Extremos

Há algumas semanas, me perguntaram no Formspring se me comparam muito com a mancebinha da minha irmã. Resolvi discorrer sobre o assunto e colocar na ponta do lápis dedo três comparações que sempre foram um fantasma na vida dessa irmã mais nova que vos fala:

1. Toda reunião de família, o pessoal começa a lembrar como era quando os filhos/sobrinhos/netos eram pequeninos e, como já foi dito muitas vezes por aqui, minha irmã era o capeta em forma de guria.

– Ela abriu e virou um vidro de shampoo na cabeça de uma tia no meio do supermercado, enquanto a coitada da tia segurava a infeliz no colo, olhando para o outro lado ao invés de vigiar a semente do mal.

– Pediu laranja com sal pra minha mãe, supostamente, pra comer. Na verdade, era só pra jogar o sal na cabeça da outra tia que tinha acabado de fazer permanente.

– Fugiu de casa com 3 anos e foi encontrada lavando o banheiro do vizinho.

– Fugiu de casa com 5 anos pra fazer compras no supermercado, onde foi encontrada com uma cestinha cheia de besteiras tipo doces e um absorvente mini, ítem que alegou ser feito para ela, pois era pequenino.

– Defecou no corredor do meu avô.

– Batia nos meus primos que eram mais velhos que ela.

E mais mil ítens que posso continuar citando aqui até enjoar, porque, acabar,  não acaba nunca.

E, lógico, sempre depois de falar da minha irmã ficam todos em silêncio lembrando dos episódios e acho meio impossível não pensar ‘e a Maira?’.

Pois é. Perguntem: E você?

Eu? Eu, nada!

Porque enquanto minha irmã aprontava, eu estava na mesa da cozinha conversando com ervilhas, no chão da sala arrancando as asinhas de insetos, brincando de formar casais com os lápis de cor, picotando papéis ou dormindo, porque como uma tia disse uma vez, era me deixar quieta por 1 minuto que eu deitava onde estava e dormia.

2. Sempre demorei muito mais pra pegar no tranco e isso não é segredo pra ninguém.

Quando minha irmã tinha uns 5 aninhos, minha mãe disse pra paçoquinha que se ela não fizesse xixi na cama naquela semana, ganharia um presente. Parou naquele dia e nunca mais fez.

Tentou isso comigo desde antes dos 5 anos e eu parei faltando 15 dias para completar… 9 anos.

Eu fazia questão de escolher minha fralda no supermercado e colocá-la sozinha. O mínimo de dignidade, né, por favor.

3. Por último, algo que sempre compararam é inteligência/esperteza. Claro, é normal irmãos disputarem as melhores notas e tal.

Mas só vou fazer UM comentário: com 5 anos, na mesma idade em que minha irmã sabia quem era Gorbachev, eu perguntava pra minha mãe qual parte da vaca era o frango.

Né.

Pra constar: todas as informações desse post foram confirmadas pelos meus pais e eu agradeço a eles por não desistirem de mim apesar de tudo isso.

Mas é aí que vem um porém. No fim das contas, sem mim, a minha irmã-mais-velha-prodígio não ia conseguir: fazer as malas pra viajar, fazer contas, virar à direita, chegar a lugar algum de carro, achar um apartamento, saber as horas em relógio analógico, dormir depois de um filme de terror e, sem mim, ela não ia ser uma pessoa minimamente equilibrada.

Sem contar que se essa lazarenta não parar de tomar diurético eu, provavelmente, vou ter que doar um rim pra ela.

Então, se você tem um filho que parece meio banana e autista, dê tempo a ele pra crescer e se desenvolver no seu próprio ritmo. É absolutamente normal.

Já se você tem um filho que foge da creche aos cinco anos, passando pela segurança sem NINGUÉM ver, como ela fez, jogue no rio, o quanto antes.

Brincadeira, Tatá. Sem você, quem iria tomar a minha Coca após dizer que não queria refrigerante? Quem iria morar no meu apartamento sem ser convidada, comer minha comida e bagunçar meu quarto? Quem me deveria dinheiro eternamente? Quem quase me mataria do coração ao passar raspando o retrovisor do carro na cabeça de um burro (o animal) no meio da rua?

Brincadeira de novo! Sabe que tenho vontade de dar na sua cara por essas coisas, mas, sem você, quem me defenderia? Quem me mandaria ser gente quando só tenho vontade de sentar e chorar? Quem me ajudaria a me vestir? Quem faria pipoca pra mim? Quem arrumaria meu notebook? Quem me daria força pra ir pra cidade grande, quando até minha mãe não queria que eu fosse? E continuaria escolhendo as minhas roupas, mesmo em cidades diferentes? Quem me mandaria viver um pouco?

Se sem mim, ela não é uma pessoa minimamente equilibrada, sem ela, não sou uma pessoa minimamente desequilibrada. E sem o desequilíbrio, sem arriscar, eu não seria metade do que sou.

Um viva pros extremos!

E te amo, vaca véia. 😛

71 comentários em “Extremos

  1. Brown

    Miroca!!! to voltando!!!
    me lembro qdo comecei a blogar, tu q me ensinou a fazer no wordpress!!!
    vlw vlw vlw!!!
    bom…fiquei um tempão sem postar, sei q tu nem lembra quem sou…anyway…tamo ae…precisanbdo neh…

    bom…teu texto me fez lembrar muito dos meus irmãos…
    é incrível como possuímos semelhanças e diferenças tão latentes!

    te cuida!
    bjks =o*

  2. Fernando Quirino

    hauhauahuahau E além de tudo a Maira responde os comentários hehehe
    Conheci a Mirian quando fui em Sampa mas nem tive visão da outra Bottan. Quando retorno a Goiânia, os blogueiros falam “Mas como assim você não conheceu a Maira também?”. Povo achou ridículo eu conhecer uma sem ver a outra. Agora faz ainda mais sentido depois dessa declaração de amor e desabafo do encapetamento alheio, como vocês se equilibram estando longe ou perto.

    Eu sou filho único (#mimimi) e não sei dessas coisas, mas acho que todo mundo é capaz de reconhecer uma relação linda quando vêem uma. A de vocês é belamente caótica entre a discalculia da mini-bottan e a tranquileza da alter-bottan. Todos se salvam entre mortos e feridos. E esse não só foi um dos mais bonitos, mas acho que um dos melhores de todos que a Maira já escreveu.

    Parabéns as duas (ou não) por terem uma a outra. =]

  3. Horrana

    Suuper me identifiquei com esse post!
    Eu e minha irmã somos assim, enquanto ela apronta, eu estou quietinha, enquanto uma sabe demais de uma coisa a outra ta perguntando se tem queijo na geladeira e assim vai. Amei o post
    Sem nossos irmãos, a vida não teria graça!
    Um viva aos extremos, um viva aos irmãos pentelhos \õ/

  4. Emilia

    Sou a caçula, e minha relação com minha irmã é semelhante à de vocês.
    Só que, nesse caso, a maluquinha sou eu.

    Quando pequenas, de ficar usando roupinhas iguais, sempre era ela que vestia rosinha, vermelho, cores mais tranquilinhas… E pra mim restava a outra cor: o azul, o verde, o amarelo…

    E ainda hoje, mesmo eu com 30 e ela com 34, eu ainda sou a injeção de coragem e ímpeto, e ela é a manta da sapiência.

    Ainda bem!

  5. Leonardo Augusti

    Então, de acordo com a minha mãe ela nem tinha feito permanente, ela tinha acabado de lavar a cabeça, e só não estrangulou a miriam pq o tio zé não deixou 😀
    UHSAHUASUHAHUHUSA
    Adoreei priima. ;*

  6. AleCarnevalli

    Muito bom! Adoro essas estórias de recordações, mas a foto foi a melhor de tudo! kkkk
    Parabéns pela indicação no blog da Evelyn… 😀 Eu tb fui! (heeeeeee!)
    Bjkssss

  7. Tarsila

    Olha, a Miriam tem que te agradecer por ser quem ela é, afinal, todo esse jeitinho demonio de ser reflete a necessidade de chamar a atencão dos pais, totalmente voltada para o bebê mais novo 🙂

  8. meu, genial o post, eu ri muito… Isso me lembra uma priminha que no primeiro dia de aula a menininha perguntou: vc quer ser minha amiga? E minha priminha disse: não… Minha mãe não deixa. E saiu fora!

  9. Éric Coutinho Fernandes

    Extrovertida X Introspectiva

    Nada mais que isso.
    Eu ficava muito na minha, mas quando minha mãe foi me ensinar a ler, eu já estava aprendendo quieto enquanto ela ensinava minha irmã.

    Jogar cartas ou damas sozinho, fingindo ser duas pessoas, brincar com insetos, ficar olhando detalhes como os póros da pele ou as cerdas de um tapete…

    … coisas de sonhadores. 🙂

  10. Anaidris

    Eu lembro que a Mairoca foi a única que no sítio da Olga foi comigo caçar patos/galinhas/ovelhas(eu acho que tinha ovelhas lá…) …é Mairoca…faz tempo!Mas com certeza você se lembra!Você era exatamente o que escreveu nesse texto Foi a garota de 12 anos mais legal e inteligente que eu já conheci!

    Um grande abraço! :mrgreen:

  11. Pingback: A Solidão do "Filho Único" « batatafrita

  12. George Huang

    Ahhh, cara. Vocês são muito fofas. E inteligentes tb.
    Já adicionei o site nos favoritos. Vou começar a ver os textos de vocês. São perfeitos, meu. Adorei.

  13. Cah Bicudo

    acho que esse é o texto sobre “família” que mais me fez rir na vida. e me tocou tbm. senti até um pouco de inveja (branca como a nuvem tá?) pq minha diferença de idade pra minha irmã é grande (14 anos) e eu queria isso também.
    Vou ali emprestar minha prima, pera.

  14. Leo viking

    Li um pequeno trecho e voltei a passado onde meu mano aprontava que queria e eu so levavaa pior por isso. Pq sera que isso ocorre? estranho o mais veio leva toda a cupa do mais novo!

  15. Pingback: Manuela Macagnan » Blog Archive » Quem tem irmão tem tudo

  16. Léo

    Ja tinha lido e rido, e reli e reri de novo (ecziste? hehe). “Qual parte da vaca é frango?” Kkkkk Tenho primos , gêmeos, e nem dá pra dizer que são irmãos, de tão diferentes EM TUDO que são. O importante é se sentir amado, inteligente ou… lerdo. Kkkkkkkkkkkk

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