
E estava a professora de alemão a me falar, semanas atrás, sobre a expressão auf wiedersehen, o nosso talvez outrora mais falado: até mais ver. Porque pode ser que alguns de vocês ainda até-mais-vereiem as pessoas, mas cá com os meus sou mais de um falou. E seguindo, me mostrou que assim como basear a despedida numa esperança de ver o cujo do dito novamente, lá pras terras alemoas, as conversas ao telefone terminam baseando-se na possibilidade de ouví-lo. Um “até mais ouvir”, ou auf wiederhören.
Aí que, depois de negar uma chamada no celular, me pipocou aqui a idéia de que talvez eu nunca use essa expressão.
Não sei explicar quando e como começou. Sei que aos 12 anos eu chegava da escola, preparava um copo gigantesco de leite com achocolatado, enfiava o cartucho no meu Super Nintendo, e passava horas desvendando os segredos do Super Mario World e comentando o último episódio de Pokemon com o meu… er, primeiro namoradinho, e hoje, eu simplesmente não posso colocar músicas que gosto como ringtone do meu celular, porque pego ódio mortal de todo barulho que me indique que alguém do outro lado da linha espera que eu diga alô.
O meu último namoro começou quando, num impulso, passei o meu número pro amigo dele. Mas eu devo ter feito isso na esperança de encontrá-lo pessoalmente antes que o hombre resolvesse discar o que estava no papelzinho. Não aconteceu. Minha próxima lembrança é a minha mãe parada com o telefone na mão, esticando aquela jeringonça na minha direção, enquanto eu me escondia atrás de uma quina de parede, como se o próprio interlocutor estivesse na mão dela: é… oi?
Quando eu passo o número do meu celular, eu quero dizer “me envie sms”. Se alguém me pergunta quando pode me ligar, eu invento compromissos, ou qualquer coisa que impossibilite a situação. Eu nego chamadas e envio uma mensagem. Cheguei a cogitar fobia social, mas pessoalmente eu sou exageradamente sociável. Principalmente com saquê e morango nas mãos.
O telefone é traçoeiro. Veja bem, nós temos dois exemplos que deixam a situação mais confortável, ou por esconder ou por mostrar demais.
Face-to-face, você fica desprotegido, tem a desvantagem de não ter muito tempo pra elaborar, pensar no que responder, ou começar uma idéia e desistir dela no meio. Falou tá falado, você pode mudar, mas o outro já ouviu. Porém, mesmo que você fique em silêncio, tem a vantagem de visualizar cada reação, cada sinal de linguagem corporal, podendo identificar rapidamente um tamos aí, baby, ou pediu pra parar, parou.
Com cartas, mensagens ou os nossos queridos instant messengers, podemos começar uma frase, parar, pensar, apagar e reescrever, ou ainda elaborar com mais calma uma idéia antes de passar adiante, pra não ficar dando volta e acabar falando nada com nada.
Mas o telefone mistura a parte ruim disso tudo. O silêncio é incômodo, você não vai ter pra onde olhar, nenhum outro elemento alí vai te indicar como agir. Você não vai saber se está falando e o outro está fazendo cara de saco cheio. E falou, também tá falado. Só tem números, não tem tecla delete.
E tem a tecla mudo. Ai.
Ao lembrar dessa informação, dedico este texto à senhora minha mãe, que na última semana pediu uns minutos pra uma cliente durante a ligação, e quando retornou, depois de chamar algumas vezes pelo nome da fulana, sem obter resposta do outro lado da linha soltou, da forma mais espontânea e cagada possível, com o telefone ainda fora do gancho:
- Ô anta, desligou.
Pergunta se a anta havia desligado.
Até mais ler, senhores.




