24
Jun
  Samba e tango

Caros leitores, hoje me ocorreu deixar a crônica desinteressada e desbocada de lado e mostrar um lado que talvez vocês nunca tenham visto aqui. Ou, parafraseando a paçoca menor (maior), e dadas as devidas proporções, enfiar um F. Pessoa onde rola um F. Verissimo. Segue! (apita o árbitro!)

Já nem sabe desde quando arrastava essa milonga. Estendia-a à sua frente, pra depois seguir por cima dela – um tapete que ia sendo desenrolado sobre um caminho que tanto já lhe dilacerara os pés. Mas se esses mesmos pés, sempre descalços, já não sentiam pedras a lhes rasgar a carne, também já não podiam sentir a terra molhada e a vida nela, tão enfiados estavam no vermelho-sangue do veludo, que dava o tom exato de drama àquele sem-fim de cinza.

Há tanto era um tal, naquele bailar, de rostos que se viravam, olhos que não se olhavam, mãos e corpos que se tocavam e não se sentiam - apenas executavam avanços precisos e passos estáveis, com postura impecável, expressão austera e cabelos muito bem presos no topo da cabeça – que quis desvencilhar-se e lançou-se a dançar sozinha, ainda que apenas para ditar o próprio ritmo. Gostou. Respirou – já sorria.

Mas, um dia, ao contar o próprio tempo, como sempre fazia, surpreendeu-a uma rajada que lhe atirou longe as presilhas e fez esvoaçar os cabelos, numa farra de entrar pelo meio deles e depois pelo vestido, correndo-lhe junto à pele, fazendo o sangue ir mais rápido e mais quente, numas de subir todo à face, enquanto o ar do mundo todo lhe entrava pelas narinas e a fazia descobrir toda a capacidade dos pulmões.

E pôde ouvir, e era ainda longe, alguma coisa que brincava em quase entrar pelos ouvidos, mas era pouca e não se fazia conhecer de vez, apenas insinuava uma batida convidativa e – tão convidativa! – só foi fechar os olhos, abrir o peito e deixar escorregar um dos pés pra fora da falsa proteção – que cobria lascas mas escondia inúmeras e sorrateiras armadilhas – e, ao invés de pedras, pisou em grama e orvalho e sentiu que o orvalho logo cuidou de regar-lhe a alma, além da pele.

Daí pra frente foi uma e foi outra que não já podia prever, pois quando a vida da terra lhe chegou às mãos, sentiu outra na sua – e era só o que esperava o segundo pé, que havia ficado.

E ao abrir os olhos num susto, viu outros, que olhavam de volta. Não só olhavam, mas rasgavam-lhe o casulo da alma, fazendo-a voar e sair do corpo e ir dançar com o vento e os cabelos, onde agora se enroscava outra mão – e outra na cintura, que a conduzia num novo compasso; e uma outra lhe desenhava os traços do rosto; e eram mil as mãos dele e era ele todo enroscado nela, protegendo, guiando, moleque, alegre, leve, numa gafieira malandra e mágica.

E talvez fosse tarde -apesar de cedo- pensou, quando, lá longe, alguém parecia avisar pra pisar naquele chão devagarinho.

Afinal, já flutuavam dois palmos acima dele.







15
Oct
  Upside Down!

Faltando menos de um mês para o meu 22º aniversário, parei, sentei, respirei, e minha mente sagaz começou a produzir uma bela retrospectiva Bottânica.

Não que eu sempre tenha tido uma vidinha normal, insossa e tal, porque eu meio que nasci rock ‘n rolleando o mundo, né, fazendo tudo cedo, meio torto, aprendendo as lições por meios empíricos sempre, enfiando o dedo no fogo pra ver que queima. E dá-lhe Paraqueimol até parar de arder.

Mas, felizmente, fiz tudo dentro do limite de cagadas necessárias pra me tornar um ser humano de 20 anos equilibrado e possuidor das faculdades mentais e de todos os membros, não me faltando nenhuma orelha sequer. A vidinha acalmou, tudo tranquilo, namoro com planos de casamento, faculdade, uma partezinha da massa proletária que vai ao mercado na quarta, porque é dia de oferta.

Mas aí fiz um blog.

Um blogzinho inocente, um pontocomzinho meio rosa, meio tosco, de nome esquisito, pra escrever tudo que rolava em caderninhos há tanto tempo.

Exatamente um ano depois, saí num encarte da Playboy e me mudei pra capital. Né.

De repente, não tinha mais namorado, muito menos planos de casamento, da faculdadezinha de jornalismo interiorana pra selva selvagem da publicidade na cidade enorme, com números e tendências, e veneno, e aluguel, e falta de tempo, muito blog, muito blogueiro, muito bar, quilos a mais, oitavo andar com vista ampla e solitária, aprendendo a não precisar dos outros, descobrindo que todo mundo precisa de alguém, descobrindo que menos é mais, descobrindo que PUTAQUEOPARIU, que que eu tô fazendo aqui, cadê a minha vida!?

E quando eu disse em voz alta, um amigo me respondeu: “ei, ESSA É a sua vida”. Né.²

Como eu não estava contente com aquilo, juntei a tralha toda em um dia e vazei de volta pro meu aconchego. Pra recuperar o fôlego, a paz de espírito, o tempo, e me livrar dos quilos, do aluguel, e da solidão.

Mission accomplished, zero meia, caveira. Mas pra quem acha que nessa parte é que eu digo que recuperei os planos de casamento e voltei pra faculdadezinha interiorana, eu dou um um duplo mortal carpado na fuça e digo que há dois dias eu fotografei pra uma marca famosa e conheci um ator da Grobo. Há!

- Vai fazer a goshhtosa pra cima dinói, então?

Nem, leitor amigo. Só estava aqui matutando que todas as loucuras que eu já fiz na minha vidinha, ainda iam me levando pra vida dos meus pais (nada contra ela, pais, aqui estou eu, o seu menor melhor legado, que vai comprar uma casa na praia e um jatinho pra vosmecês NOT). E com a coisa mais (inicialmente) insignificante, um passatempo, a minha vida virou de cabeça pra baixo, descobri quem vai estar sempre lá, me livrei de coisas e pessoas que eu pensava serem garantidas e eternas, cresci, descobri quemsô, oncotô e doncovim.

Agora me resta saber proncovô.

———————————————–

Observações gerais:

1 – Já deu pra ter uma noção da pilha que eu tô, e por que aindei sumida?

2 – Não, eu não posso dar mais detalhes ainda.

3 – Façam pressão, entrem na comunidade do Subs e me enviem pautas!

4 – Meu aniversário é dia 05/11. CINCO DO ONZE, TÁ?







24
Apr
  Um post incomum

Porque eu amo o meu país, e porque o melhor do Brasil é o brasileiro, certo?

Clique pra ampliar:

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E também pra dizer que eu não morri, mas eu sei que você ainda não tá na comunidade do Substantivolátil e não votou em mim na promoção da Melissa.

Você não tem vergonha, não? Me ajude a ganhar aquele Vaio, leitor amigo! D

E falando em vergonha, cobrem a Maira, porque eu acho que ela abandonou vocês. Prontofalei.







15
Dec
  O primeiro aniversário

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Tá achando engraçado? Vem aqui rir comigo então.

Pra mim, pouca coisa nesse mundo faz sentido. Primeiro aniversário é uma delas.

Primeiro aniversário de criança, por exemplo. Eu não me lembro muito bem do meu, afinal, eu estava completando um ano de vida (duh). Aliás, primeiro equívoco. Um ano e nove meses, que não podem nem ser calculados exatamente. Um ano fazia que eu havia sido cuspida no mundo.

Se a minha mãe parasse pra pensar, ia se dar conta que há um ano ela havia passado pelo pior dia da vida dela até então: contrações, anestesia, cirurgia. Dor, muita dor. Não creio que ela comemoraria isso.

Durante o período em que trabalhei no estúdio, desenvolvi uma certa compaixão por crianças que estão completando um ano de idade. O processo todo é assaz traumatizante. Demais.

A mãe chegava no estúdio, geralmente bem cedo, toda empolgada. Queria porque queria enfiar o rebento numa fantasia de moranguinho, com aquele chapéu esdrúxulo, enforcando a criança, que berrava (na minha orelha) até não aguentar mais.

Isso quando não queria encher de flor, de plumas, de tecido, botar numa concha gigantesca RIDÍCULA a pérola da sua vida. A criança quase morria pra atender o capricho da doida da mãe.

E depois havia os recadinhos de convite. Sabem né? Aqueles versinhos prontos com umas riminhas geniais que alguém decide que tem a tua cara. No meu convite de um ano:

“Vejam bem minha carinha
Todos querem me beijar
Já pensou quando eu crescer
O trabalho que vou dar?”

Pá.

Durante a festa, os pais se embebedam, os tios se embebedam, os primos correm feito doidos, todo mundo se entope de comida, e você que se foda. Seu papel na festa é quase o mesmo dos enfeites da mesa. Só que além disso você é adereço pra foto. Você está em todas elas, de alguma forma. Se parecer que não, pode procurar, em algum canto você encontra. Tipo onde está Wally.

Mas tem outros exemplos. Tem também primeiro aníversário de namoro. Vocês comemoram num restaurante chique, com vinho e luz de velas. Ou em algum lugar mais aconchegante, todo preparado, rosas, perfumes. Lindo.

Um mês depois ela/ele te mete um galho e dá um pé na tua bunda fácil.

Eu, particularmente, acho que um ano é muito pouco pra comemorar num namoro. Certamente, nessa época, ele ainda não arrota na tua frente, e nem você desconta o ódio causado pela TPM em ofensas dirigidas à ele e qualquer coisa que você achar (no momento) que seja mais importante que você. Quando esse tipo de coisa começar a acontecer, aí sim você tem base pra saber se vale a pena comemorar qualquer porcaria.

Quer comemorar antes disso? Uma semana tá valendo. Ou “faz uma hora e trinta e oito segundos que você derrubou cerveja no meu sapato. Vamos comemorar?”. E boa.

Primeiro aniversário de casamento. Nos dias de hoje, o lance do namoro vale aqui. Ainda mais se você casou bêbado em Las Vegas. Já quem namorou oitocentos anos antes de casar, deve comemorar o primeiro minuto. Que a força esteja com vocês.

Depois disso tudo, ia parecer controverso eu dizer que este post é pra comemorar um ano de Substantivolátil?

Então que tal comemorar a marca dos 100 posts, 1000 comentários, 600 assinantes RSS, e aquela barrinha lá em cima, que significa que o nosso querido bebê tá no Vírgula?

Mais especificamente, fazendo parte do Blogamos, “uma blogfarm que junta sob o mesmo portal, diversos blogs com temas e conteúdos selecionados tecendo uma rede repleta de entretenimento, conteúdo pertinente e diversão“. Cool, huh?

E pra fechar a semana agitada, a Playba tá nas bancas, coleguinhas. E o making/história/wallpapers tão aqui.

Abraço, macacada! Em breve, ALTAS novidades por aqui!







14
Nov
  Sacodindo a poeira

Eu ainda não morri, nem fui abduzida, nem fugi para a minha ilha paradisíaca secreta pra viver feliz para sempre com o Johnny Depp (opa, falei..), e sim, cá estou novamente, meus caros, pronta pra dar a minha explanação. Pra dá o papo reto, tá ligado?

Eis que, numa bela manhã de segunda, eu acordo com a simpatia em pessoa que é a minha mãe irritada, quase me atirando um jornal nas fuças:

-Toma aí, pra você dar uma olhada.

Isso porque eu havia dito que estava cansada de ficar em casa interagindo apenas virtualmente com as pessoas – já fazia quase um ano que eu lidava apenas com o blog, desde que havia dado um pé no meu último job de   fotógrafa/ maquiadora/ produtora /vendedora /faxineira /arte-finalista /por um salário miserável.
Só que eu jamais consegui explicar pros progenitores como eu arranjava dinheiro pra pagar a faculdade ficando sentada na frente do computador o dia todo. Capaz que eles já me visualizavam como uma chefe do crime e tal. Ô vida bandida. Enfim.

Foi assim que, voltando à bela manhã de segunda, eu peguei os classificados e mandei um ÚNICO currículo por email, quase que por desencargo descargo de consciência.

Passaram-se os dias, e eis que na quinta-feira, lá pro horário do almoço, me liga um sujeito pedindo pra eu estar indo comparecer a um certo endereço, às 3 da tarde. Ô beleza, bem no meio da faxina! A casa de ponta cabeça e eu – lerê lerê – ia ter que parar tudo e provavelmente terminar no final de semana. Mas fui.

Chegando ao local, a ameba que vos fala caiu em si: esquecera o papel com o endereço. Lembrava o nome da rua, mas não o número. Depois de perambular uns 15 minutos, já desanimada e falando sozinha um putaquepariuquemerdasuacagada, avisto uma cidadã perdida, olhando pra uma porta. Eu, mais do que depressa e sem a mínima cerimônia:

-Tá procurando a entrevista?
-Tô sim… (risinho sem graça)
-Mas você sabe o número?
-Sei, sim, é esse aí.
-Opa, então é aqui mesmo que eu tô.

Entrei rápido, deixando a gordinha pra trás. Cheguei atrasada, óbvio, e quando vi, havia umas 10 meninas sentadas em torno de uma mesa oval, mais dois caras no final da mesa: os chefes.
A coisa toda era uma dinâmica, onde deveríamos escolher o nome de um fanfarrão famoso, a quem admirássemos por um motivo qualquer. Percebi o nível da situação quando vi que meu Luis Fernando Verissimo competia com Alline Moraes, Marjorie Estiano, Will Smith, Ana Hickman e a mãe do Harry Potter. Ai Jisuis.

As candidatas encarnariam seus respectivos personagens, e estariam todos em um balão prestes a cair. Objetivo: induzir as outras pessoas a pularem do balão. Meu argumento base: devemos contribuir para a perpetuação cultural. E foi sob esse argumento que pularam Alline Moraes, Marjorie, Ana Hickman. Ana Paula Arósio era mais forte, tivemos que jogá-la.

Enfim, depois dessa, fui pra casa refletindo sobre como metade da juventude de hoje poderia simplesmente explodir. No fim de semana seguinte fui para o Rio, dar as caras no Blogcamp. Depois de vários passeios, bares, muita cerveja, encontro, viagens intermináveis de ônibus, horas e horas sem dormir direito, cheguei ao meu querido lar na segunda, lá pelas 10 da manhã. Ao invés de dormir passei o dia terminando a faxina da quinta anterior e fuçando a blogosfera ainda contagiada com o encontro. Quatro e meia da tarde me liga o mesmo sujeito, pedindo pra estar lá em uma hora. E vamos nós, tomei o banho mais rápido da vida e fui. Uma segunda eliminatória.

Depois disso fui pra faculdade, e lá mesmo recebo a notícia: parabéns, contratada, beijinho, beijinho, o treinamento começa amanhã, às 8, em Limeira.

Ah, tá. Fodeu.

Pulei da cama às CINCO da manhã e fui dormir à meia noite todos os dias nas duas semanas seguintes a esse episódio, fato que MOEU a minha pessoa física e psicológicamente. Mas agora sim, meus caros, estou de volta ao ritmo anormal, pronta pra voltar a filosofar sobre nada com vocês. E altas histórias virão.

Nota: Aproveitando, gostaria de dizer que, embora minha pequena presença tenha sido cancelada no Blogcamp BH, podem me aguardar em Curitiba, visse!