27
Sep
  Domésticas

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Meus pais sempre trabalharam fora. Aquela coisa de brava gente mesmo, pulando de negócio em negócio, tentando não ser um assalariado maldito pro resto da vida. Meu pai, por exemplo, já foi padeiro, açougueiro, vendedor/representante, comerciante, torneiro mecânico e mais algumas coisas que não exigissem mais de um metro e sessenta e três de altura (porque vem de algum lugar esse meu um metro e meio, óbvio).

Então, mas nessa dos meus queridos progenitores trabalharem feito mulas, a cria ficava ao Deus-dará. E o que Deus deu? As domésticas.

Tem famílias que contratam uma pelo resto da vida. Transformam ela em assalariada e amiga. Uma conhecida minha foi praticamente criada pela empregada. Mais de dez anos que a sujeita trabalha lá, todos os dias da semana. Resultado: hoje ela mesma já não faz merda nenhuma e ainda reclama quando os “patrões” sujam alguma coisa. Totalmente não-funcional.

Já na minha casa o esquema é outro. Minha mãe sempre contratava alguém apenas pra fazer a faxina mais pro fim da semana, ou no máximo pra ficar meio período, quando eu e minha irmã éramos mais novas.

Devo dizer, caros leitores, que as maiores figuras que já conheci limpavam o meu banheiro.

Umas eram descontroladas, outras engraçadas, outras extremamente puritanas, ou ainda teenagers (de espírito), mas todas doidonas. Era engraçado. Uma boa forma de analisar a humanidade, é ter várias domésticas por perto. Mas uma de cada vez, senão você é quem morre doido.

A Lu trabalhou em casa quando eu era bem novinha, mas eu me lembro de um único episódio totalmente inexplicável. Seguinte, várias das infelizes que tiveram o duro cargo de tomar conta da Mirian versão batutinhas pediram demissão. Muitas, sem brincadeira. A minha família toda tem muita história pra contar sobre a minha pessoa enquanto criança. Eu era o cão de saia. Ou cãozinho. De saínha.

Enfim, você vai trabalhar numa casa onde tem que cuidar de um capeta. Se não aguenta, vaza maluco, simples! Você NÃO DEVE se arriscar quando seus nervos estão em frangalhos, não é saudável. A lembrança que eu tenho, é da dita cuja Lu trancafiada no banheiro chorando e soluçando e eu na porta pedindo desculpas pra ela e pedindo pra ela não contar pro meu pai.

Sério, o que uma criança de CINCO anos, no máximo, poderia ter feito pra desesperar e desmontar uma mulher feita? Eu não me lembro o que era, mas hoje me parece meio impossível.

Depois veio a Ana. Gordinha, baixinha e simpática. A típica gordinha legal, que vive rindo, sempre com aquela camisetinha suja de água sanitária. Um belo dia, me aparece a Aninha pilotando uma puta duma moto três vezes maior que ela. Um tempo depois, encontro a Ana na rua, toda vestida de couro, com o namoradão barbudão motoqueiro. A moto dela era maior que a dele. Aquilo não fazia sentido. Pasmei. Ficamos amigas, óbvio. Ela encobria todas as minhas cagadas e vice-versa. Saudade da Ana.

Teve também a Rose que era mega fã dos Backstreet Boys, na mesma época que eu. A diferença é que eu tinha 12 anos e ela 29. Uma vez ela me emprestou um cd deles pra eu gravar. Era o único que eu não tinha. Dei balão na coitada, tô com o cd até hoje, que mancada.

A Jacilene era legal, mas não falava nada. Só ria. Nunca ouvi a voz da infeliz, eu falava sozinha o tempo todo. Um dia desisti. Daí pra frente minha vida parecia um filme mudo com ela por aqui. Rindo e se expressando pelos olhos. Quase um treinamento teatral.

Mas a mais super mega ultra doida era a Adriana. Baiana e evangélica, vivia tentando me converter. “Si apégui cum Deus, Mira” o tempo todo. A desgraça era fresca que só. Quando a coisa estava corrida, minha mãe trazia comida de algum restaurante e uma vez rolou o seguinte diálogo:

-Adriana, vou buscar comida, qual tipo de carne você prefere?

-Ãiin dona Eliana, pa fala verdade, eu num gosto muito de cumida de marmita não, viu.

-Mas então o que você vai comer!?

-É, né… faz assim, traiz só legume então. Aí eu como, vai.

COMO ASSIM!? Além de trazer comida do restaurante pra ela, a bichinha ainda reclama! Sem contar o dia em que a minha mãe fez um (e)strogonoff. Ao colocar na mesa, perguntou: “Gosta, Adriana?”

Resposta? “Ahh, dona Eliana, o seu tá meio branquinho, né? eu gosto mais vermeio.”

Ou o dia que a minha mãe estava fritando linguiça, quando de repente, Adriana solta: “Noossa, dona Eliana, se a senhora sobesse do qui é feito isso a senhora nunca mais comia!”

Ah, teve a última delas. Trabalhou três semanas, roubou cinco sabonetes e sumiu. Aí minha mãe resolveu ME pagar pra limpar a casa. Aceitei, tava aqui sem fazer nada mesmo. Na verdade, dá licença que eu ainda não acabei lá na cozinha. Tchau, gente.







14
Sep
  Adeus Banco Cruel – Reabilitação de uma consumista compulsiva

notas-voando.jpgEu tenho um sério problema quanto a lidar com dinheiro: eu não sei fazer isso. Tudo culpa dessa sociedade capitalista d’uma figa, que sempre me ensinou que dinheiro na mão é vendaval, é vendaval, na vida de um sonhador, de um sonhador. Só que no meu caso, tá mais pra Katrina mesmo.

Quando criança, absolutamente toda e qualquer moeda que eu ganhasse ou (cof, cof) encontrasse, era gasta com gibis. Eu adorava gibis, nunca fui de brincar com bonecas. Acabei com uma coleção gigantesca da Turma da Mônica, incluindo edição especial de trinta anos. Mais pra frente, ainda na tática da moeda perdida, entupi meu guarda-roupas com revistas dos Backstreet Boys. Revistinhas, biografias, álbum de figurinhas auto-colantes. Comprava a revista inteira pra destacar UMA maldita página. E olha, era deprimente. A seguir, um trecho de um dos meus diários por volta dos 10 anos de idade:

“Ontem o meu pai deu 10 reais pra mim e 10 reais pra Maira (minha irmã)! Nós fomos até a banca e compramos 4 revistas. Sobraram 6 reais e nós demos 4 para a minha mãe, pra ela comprar um diário novo pra cada uma. E agora ficamos com 4 reais, que provavelmente serão gastos em revistas!”

Céus. Sem comentários.

Enfim, isso prova que desde pequena eu não sei segurar o dinheiro. Quando eu comecei a trabalhar, e me vi com TODA aquela grana (600 pilas) na mão, aí meus queridos, foi o começo do fim. Eu gastava cada centavo antes do próximo vale/pagamento. Poder tomar um sorvete, ou comer o que eu quisesse sem ter que pedir dinheiro pros meus pais era o máximo. Engordei feito uma porca nessa época.

De qualquer forma, gastar todo o seu dinheiro é um problema seu, foi você quem trabalhou por ele, nada mais justo. Mas chegará o dia em que você verá AQUELA sandália na vitrine, e ao enfiar a mão na carteira, um morcego vai te morder por atrapalhar o sono dele naquela caverna escura e vazia. E o que fazer quando você quer comprar, mas o seu dinheiro já foi, e o próximo pagamento está longe? Tchan tchan tchan tchaaaaan!

Você abre uma conta no banco pra ter um talão de cheques e um cartão de crédito i-guai-zi-nhos aos da sua mãe! Aí você pode comprar sem ter o dinheiro, é só pagar depois! )

Logo você entra no limite do cheque especial. Quando isso acontecer, dificilmente você conseguirá sair, e acabará pedindo pra aumentá-lo. Depois de muito tempo pagando juros absurdos, você faz um empréstimo do banco pra cobrir o limite, pois os juros do empréstimo são menores. Em vão, pois um ou dois meses depois, você já está usando o dito cujo novamente E pagando o empréstimo ao mesmo tempo. Os juros do cheque especial parecem prestações eternas daquela sandália que você não comprou.

Pode não ter acontecido com você, mas aconteceu comigo, uma consumista descabeçada. Acontece que, como o meu pai tem uma empresa, eu bancava a espertona e tratava os meus assuntos pessoais com o gerente de pessoa jurídica que cuida das coisas dele, assim não tinha que ficar duas horas na fila, e o cara sempre resolvia TODOS os meus pepinos. Acontece que ele se foi. Não morreu, não. O desgraçado foi pra outra agência e me abandonou. Logo no primeiro problema eu me estrepei. Foi então que eu percebi que o tratamento VIP tinha acabado, e tomei uma difícil decisão: fechar a conta.

Ver o meu cartãozinho lindo ser destruído foi uma cena triste. Ficar uma hora e meia na fila também foi. Não tão triste quanto ver um cachorro ser atropelado ontem (provavelmente in memoriam, essa), mas foi. Sem contar que eu tive que cobrir o limite, pagar o cartão, o empréstimo e etc. Tudo de uma vez. Pra isso emprestei do Mobilon, que não cobra juros.

Agora é só esperar o casamento, e quando os credores dele forem também meus, cancelar a minha dívida comigo mesma.







2
Sep
  A Coca-Cola não sabe brincar

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Minha irmã está cursando o segundo ano do ensino médio. Nesse ano, há uma disciplina chamada projeto, onde ela deve (obviamente) elaborar um projetinho sobre alguma coisa, com base teórica, pesquisa de campo, portifólio, e redigir tudo bonitinho, como um TCC. Pra mostrar um pouco mais de massa cinzenta e sair das provinhas e relatóriozinhos usuais. Os alunos mais aplicados podem até ir parar na Febrace, às vezes, mas não deixa de ser um projeto inofensivo de alunos do segundo ano.

O grupo dela resolveu abordar a história do guri cujo estômago supostamente explodiu depois de receber a mistura de Coca-Cola com Mentos. Aquela velha lenda urbana que a gente já conhece. O título do projeto: “Coca-Cola e Mentos: uma mistura explosiva?

A gurizada toda feliz e contente, preparando as experiências todas, os textos todos, quando vem o coordenador e diz pra eles mandarem um email para as duas empresas envolvidas, perguntando sobre o uso do nome. Ah, vá! Imagina se vai dar rolo uma besteira dessas.

Sexta à noite, o telefone toca. Minha irmã atende, e do outro lado, uma mulher chamada Samanta diz “seven days…” que a Coca-Cola não autoriza o uso do nome em qualquer projeto que não seja patrocinado pela empresa. Porra, Coca!

Mas tudo bem, brasileiros que são, o projeto vai em frente, agora rebatizado de: “Refrigerante de Cola e Mentos: uma mistura explosiva?, e no aguardo da resposta do pessoal mentolado. Tomara que os caras facilitem, porque se tiverem que mandar um “Refigerante de Cola e Goma Arábica“, aí fode melhor mudar o projeto.







3
Aug
  Mães com descontrole emocional

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Se não me engano, na minha época de Orkut (maldita seja) eu fazia parte da comunidade que dá nome a esse texto. Minha mãe e eu nunca fomos melhores amigas e ela faz o tipo meio, digamos… exagerada. Mas isso, hoje em dia, nem é mais um problema tão sério, afinal, ambas somos crescidinhas e não há motivos para perder a cabeça por besteira, não é?

Era o que eu pensava, até hoje.

Estávamos numa discussão besta, quando ela, soltando um clichê de mãe sem argumento me disse que eu tinha que obedecer porque a casa é dela, e eu rebati com um clichê de filha sem argumento dizendo que nasci porque ela quis.

Alguma coisa naquele ali não foi legal, pois ela virou pra mim com a maior cara de ódio que conseguiu fazer (algo parecido com o Pikachu nervoso) e disse:

- Se você disser isso mais uma vez, você vai… (e eu prevendo os clássicos “se ver comigo” ou “se ver com o seu pai”, quando ela completa com um:) morrer.

(…)

Milhares de respostas passaram pela minha cabeça, mas eu só consegui ficar parada, atônita.

Então é isso, a minha mãe quer me matar. Caso eu suma, vocês já sabem.







30
Jul
  O que eu desenharia para ganhar vida?

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Eu poderia deixar um comentário, mas essa pergunta lançada pelo Rev. Ibrahim merece mais do que uma rápida resposta. Merece uma ida mais a fundo (hm).

Se você pudesse desenhar algo que se tornaria real, o que seria? Será que é tão fácil responder? Depois de pensar por uns vinte minutos e fuçar em alguns desenhos de quando eu era mais nova, cheguei a uma conclusão: o ser humano é incapaz de escolher ou manter uma escolha quando se trata de desejos. Mesmo que você decidisse hoje, amanhã se culparia ao lembrar de algo melhor/mais importante.

Quando pequena, provavelmente eu desenharia algo relacionado a brinquedos gigantes. Se um brinquedo é legal, gigante então deve ser super! Assim que os mesmos aparecessem na minha frente, eu ia abrir o berreiro. Meu primo tinha um Macaco Murfy e eu adorava. Agora imagina essa porra em tamanho real e fazendo aquele barulho. Virge.

Quando eu fiquei “mocinha” eu era apaixonada por um dos integrantes do grupo Backstreet Boys (passado negro existe e eu que você também tem). Certeza que naquela época eu desenharia o amor da minha vida pra viver feliz pra sempre comigo. Me fala o que eu ia fazer com um mala cantando “Quit Playing Games With My Heart” o dia inteiro até hoje? Nah.

Quando podemos realizar um desejo, costumamos pensar nas coisas mais impossíveis de se ter, pelo menos naquele momento. Uma vez a professora de artes passou uma lição chamada “Sonho Meu” que era, basicamente, desenhar um sonho meu (é memo?). Na época eu estava aprendendo a tocar violão e pensava muito em ter uma bandinha, só que guitarras estavam fora de cogitação pra uma adolescente desempregada. Adivinha o que eu desenhei? Um mundo onde todo mundo tocava e guitarras nasciam em árveres árvoros árvores e notas musicais flutuavam sobre as nossas cabeças. Se guitarras nascessem em árvores, o que caralhos eu ia comer!? Se guitarras nascessem em árvores, Newton teria morrido com uma guitarrada. Mas naquela época a idéia me parecia boa. Nem sempre a gente realmente quer o que pensa que quer. Quando desejamos algo, desejamos apenas a parte boa, anulando qualquer possibilidade de algo dar errado.

Enfim, isso foi pra explicar o porque meu desejo seria algo como carro/casa, e porque eu não trocaria o Mobilon pelo Johnny Depp (apesar que.. brinks! uahau)

E eu deixo uma pergunta: O que o próprio Reverendo desenharia para ganhar vida?