Como nossos pais?*

Lá no lar Bottânico, a gente tem mania de papear por horas com os velhos sobre o passado deles e como chegamos até aqui.

Na última dessas, eu fiquei horas refletindo sobre o que eu ouvi e cheguei a algumas conclusões.

Meu pai saiu do sítio e começou a trabalhar por volta dos 8 anos de idade, engraxando sapatos. Minha mãe entregava pão de madrugada, também criança. Os dois trabalharam durante toda a adolescência, como muitos de nós, hoje, só que o dinheiro ia todo pra casa. Minha mãe teve que dar até o último mês de salário pro meu avô, antes de se casar.

Mas o que me espanta é a trajetória pós-casamento. Uma sociedade com parentes onde os dois entraram com dinheiro e saíram sem nada; minha mãe vendeu alumínio; os dois montaram barraca na feira; meu pai foi viajar como vendedor e dormiu em hotel com cachorro debaixo da cama; deram quase tudo pra comprar uma mercearia e o antigo dono resolveu comprar uma perua e atender os antigos compradores em suas casas, ferrando o negócio.

Pagaram por anos um apartamento e depois descobriram que, por causa da inflação, a dívida só aumentava e, quando terminassem de pagar, estariam devendo cinco apartamentos. Pararam de pagar. Nesse meio tempo, minha mãe montou uma empresa de fraldas descartáveis, que deu dinheiro suficiente pra erguer a nossa casa antes do despejo do apartamento. Pouco tempo depois, um incêndio destruiu a fábrica toda.

Depois disso, meu pai abriu uma loja de materiais hidráulicos, com dez peças de cada. Foram alguns anos trabalhando pra pagar as contas, sem lucro, mas ele nunca deixou de acreditar. Quinze anos depois, ele vai pra Paris por bater recorde de vendas de um fornecedor.

Apesar de ter dormido nos sacos de arroz enquanto meu pai enchia linguiças, à noite, no açougue da mercearia, eu não tive uma vida dura. Não precisei trabalhar quando criança e sempre tive o que dava pra ter. E eu sempre soube o que dava pra ter e não pedia mais que isso.

Quantas dessas histórias há por aí? A geração dos pais dos quase-adultos de hoje foi a que mais se ferrou, a que passou pelas maiores mudanças. Já nós, nascemos e crescemos num mundo um pouco mais tranquilo, onde não era preciso lutar tanto. Porque eles lutaram por nós.

Só que, sinceramente, eu acho que isso fodeu com alguns de nós. Eu não me sinto digna de ganhar um carro, mas muita gente que eu conheço exige isso, sem ter conquistado porra nenhuma. Muita gente acha normal. Não é. Você tem que conquistar uma coisa pra dizer que é tua. Tem que pagar teu aluguel se quiser morar sozinho. Que trampo, né?

Fui pra São Paulo e vi um cara com as pernas atrofiadas, se arrastando num skate. Quem sou eu pra reclamar e desistir das coisas que eu quero?

Quem é você?

Shame on us, a vida é DEMAIS. É só enfiar a cara.

*Já usei esse título, mas não tinha mais adequado.

87 comentários em “Como nossos pais?*

  1. Ju

    A melhor lição é aprender que para se conquistar alguma coisa só depende da nossa disposição de correr atrás.

    Meu pai fala que não pode dar tuuuudo que queria para mim e para meu irmão, mas que deu o suficiente para podermos conseguir dar tudo isso, que ele sonhava dar pra gente, para nossos filhos.

    E vamos indo, nunca passei dificuldade na vida, e mesmo assim sempre corri atrás da minha vida, tb não acho correto “ganhar” um carro ou meu pai pagar minha faculdade.

    Meus pais me ensinaram assim, e sou muitoooo grata por isso. Sofro muito menos.

  2. McFly

    Boa, boa. Não li todos os textos, mas dos que li este é o preferido. Arranhando o que na América do Norte é fenômeno conhecido como baby boomers, ou baby boom generation. Boom, bom.

  3. S.L. Snake

    Matou a pau no texto! Meus pais tem histórias parecidas e também ficavamos horas ouvindo. Da vinda pra São Paulo, do sufoco dos pais para mante-los na escola, de ter que trabalhar e dar todo o dinheiro em casa. Me arrepiei lendo o texto e curti muito. E concordo totalmente contigo quando fala do lance do carro, das pessoas que praticamente “exigem” como presente de 18 anos. Discordo e tive que comprar o meu! Me ferrei na dívida, tive que vender. Depois comprei meu apê e tive que vender tbm. E estou vivo e aprendi a viver com isso. Hoje sou professor universitário e dou graças a Deus pelo exemplo dos meus pais.
    E fico ainda mais feliz em ver uma guria – que deve ser uns 10 anos mais nova que eu – pensando como você. Parabéns pelo exemplo! Há salvação pra molecada!

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  5. Vini

    Li o texto, achei DUCA. E ão vou mentir, pulei TODOS os comentários, pq a única coisa que eu quero dizer é, como eu queria o fórum nessas horas! Ia render MUITO.
    =)

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  7. Wilson

    Inspirador, Mírian!
    Depois dessa, só posso dizer que meus pais fizeram um ótimo trabalho. Agora é a minha vez de lutar ^^
    Bjo!

  8. Nathalia

    Hoje (sábado) me aconteceu uma coisa muito curiosa: tinha 3 festas prá ir e decidi ficar em casa, precisava descançar. Só fui na casa da amiga, que mora em frente à minha casa e tava fazendo aniversário. Fui sem chave (é em frente à minha casa e ia voltar rápido).
    Na volta, meus pais tinham saído e me deixaram na rua. Voltei pra casa da amiga, mas ela tinha saído e tive que ficar conversando com sua avó até meus – não tão – queridos – naquele momento – pais chegarem.
    Durante o tempo que conversei com ela (a avó), ouvi uma ou quatro histórias parecidas com essa. Fiz até um post pro meu blog. É bizarro passar por um dia tão bizarro e achar um post assim tão legal prá ler no fim do dia.

    Brigada por seus posts sensacionais.

  9. Diego

    Que foda ver os comentários bombando! Sinal de que o Subs tá tendo muitos acessos. Parabéns, Bottans! 🙂

  10. @professorvaz

    […] E eu sempre soube o que dava pra ter e não pedia mais que isso.

    E essa era a parte ruim de ser uma criança esperta rsrsrsrs

    Ótimo texto Mirian, já estava com saudades de comentar aqui!

    []s

    VAZ

  11. Diego

    Já dei parabéns em outros lugares, mas tinha que marcar presença aqui. Aí vai nesse post que é o mais recente! 😀

    Eu te desejo toda a felicidade e sucesso do Mundo. (Amor, saúde, etc estão inclusos em felicidade.) Sabe que eu te admiro pra caramba, tenho um carinho enorme por você (mesmo só conhecendo pelo blog). E continue escrevendo esses ótimos textos que adoramos ler. Hoje no blog e um dia nos livros!
    Obrigado por compartilhar conosco, através de seus textos, esses 23 anos de vida que completa hoje. (Ih, falei sua idade! hahaha)

    Sou meio travado pra me expressar, mas espero ter conseguido demonstrar o quanto essa data é significante pra mim e todos que lhe admiram.

    Beijão

  12. Diego

    Putz, deu um erro (burrice minha mesmo) e cortou um teco do texto… Mas deu pra entender o que eu quis dizer.

  13. Alice Désirée

    Meus pais não passaram por situações assim, a história deles tá mais pra romances melosos do que vidas sofridas, embora minha mãe trabalhasse tb para ajudar na casa..E eu não trabalhei até hoje! Acho isso um absurdo! Aliás, eu mando currículo e ninguém me chama, se eu conseguir um estágio q seja vou ficar hiper feliz! Mas concordo com vc q a vida é difícil e como pai vc tem q mostrar q a vida é difícil pra seus filhos por mais q essa n seja sua história..Ninguém sabe o dia de amanhã e o melhor presente é gastar o seu dinheiro ganho com o seu suor! Nada melhor! Por isso que eu ainda n tenho nem carteira de motorista! E nem admitiria q pagassem pra mim! rsrs..
    Bjs!!
    =1

  14. André Santana

    Por coincidência, há pouco escrevi a frase abaixo, tudo a ver com o texto.
    Corra atrás e lute pelo que quer de verdade. A vida sem isso se resume a um espaço de tempo chato entre acordar e dormir… (André Luiz Santana)

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  16. Fernando Quirino

    Tyler Durden, meu guru, falou melhor que eu, resumidamente, sobre o fato de não termos lutado nenhuma guerra, não termos ralado para conquistar o crescimento econômico ou o plano Real, não termos que sobreviver a uma epidemia letal de vírus transmitido pelo sexo e sem esperança de cura ou repressão e cachorros nos mordendo quando queríamos ser ouvidos. Não fomos torturados, não vivemos sob o medo atômico, não fizemos absolutamente nada.

    Agora fica a minha proposição de que só sobram 3 alternativas. Sentar em cima disso exigindo mais, simplesmente ficar calado e não fazer nada ou aproveitar esses segundos de vantagem na corrida para ganhar com folga o que eles começaram por nós.

    Ainda tem muito a ser feito, o sofrimento deles foram as dores do parto, cabe a nós crescer e levar além. =]

    Adorei seu texto, pequena.

    Bjão e demorei a ler mas cheguei.

  17. Luis Pereira

    Miriam, parabéns pela sua maturidade, algumas pessoas passam pela vida inteira e não conseguem chegar à metade das conclusões que você chegou. Assim como você é orgulhosa da luta de seus pais, eles devem estar muito orgulhosos de você. Quem pensa assim vai longe, não tem medo, encara a realidade e não se vitimiza perante obstáculos,
    Um abraço,
    Luis

  18. Raphaela Ferro

    Compartilho o sentimento… Pais que também ralaram muito, e eu sempre achando que tinha que ralar no mínimo do mesmo tanto para merecer tudo que eu tenho com um tanto menos de esforço que eles…
    E para quem tantas vezes não valoriza pai e mãe, tá aí uma lição… Por pior que a gente os enxergue agora, a gente não sabe metade do que eles passaram…
    Parabéns pelo texto! Bastante coerente!

  19. Demétrio Iarema

    Na faculdade estudei com um bando de playboyzinhos que tinham de tudo, era só pedir. E sinceramente, eu tinha uma certa pena deles, porque nada do que eles tinham os satisfazia. Eu era muito mais EU com meu PC bagacento (mas que conseguia fazer os trabalhos da facul e trabalhos extras) do que eles com todas aquelas parafernálias tecnológicas porém com o cérebro bagacento. @dezmetro

  20. Marcos

    Engraçado que comecei a ler este texto e tudo me parecia meu pai me contando a sua história.
    Quase idêntica, os problemas, as ajudas aos pais, os negócios que foram perdidos, épocas ruins, a que nasci por exemplo, hahaha. Não havia como eu não me tocar com essa história, a unica diferença é que em minha familia até mesmo meus irmãos fazem parte dessa luta junto com meus pais.

    Bom ler histórias assim, lembrar de todos que lutaram por nós e a nossa responsabilidade perante a isso.

    Bom te ler.

  21. Fabíola Lara

    Minha (e de meus pais) história é parecida com a sua.
    Tenha a mesma opnião que nada que vem fácil nesse mundo é construtivo para uma pessoa. Dignidade se adquiri no dia-a-dia com esforço para alcançar os objetivos.
    Dá vontade de dar uma surra nesses “filhinhos de papai” que não sabem o seu lugar! E lá em casa mesmo tem uma dessa… rs
    Fabi
    http://www.fabilara.blogspot.com

  22. Regina

    Vc tem toda razão!! Eu costumo reclamar da vida, mas às vezes reflito sobre a realidade e agradeço a Deus por tudo o que tenho. 🙂

    ps: vc escreve mto bem!

  23. Mell

    Caramba!!! Adorei, parabens pelo post!
    É isso mesmo que acontece hoje em dia!
    a geração que eu e todos nos vivemos
    vem sendo povoada por adolescentes e qse adultos um pior que o outro
    ninguem se interessa por nada, nem em arrumar um emprego
    ou até mesmo de estudar para ter algo so seu na vida,
    as pessoas preferem se acomodar a vida boa que os pais lhe oferecem
    achando que eles estarão ali para sempre… Pod???
    rsrs
    mas amei o post, mto fera!

    bejuu

  24. Alexandre, o Tabajara

    Miriam, talvez voce esteja um pouco afastada da realidade dos menos abastados. A vida dos seus pais é o dia-a-dia de muita gente por ai. Nao parece, mas ainda tem muita gente dormindo em hotel onde o cao é uma companhia inevitavel :o)

  25. Mirian Bottan

    @Alexandre, o Tabajara:

    Alexandre, talvez vc não tenha prestado a devida atenção ao que realmente era o ponto desse texto. Eu dizia exatamente sobre ter uma situação um pouco melhor hoje em dia, graças ao sacrifício de vida dos meus pais. Logo, hoje em dia, eu não vivo a vida deles, realmente. Mas vivi quando criança, antes de eles conseguirem prosperar. 😉

    Abs!

  26. Bruno

    E há ainda a inacreditável crença dos “mama boys & girls” que o supra-sumo do “ganhar”, da “conquista” seja o automóvel, em uma realidade onde ele é na verdade o vilão de muitas outras histórias…

  27. Igor

    Buenas Mirian,

    Bom esse é o primeiro post que leio do sei Blog.
    Segundo que concordo (até este momento) que seu blog é diferente dos muitos que tem por aí, como foi dito numa reportagem no YouTube, senão me engano Hyperlink.
    Quanto a nós, nossa geração estar um pouco mais tranquila, eu discordo. Acredito que é um ponto de vista parcial, talvez em comparação estamos um pouco melhor, mas em outras estamos tanto quanto pior que a geração dos nossos pais. Então há um equilíbrio; pois hoje ainda há crianças passando fome, desnutridas, sendo escravizadas, estupradas, espancadas quando não são mortas ou deixadas em um parque ao relento ou jogadas em um aterro.

    É isso, existem muita coisa a ser dita, e apesar de não concorda muito sobre o que disse, mas é normal e assim caminha a humanidade, poucos jovens como nós tem esse insight sobre a vida, como é a minha vida e como é a vida do outro!?

    Abraço…!

    Parabéns pelo Blog!

  28. aleodoni

    Foi a primeira vez que acessei o site. Li a crônica e posso dizer que realmente fiquei emocionado. Passou uma pequena história na minha cabeça dos meus avós, do meu Pai e minha Mãe que infelizmente já partiu e pude, por alguns momentos, sentir o sacrifício que eles fizeram na vida. Sairam do nada, venceram na vida e ainda conseguiram criar 3 filhos. Posso dizer que aprendi a dar valor para as coisas pois sei o quanto custa batalhar para consegui-las. Concordo que muita gente ganhou tudo de mão beijada e não dá valor pra nada, pedindo sempre mais. Acho que um pouco de reflexão e conhecimento da história da nossa e de outras famílias poderia ajudar bastante. Parabéns !!!

  29. Pingback: Zona de Conforto – A maldição « Nada alem dos arquivos.

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