
Eu não sou pobre. Também não sou rica, nem de longe. Tô no meio do furdunço da maldita classe mérdia. Isso porque o meu pai – que veio do sítio e foi engraxate aos 10 anos – e minha mãe – que também criança, entregava pão de madrugada pra ajudar o meu avô – trabalharam feito camelos pra que eu tivesse um pouco mais de conforto e oportunidade nessa vida bandida.
E assim, trabalhando e construindo a vida em 12x nas Casas Bahia, num sufoco dos diabos, fomos conquistando, aos poucos, pequenos e grandes confortos, que incluem desde quinquilharias eletrônicas, até carro e casa própria. Benzadeus, já diria a minha avó. Vira pro lado e abraça o irmão, diria um pastor da igreja Penten Peten Pentecostal.
E era uma vez que, o cinto é apertado, a faculdade – que eu já divido com o meu pai, por caridade dele, não minha – fica um pouco pesada. Bóra arranjar um descontinho – descontinho o escambau, no máximo um financiamento que eu vou ter que pagar de qualquer forma. Mais uma vez, um jeitinho Casas Bahia de se viver.
Vou até a sala da assistente social, e explico pra ela que eu sou blogueira tá complicado dar conta e que eu não queria deixar o curso, que eu adoro. Ela, com aquele jeito de assistente social, começa a falar comigo com a voz mansa e pausada, e quando eu percebo, já encarnei a pobre pra não desapontar a coitada. Ou vice-versa.
Agora, analisando a ficha de inscrição do programa, tenho apenas uma coisa a declarar: nesse país, se não puder ser rico, pule a classe média e seja pobre. Não importa quantos carnês você tem socado naquela pasta entupida de contas a pagar, se você tem uma TV, um microondas e mais que dois pares de sapato, você não tem direito à ajuda nenhuma. A classe média é a órfã da grande pátria.
Porque se o governo diz que eu posso, eu vou ter que me poder.




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