12
Sep
  Medo da eternidade – A Descoberta do Mundo

clarice-lispector.jpg

(Outro conto de Clarice, talvez o melhor de todos.)

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
- Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta. Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? – Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
- Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito. Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar. Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! – Disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

(LISPECTOR, Clarice. Medo da eternidade. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. p. 446-8. 1)



6 comments to “Medo da eternidade – A Descoberta do Mundo”

Thomas

September 12th, 2007 at 2:13 pm

Muito bom! To vendo que tenho que ler esse livro…

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Gisele

September 12th, 2007 at 6:09 pm

Oi!
Te enviei um email por seu formulário de contato, agora você vai entender porque tenho lido e comentado no seu blog.
Bjs

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Tiago

September 12th, 2007 at 11:48 pm

Tá meio pra tarde pra ler Lispector.

Mas acho que, deu vontade.
Nunca parei pra pensar no que ela disse sobre, [talvez nem disse, mas] eternidade tem gosto chato.

Só porque é eterno,
tem que grudar embaixo da cama.

Pô,

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Enio Luiz Vedovello

September 14th, 2007 at 12:18 pm

Já tinha ouvido falar que a eternidade deve ser um saco. Agora, gosto ruim é novidade, embora não devesse ser. Gostei do conto, até porque eu também não consigo mascar chicletes por mais de alguns minutos.

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Prof.Vaz

September 14th, 2007 at 4:39 pm

Interessante, um conto de Clarice Lispector justamente na semana do ano novo judaico!

Bela Homenagem!

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Alessandro ALEH

October 4th, 2007 at 5:43 pm

Sensacional o texto!
e o blog também!
;)

abraço e tudo de bom!

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