22
Mar
  Cada geração no seu quadrado

Haters gonna hate, mas a real é que eu não suporto quem fica de mimimi falando que a infância dele foi melhor do que a infância das crianças de agora.

Claro que foi. Foi a SUA infância.

É, sou de 1991 e tenho míseros 21 anos. Minha infância não foi há tanto tempo assim. Mas, na minha infância, você precisava ter muita grana pra ter videogame, computador, celular, internet e tv a cabo. E meus pais não tinham.

Meu “acesso à tecnologia” era o super nintendo com os mesmos jogos de sempre e, às vezes, um joguinho novo que eu e minha irmã alugávamos na sexta-feira, porque a devolução caía no domingo e eles estendiam até segunda. Ou, no máximo, uma fita nova que meu primo-vizinho me emprestava, quando pegava com os amigos dele.

Computador? No sir. Isso era só na loja do meu pai e para trabalho. O primeiro computador da casa foi quando minha irmã entrou no Ensino Médio. E aí a internet era discada AND cara, então era só no domingo.

Celular ganhei faltando um mês pros meus 14 anos. Minha irmã já tinha 18! Ganhamos o mesmo celular, “o primeiro com tela colorida”, segundo o meu pai.
Antes disso, nossa diversão era trocar o toque do celular dele por um monofônico “La Cucaracha” e ligar pra ele enquanto estivesse na fila do banco, só pro véio passar vergonha. A gente nem via a cena, mas só de imaginar a cara dele, morríamos de rir.

Meu ponto é: eu tinha pouco acesso a essas coisas, assim como era com a minha irmã, quatro anos mais velha que eu, ou meus primos, 5, 7 anos mais velhos. Mas quando a gente tinha, cara, era MUITO MASSA.

Minha infância foi maravilhosa. E eu me divertia muito descendo de carrinho de rolimã com meus primos e minha irmã… Tanto quanto me divertia quando a gente se juntava nas férias pra passar uma fase foda do Super Mario World.

O capote que levei com minhas 2 primas e minha irmã descendo no genial carrinho de rolimã com rodas de velotrol planejado para 4 pessoas que meu primo criou está guardado na minha cabeça com o mesmo carinho que guardei o tilt no videogame logo depois de fiiiinalmente passar aquela fase desgramada do mundo especial, a “Tubular”, porque pulamos demais e trombamos com o console sem querer. Foi uma tragédia.

Nossa infância vai ser sempre maravilhosa. As crianças de agora não vão se arrepender de nada. Eles vão se divertir com as coisas novas que vão aparecer e lembrar com carinho das antigas.

Ou será que a emoção de jogar um Wii ou um Xbox com Kinect pela primeira vez foi só minha?

E, quem somos nós para falar deles?! Com a minha idade, minha mãe estava casando com meu pai e planejando uma vida inteira. E eu não sei nem o que vou fazer daqui um semestre, quando acabar a faculdade. Eles compravam móveis para casa. Eu comprei um tablet.

O que eu vejo? Um monte de marmanjo de 30 anos SE DIVERTINDO HORRORES com um aplicativo para iPadPodPhone e reclamando de crianças que jogam joguinhos.

Se temos direito de reclamar da infância que essas crianças de hoje levam, acho que nossos avós tem também o direito de reclamar da nossa. Ou mesmo da nossa vida atual, né?

Alguém se arrisca a perguntar pra minha avó, que casou com 17 anos (porque o pai dela ia mudar de cidade e era mudar ou largar do namorado), lavava roupa no riacho e estendia na grama e limpava a casa da sogra subindo em banquinho pra limpar no alto, mesmo grávida de 8 meses, o que ela pensa da vida que levamos agora?

I don’t think so.







18
Jan
  Maira @ USA Parte II

Segue mais um email enviado pela dona paçoca menor, sobre suas aventuras lá nas gringa:

Em nova york, ficamos em dois hotéis: no primeiro, posso dizer que a foto era exatamente igual a realidade… Mas ocultaram que a realidade era para anões (ou Mirians). O quarto tinha UMA cama, e o box do chuveiro era de vidro, de frente pra cama. Quarto de motel define. Na porta, estava escrito “como se divertir: entre no quarto, feche a porta, entre debaixo do lençol e divirta-se!”… Quédizê, tenho cara de lésbica agora.
Fizemos um código de honra lá, enquanto usava o banheiro, a porta com vidro fumê cobria o vaso sanitário, pq eu não sou obrigada a ver ninguém cagando.
Nesse hotel, tinhamos uma belíssima vista diretamente pro terraço do terceiro andar.

Saí comprar leite. Comprei uma garrafinha de 200 ml e um achocolatado e fiquei feliz. Daí cheguei no hotel, fui tomar meu leite e adivinha! A porra do achocolatado não era uma lata normal. Era uma merda de uma lata que pra abrir, precisa de abridor!
Enfiei a lata de volta na sacola e fui lá trocar, pensando no meu discurso no caminho. Aí comecei a pensar: “e se esse cara nao trocar a lata. Esse cara não vai trocar a lata. Esse VIADO vai me deixar com uma merda de lata fechada e eu não vou tomar meu leite”. Aí comecei a chorar. Liguei pra mãe e falei que eu era uma burra e que não podia nem tomar leite. Ela mais ou menos me mandou me recompor e trocar a merda da lata.

Daí tivemos que trocar de hotel, e nosso novo hotel fedia cigarro e tinha um delicioso bolor no frigobar.
Dessa vez ficamos no 11o andar \o/ com uma linda vista pro muro do hotel do lado. Daí eu desisti de ter uma vista bonita alguma vez na vida e fui mais feliz.
Tivemos que comprar botas de pelo por dentro, porque tava mtoo frio e eu estava prestes a perder a ponta do meu dedão. Sério, tava preta.
Na rua, na frente do Guggenheim, um casal chegou perto da gente e disse “hmm.. Can you please take a picture?” e a Carol lá “Sure, sure!” e aí o cara disse “Try to… Éé…to show de Guggenheim”.

Mano, esse “éé” não me engana. Americano não fala “é”. Latino não fala “é”.

E eu “Where are you from…?” e eis que o cara me solta um “Brrrazil!”. Óbvio. Aí falei “Então pode falar em português!” aí rolou aquele momento “eeeeee conterraneos!” que durou 5 segundos porque nosso onibus chegou.

No Starbucks, um casal olhava pra mim e pra Carol e tentavam adivinhar de onde a gente era. Chutaram Rússia, França, Holanda e ficaram com França. Eu tava quase levantando e falando “ok, one chance! Listen to me: veeeeeem pra ser feeeliz!” enquanto dançava com os peitos de fora.

Na noite da véspera do Natal, tudo fechou. Tudo. Daí quando vimos que estava tudo fechando saímos correndo que nem loucas pra comprar coisas de necessidade básica: água, leite, absorvente e um alicate de unha, porque nóis é pobre mas limpinha.

26/12: fomos embora de nova york. Ou tentamos. Acordamos cedinho pra comprar maquiagem da promoçao de Natal na Sephora e fomos trocar o alicate pq ele fechava e não abria mais. Demoramos muito nisso.
Pegamos um metrô Que ficava parando de tunel em tunel, daí perdemos o outro trem, daí chegou um outro trem, daí lembrei que não tinha feito o check in do voo, daí desesperei daí chegamos com meia hora de antecedência no aeoporto. Yay! Mas demoramos pra achar o check in. E chegamos atrasadas 4 míseros minutos… E perdemos o voo.

Eu surtei, pq tem alguma companhia que me fez assinar dizendo que pagaria uma multa mto alta pra trocar de voo, comecei a chorar, a tremer, dor de barriga, a atendente toda calma, a Carol me mandando ficar calma (ela nao sabia disso da multa) mas acabou que nao era essa companhia, a mulher ficou com dó da gente e trocou nosso voo… Pra dali 6 horas. Passamos o dia no aeroporto, mas pegamos o voo.

Chegando no aeroporto de Charlotte, onde tinhamos conexão, adivinha? Voo atrasado 1 hora. Chegamos tarde por bosta em Myrtle Beach. A tia Leila ficou feliz, pq não atrapalhamos a novela dela.

Em Myrtle Beach foi tudo bem tranquilo, pq nao tinha como dar errado. Todo mundo levava a gente pra lá e pra cá, nao tinha check in pra fazer nem nada. \o/
Daí saímos um dia, a tia nos deixou no shopping e disse “quando quiserem, liguem e eu venho buscar!”. Falei “pega o telefone da carol!” e ela disse “nao, VCS vão precisar de mim. Não eu de vocês.”

Resultado? A bateria do meu cel acabou, não sabíamos como ligar pro telefone da tia Leila, fui pedir ajuda pra um cara disse que minha bateria tinha “died” e que eu precisava de um carregador e o cara, um marroquino, sei lá, me fez uma cara de “ah, sim, sim!” me chamou, disse para eu estender a mão e ao invés de me dar um carregador, jogou uma porra de um sal na minha mão. Na minha E na da Carol. Começou a jogar água na nossa mão, falar pra esfregar, já tava achando que era pra eu rezar por um carregador e daí o cara tentou me vender o pote de sal por 80 DOLARES. Chorei, né? Ele disse que o sal era bom pras mãos, que hidratava, que cuidava. Saí puta da vida com as mãos cheias de óleo, sem carregador e xingando o marroquino e foi aí que aprendi que se eu sorrir enquanto falo “Enfia um pepino no seu cu, seu merda” vão me falar “Oh, that’s beautiful, thank you!”

Daí sei la como a tia conseguiu o telefone da carol e nos ligou. Ficamos 8 horas no shopping.

No ano novo não fizemos nada de mais… Ficamos em casa, depilamos… A tia resolveu depilar o suvaco da carol com cera quente e ela ficou cheia de hematomas.

Fui numa festa com a Paula, filha da tia, bebi um licor de mel maldito lá e ensinei todo mundo a jogar bilhar brasileiro. O mais legal: eu não sei jogar bilhar. Só lembro que eu falava “that’s the braziiiilian way!”. existe bilhar brasileiro? Foda-se. Sei que sou tão ruim que perdi no jogo que eu mesma inventei.

Enfim, hoje é dia 13/01, chegamos em Orlando depois de uma viagem de 8 horas num trem lotado.

Chegando em Orlando vi que o google maps me mandava caminhar por 17 minutos com as malas. Me recusei, e fui perguntar sobre o, saca só, SHUFFLE. Hahahahahahha. O cara me olhava com cara de “whaaaat?!” enquanto eu pedia mais informaçoes sobre o SHUFFLE pro hotel. Hhauhauauhauhauaha.

Aí ele disse “Come with me, young lady…” e me levou para uma imensa placa com os escritos “SHUTTLE”. Hahahahaha

Shuffle, sabe? Aquele tipo de carro que vc entra e ele embaralha todo mundo e vc desce num lugar aleatório.

Mas ok, chegamos no hotel, a atendente estava falando no telefone… E continuou falando no telefone… E eu fui perdendo a paciência… Até a Carol falar “O que vc está esperando?” e eu responder “Tô esperando essa vaca desligar essa porra desse telefone e me atender!”
Aí uns 2 minutos depois a mulher me atende e diz “Where are you from?” a Carol disse “Brazil!” e a mulher me solta um “Oh, enton falan brasileiro?” hahahahahahahahaha! A mulher entendia português.

Comprei os ingressos da Disney. Paguei com um rim praquele rato capitalista. Mais um pouco e eu ganhava uma faca da tramontina porque ooolha, ô passeio caro da porra! Tinha desconto pra recém-casados. Cogitamos falar que éramos casadas, já que temos o mesmo sobrenome…

Mas foi isso. Fui jantar agora e um cara passou, buzinou e me chamou de bitch. Não foi uma boa recepção.

Beijos, amo vcs e tô com saudade. )







20
Dec
  Maira @ USA – parte I

Olá, substantivolaters! Como vocês não devem saber, a paçoca menor me abandonou neste fim de ano e foi com uma prima nossa passar o natal/ano novo/aniversário dela lá pelas terras do Tio Sam. Elas vão ficar lá até Fevereiro e a Maira ficou de me mandar notícias por email. Chegou o primeiro e, depois de quase mijar nas calças de tanto rir, eu resolvi compartilhar com vocês. Eu pedi permissão só por educação porque ela ainda não autorizou mas eu tô cagando e vou publicar mesmo assim. Segue:

(ps: não vou corrigir os erros pq ela já devia ter aprendido a digitar no celular)

Pra começar:

15/12: saimos do brasil. O voo demotooou a chegar! Mas antes demorasse mais: ficamos 12 hs no aeroporto de bogota sem internet, telefone e o q fazer. Bateu o sono, dormimos no chao. Tres vezes. O voo atrasou, so pra ajudar. Comi um cheetos bola q nao tinha formato de bola e tinha gosto de isopor Fofura.
Fui passar desodorante e nao sei se foi a pressao do aviao, sei que a esfera do meu desodorante roll on ficou no meu suvaco e o liquido caiu todo em mim.

16/12: chegamos no aeroporto jfk, onde percebi q nao tinhamos impresso o e-ticket do trem pra washington. Dai fizemos isso, pegamos metro ate a estaçao penn station, onde imorimimos nosso bilhete de trem e embarcamos. Chegamos em washington 11:30 e no nosso hotel (sheraton crystal city) ao meio dia. Fizemos check in com uma moça simpatica chamada Ebony.
Tomamos banho e saimos. Almoçamos comida italiana (ruim) num lugar que vc paga a bandeja pequena ou grande e pega o que quiser. A comida era mesmo horrivel. Apimentada, sem gosto, terribel! Dai compramos uma salada pra comer a noite. Pq ne? Ai taa mto frio e eu fui comprar leitinho quentinho no starbucks… Como sou burra, comprei um frapuccino. Nao sabia se era gelado, fiquei com vergonha de perguntar e tomei assin mesmo. Quédizé, gelou ate o cu.
Capotamos cedo e nao comemos a salada. Comprei um desodorante achando q era roll on, mas é “sólido”. É tipo um sabonete na ponta. Mas evita o sovaco preto!!!

17/12: acordamos cedo, fomos tomar cafe da manha… Comi um croissant recheado com ovo e tomate e bwcon e tinha um cafe com leite desnatado e integral (pq eu nao sabia o q era o q, entao coloquei um pouco dos 4 cafes e 3 leites diferentes. Ai comecei a cagar no pau no meu dia. Saindo de la, fomos pra downtown. Parei uma mulher ba rua e disse “hi, would you help me, please? Where is the White House?” caipira assim. Hahahahaha!
Tiramos um milhao de fotos de esquilos, do monumento de washington (que a carol fica chamando de obelisco mas acho q ta errado. Ela achava q ele era o pentagono. Isso pq nem cinco pontas ele tem.), tirei foto usabdo o obeluscopentagonowahington como espada. Passei frio. Conheci um museu maneiro latino americano e a arvore corcunda do obama (procurem ai)
Comprei uma luva quando a ponta do meu dedo ficou preta. Fiquei com medo de cair, e, como diz o Chandler, a ponta é a melhor parte, pq é onde fica a unha.
Tomei um cafe do starbucks, dessa vrz, quente.
Voltando pra cristal city, descobrimos que de uma maneira bizarra exise uma cidade no subsolo! Sim! Eh possivel cruzar A CIDADE INTEiRA pelo subsolo! Tem galerias, Restaurantes, tudo! Logo, descobrimos q tomamos um veno da porra no outro dia sem necessidade. And also desvobrimos pq nao existia pessoas na rua.
Dai fomos comer no mc donalds. A atendente me tratou mal, um soldado da guerra do vietnam bebado ficou falando com a gente e a gente nao entendia nada. A coca cola tinha gosto de torneira velha.
A noote, comemos a salada do outro dia. Cortei fora o bolor do cream cheese.
Obviamente, me deu piriri. Depois dessas comidas, nao podia ser diferente. Passei mto mal.

18/12: acordei querendo ser saudavel, pedi um troço achando q era sucrilhos, mas era um mingau fmde aveia que mais oarecia um cancer.
Saimos do nosso hotel maravilhoso e rico e viemos parar num hotel pobre. Mas esse eh bem mais legal! Tipo, no outro hotel tinha 4 travesseiros ENORMES e um edredon gordaoo… Nesse eu posso usar as pulgas do carpete como travesseiro! Mto mais legal )
Comemos no burger king.
Fui ver a arvore corcunda a noite.
Comprei ingresso pro quebra nozes np teatro warner ) e um shampoo, pq com esse frio, meu cabelo virou pixaim.

Acho q eh isso, por enquanto!







16
Dec
  Quarter life crisis

Quando eu tinha 15 anos, era aquele devaneio: aos 25, eu, uma pessoa equilibrada, organizada, com um diploma, um plano definido pra vida, uma relação estável e uma vida tranqüila. Correu tudo certo, só que não. De tudo isso, a única certeza é que eu sou uma pessoa. 

Aí, como se eu não tivesse uma vida inteira pra construir, nos últimos tempos eu andei dedicando o meu tempo a questionar essa única certeza. Porque né, pra que me contentar com o fato de me reconhecer como indivíduo se eu posso enlouquecer me perguntando pra quê eu sou um?

A maior prova do desequilíbrio emocional/psicológico que permeia os 25 anos é isso de se orgulhar do fato de completar um quarto de século vivido. Porque, né, quem, em pleno domínio de suas faculdades mentais, acha interessante o fato de estar ficando mais velho, SETE ANOS DEPOIS DOS 18? Apenasmente não há mais vantagem nessa brincadeira, posto que munida do meu rg eu já posso fazer absolutamente tudo que a maioridade permite, inclusive ser presa.

Eu só sei que eu fico aí fazendo contas. Nem acabei de comprar meu jogo de panelas e tenho cinco míseros anos, que vão voar como os últimos (ou mais), pra ter trinta e provar pro mundo que é nóis, fi. Daí eu também lembro que o tempo dos quinze, com banda e cabelos vermelhos, que parece ontem, já não é ontem há dez anos, que é o dobro do que falta pra eu fazer aqueles trinta. Que fezes.

E sei lá, eu me pego olhando o nada e pensando em mudar de cidade, mudar o guarda-roupa, querer velhos amores, querer novos, querer continuar querendo aquele que apareceu do nada, comprar prateleiras, adotar um cachorro, comer mais frutas, voltar a estudar, cair no mundo, ouvir mais o caetano, ouvir menos o caetano, sair mais, sair menos e ver mais filmes, ficar nesse caminho e tentar aquele outro.

Ando achando que tenho problema no coração, na tireóide, na circulação, nos rins, na cabeça, rugas, e na verdade eu tenho mais de 20 anos e mais de mil perguntas sem respostas, só que eu nem posso cantar essa loucura, porque eu também tenho calos nas cordas vocais.

Eu quero a minha mãe.







1
Oct
  Cinco minutos

Uma vez me disseram que a minha vida é um livro aberto e que isso é uma merda pras pessoas ao meu redor. Eu nunca entendi o raciocínio, já que quem me ama não deveria se sentir ameaçado ou chateado com o fato de a vida nunca poder me enfiar o dedo na cara e dizer que eu sou uma farsa.

Pelo contrário, deveriam (sei lá, num cenário utópico da perfeita medida da coerência humana) se orgulhar do dia em que eu decidi deixar de dormir apertada, dividindo o travesseiro com as minhas mentiras apaziguadoras.

Porque, felizmente, desde muito cedo eu resolvi nunca esquecer o quanto valem cinco minutos na minha vida. E, às vezes, as pessoas ao redor de quem pula de olhos fechados pra sentir o vento, enroladas em suas amarras imaginárias sociais e psicológicas e em suas mazelas, não conseguem processar a alegria de uma criatura viva, fazendo jus ao sangue que lhe corre nas veias.

Ah, se a toda essa gente:

não deixasse de fazer o que quer por medo das câmeras
não deixasse de comer porcaria porque engorda
não deixasse de dizer que não sabe por medo de parecer burro
não deixasse de cantar alto por medo de desafinar
não deixasse de trepar no chuveiro por medo de destruir a maquiagem
não deixasse de sambar mesmo sem saber
não deixasse de se apaixonar por medo da tempestade causada pelas consequências

Saber o quanto valem cinco minutos na sua vida, é saber pra quê, afinal, o seu coração bate. É não viver um dia sequer sem sentir frio na barriga por alguma coisa nesse mundo. Você já reparou que NENHUM dia vai voltar? Que você tem apenas UMA chance na vida de fazer o dia 1 de Outubro de 2011 ser uma data digna de ser memorizada? Que daqui a pouco agora já é ontem?

E sim, nessa de viver o que não se deve deixar de viver, às vezes, a gente atropela pessoas. Simplesmente porque não dá pra levar todas elas com a gente. A Florence diz que você não dá pra carregar todo o amor se quiser sobreviver e o Kundera diz que a gente já entra no palco da vida atuando, sem ensaio, sem rascunho.

Eu só sei de uma coisa: se meu corpo parar, o seu continua. Se eu morrer, ninguém morre comigo. Quando dói, só eu sinto. Então qual é a lógica de não viver o que um outro coração não quer?

Até porque a maioria dos corações não vai te dar ouvidos quando quiser voar. E eu acho é lindo.