ônibus e viajo depois do expediente pra voltar na manhã seguinte e nunca tenho paciência. É por isso que eu errei tanto a minha vida toda, e me arrependi em seguida. É por isso que eu acertei tanto também.

Se o mundo acabasse amanhã mesmo, eu teria certeza absoluta que tentei de todas as formas, com todas as pessoas. Todos eles sabem o que devem saber. O quanto eu sou descontrolada, nervosa e briguenta, o quanto eu os amo com todas as minhas forças, e que se eu tivesse sete vidas, daria todas por cada um deles, sem pensar uma vez sequer.

Eu não quero, e não vou comprar um sabor novo de trufa. Porque é a tradicional que eu amo.







24
Jul
  Who says you can’t go home?

E roubaram minha carteira. Não foi hoje, não foi ontem, faz quase dois meses. Eu, como a mula relapsa que sou, demorei 2 semanas pra fazer o boletim de ocorrência. Achou feio? Então vou te dizer que fui pra Americana e peguei minha permissão pra dirigir (vencida) pra usar como documento e nunca mais lembrei de ir atrás da segunda via de RG, CPF, CNH, PT, RPG, IPTU, CPMF,TPM, etc.

E foi aí que eu descobri que eu não sou ninguém sem aqueles pedacinhos de papel e plástico. Diacho.

Tipo quando minha garganta inflamou, depois de dois dias sem dormir e sem comer, chegou o meu cartão do convênio. “Uau, que sorte!”

Mas sem um documento com foto, eu não podia provar que eu era eu e não iam me atender. Como eu estava num estado deplorável, a atendente ficou com dó e deixou passar. Talvez seja por eu chorado. Não, foi depois que eu implorei pela benzetacil, certeza.

Mas no banco, não teve choro, nem vela, nem fita amarela, como diria a mãe Bottan. Sem o cartão, fora da sua agência, você não faz porra nenhuma. Só saca uma quantia ridícula e se o documento é uma permissão vencida, todo mundo te olha torto. Não interessa se vc depositou mil e tá sacando cem, nem se você tem um metro e meio, olhos azuis e bochechas rosadas. Aquela japa é arisca.

Daí que pra pagar o aluguel, eu ia ter que sacar o dinheiro de uma vez na agência onde abri a conta… em Americana. Isso significava tirar um dia de folga e passar o bendito por lá. Estiquei o fim de semana e acordei no interior, numa segunda feira ensolarada, com o telefone tocando e eu trombando com as paredes pra chegar até a cozinha e ouvir a minha mãe me mandando não voltar pra cama. Agora sim, home. )

Tomei um banho e fui pro ponto de ônibus. O ponto de ônibus de toda a minha vida. Ponto de partida pra ir pra escola, pra aula de violão, pra ir pro ensaio da banda, pra ir pro trabalho, pra terapia, pra faculdade, pra ir encontrar o amor da minha vida, e pra fugir dele.

Sentada antes da roleta, espiando os velhinhos faladores que batiam papo com o motorista, eu ria sozinha. Eu não sabia que sentia falta daquilo. Me perguntaram da família e da vida.

Ao passar pela roleta, entreguei o dinheiro e o cobrador me empurrou de volta a moeda de cinqüenta centavos. “São dois reais! E pra mim tá caro menina, você se lembra de quando era um e pouco?”.

Passava um pouco da hora do almoço e algumas pessoas descansavam na praça, resmugando por ter que sair do solzinho bom e voltar ao trabalho. Assim como eu costumava sentar na praça. Como a gente costumava sentar na praça. A praça que tem uma barraca com o melhor sorvete de doce de leite do mundo. A senhorinha da barraca me perguntou por que eu sumi.

Entrei numa loja pra fazer compras. O cadastro não existia mais, mais de um ano que eu não aparecia por lá. Mas a moça disse: “Você é a amiga da Marcela, eu lembro de você, sem problemas!”.

Cheguei ao banco com preguiça do tanto que eu ia ter que me explicar e com medo de dar rolo com o documento vencido x quantia grande que eu precisava sacar.

Mas quando fui ao balcão de informações, a menina disse: “Ei, você não é a filha da Eliana?”. Sim, eu sou. E a menina era minha prima de segundo grau. E tudo se resolveu. Na fila, encontrei um amigo e falei sobre pessoas conhecidas e lugares conhecidos, ao invés de comentar o clima.

É incrível como quanto mais paulistana eu me torno, mais eu me aproximo do interior. Morar numa cidade enorme, cheia de números e estatísticas, onde é tudo tão impessoal, te faz pensar que não dá pra viver sem pertencer a um lugar onde você seja a amiga da Marcela, a filha da Eliana, a menina que sempre compra o sorvete de doce de leite ou que senta antes da roleta até perto do destino. Todas aquelas pessoas me conhecem, conhecem a minha história e eu sempre achei isso um pé no saco. Odiava que me julgassem ou achassem que sabiam da minha vida.

Hoje, eu só consigo pensar no quão indispensável é ter um lugar onde eu seja mais que um pedaço de papel plastificado. Até porque, eu não tenho segunda via.







24
Jun
  Rala o coco, mexe a canjica

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Pra mim, Dezembro tem cheiro próprio. Já me disseram que é por conta de uma tal árvere árvoro árvore que floresce só na época, mas eu me recuso a engolir. Dezembro cheira diferente por conta do natal. Assim como os meses de Junho e Julho tem seu cheirinho particular por conta das festanças caipirescas. É realmente uma pena que, assim como o natal e os aniversários, as festas juninas/julinas percam a graça conforme a gente vai acumulando velas no bolo.

Aqui na capital, o mais perto que eu cheguei das tradições interioranas até o presente momento, foi no almoço de hoje, com bandeirinhas decorando o restaurante e os garçons vestidos com camisas de flanela, servindo um quentão digrátis. Ainda assim, num miserê…

Enfim, eu tenho saudade das festas juninas, ainda que nunca tenham sido, exatamente, dias de glória. Porque analisando bem, eu sempre me fodi nos pseudo-relacionamentos-quadrilhísticos:

Fui noivinha na dança por uns anos. Minha mãe me fez um vestido lindo, a partir do vestido de noiva dela. No primeiro ano, me escolhem um capeta alado de noivo. No outro, o menino era lindinho, mas eu estava banguela. Mas tipo, MUITO banguela.

Num outro ano, o meu par empaca. Na gravação, a ameba do moleque parado, com cara de coruja, e eu empurrando: “Daaaança, Thiaaaago!”. Num outro ainda, a pomba caga na camisa do meu par minutos antes da dança e ele quase desiste, ao invés de simplesmente limpar a merda.

Mas teve o pior, o mais traumatizante da minha infância, que foi quando o menininho por quem eu nutria um amorzinho platônicozinho, disse que preferia dançar com um cachorro do que comigo. Aquilo doeu. Renan era o nome do maldito.

Anos depois, eu disse isso pra ele de volta. Mas o trauma ficou.

Apesar dos pesares, não dá pra negar a delícia que era. Escolher a roupa (ou fazer um exchange com as primas), cortar bandeirinhas, ensaiar a quadrilha, numa expectativa só. E no dia, virar a estrela da festa, com maquiagem e tudo (mesmo odiando aquelas pintas estúpidas). Aquela criançada enfileirada desenfileirando, a professora louca com aquela massa colorida de crianças enchapeladas, pisoteando no “olha a chuva!”, e incapaz de fazer aquela ciranda maldita de meninos pra fora, meninas pra dentro, e cruza a mão, e roda, e volta, e cruza, e putaquepariu, que foda!

Tudo devidamente documentado em empoeiradas fitas VHS, que precisam, urgentemente, virar DVD.

E no interior a coisa não pára em festinhas de escola. Nessa época do ano, é só ter saco e gasolina, que rodando pela cidade você pode encontrar as festinhas de bairro. Essas sim, com a vizinhança cheia de quentão e vinho quente, e aquela gorda da casa da esquina com chapéu de trancinhas loiras achando que consegue, bêbada, pular a fogueira do terreno baldio, essas são sensação.

E pelo amor de Santo Antonho, Rodeio não é equivalente à festa Junina. A sigla FDP, definitivamente, não é mera coincidência. Festa do Peão é o lado negro, feio e gordo da coisa, onde todo mundo se entope de pinga com mel pra ver um touro com o saco apertado, pulando com uma anta em cima, uma tradição que nem nossa é, ao som de Bruno e Marrone.

Que infelizmente, são nossos.







29
May
  Uma Aprendizagem

Deitada com os pés voltados pra cabeceira e a cabeça para o pé da cama, de modo que pudesse ver as estrelas pela janela sem ter que me levantar, imaginava se já passava das dez. Tive ímpeto de checar, mas me contive. Depois de um banho quente e um pouco de vinho, já não sabia se esperava o alívio de todas as minhas dores ou uma pizza de mussarela. Tampouco sabia se tinha 15 ou 70 anos, a mente perdida naquele misto de euforia e nostalgia.

-Merda, vou beber mais.

Peguei a taça vazia e fui atrás do resto do vinho. A garrafa parecia torcer o nariz:

-Fraca.

-Cala a boca, sua garrafa.

Nem era uma garrafa. Era uma garrafinha. Não tinha vidro pra nem meia garrafa. Tinha mais é que ficar na dela.

Voltei pro quarto e sentei na cama. Pensei em beber aos poucos, pra condizer com o clima calmo e equilibrado do quarto, mas queria deitar logo. Tomei tudo num gole e fui espiar a rua, dando tempo pro liquido se acomodar no estômago. E então eu o vi.

Não podia desenhar detalhes alí da janela do oitavo andar, mas me parecia alto, magro e vestia camisa e calças escuras. E ajeitava duas caixas de papelão, numa distância suficiente para que acomodasse os pés dentro de uma e a cabeça dentro da outra, se cobrindo com uma terceira.

Fiquei zonza. Olhei pro lado, para a cama de casal, que acomodava uma só mulher. Que nem era uma mulher. Era uma mulherzinha. Não tinha tamanho para nem meia mulher. Mas tinha aquele quilômetro de cama, mais coberta e fronhas com estampa de zebra que tinham custado os olhos da cara.

Parecia que eu ainda olhava da janela, mas quando notei, estava parada na portaria com uma coberta nas mãos.

Era mais velho do que me parecia lá de cima, e tinha apenas dois dentes que se pudesse ver. Mas fui eu quem não deu conta de absorver a enxurrada de informações que ele despejou em menos de 15 minutos, discorrendo de forma brilhante sobre fé, vida e esperança, e deixando fluir um conhecimento escancarado sobre história, biologia e matemática, enquanto eu não conseguia dizer palavra.

Não quis me contar o que diabos nessa vida o fizera acabar alí, na minha calçada. Mas nem precisava.

E eu, tinha trocado um cobertor por uma boa dose de vergonha na cara.

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E pra complementar, vai um texto de Clarisse Lispector, que encaixa muy bien com a minha reflexão. Com trilha de Lenine, pelo mesmo motivo.

“Mas olhe para todos ao seu redor e veja o q temos feito de nós e a isso considerado vitória de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficando do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos do que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.

E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.”

(Lispector, Clarice. Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.)