24
Jan
  Infância em páginas

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Já comentei várias vezes que aprendi a ler aos quatro anos de idade. Segundo a excelentíssima senhora minha mãe, um belo dia, ao voltar da creche, eu parecia puta da vida com alguma coisa, entrei e me tranquei no quarto.

O motivo da apurrinhação era que a minha melhor amiga sabia ler, e eu não. Saí do quarto lendo.

Daí pra frente, virei uma devoradora de livros, gibis, vidros de shampoo, embalagens de massa de tomate, e faixas na rua. Essas eu lia até ao contrário. E era fucking master, aliás.

Apesar de moleca, estava sempre com um livro na mão. Lia em cima de árvore, ia nadar na represa, andar de skate (!) ou carrinho de rolemã (!!) e levava o livro na mochila.

Costumava me sentir numa outra dimensão, me desligando totalmente do universo ao meu redor. O que, inclusive, me rendeu vários momentos contrangedores, como o dia em que, no meio de uma aula de literatura, mas perdida em algum romance, ouço a voz da professora, beeem lá no fundo:

- “Ardendo”, “arder”, o que o autor quis dizer com isso, pessoal?

Por algum motivo sobrenatural e mais forte do que a minha vontade, mesmo sem fazer a mínima idéia do que ela estava falando, decidi responder, não sem antes vislumbrar a expressão apavorada da minha amiga que me dizia com os olhos um “Abortar! Abortar!”, que eu também ignorei, soltando em alto e bom tom:

- QUEIMAR?

Acontece que a resposta era DESEJO, e o troço todo sobre o qual ela falava era praticamente um conto erótico, que havia deixado a classe toda boquiaberta. Depois dos três segundos mortais de silêncio, todos rolaram de rir da minha “inocência”, e obviamente, virou a graça do ano olhar pra minha cara do nada e mandar um “QUEIMÁÁR”.

Mas esse era o MEU elemento chave para fantasiar. Dependendo do que eu lia no momento, eu olhava pras pessoas e levantava teorias a respeito delas, ou fingia que elas me perseguiam e vice-versa. Eu vivia com um pé dentro e o outro fora da história da vez.

O mundo de uma criança é feito dessa fantasia, de coisas que somente você consegue ver. Um universo paralelo, sem ninguém pra atrapalhar.

Minha irmã, por exemplo, fazia amizade com ervilhas e pequenos insetos. No mundo dela, naquele universo só dela, isso cabia perfeitamente.



24 Comentários


    gravatar  Jonas
     Thursday, 24 de January de 2008
     10:01 am
     
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