Muito do que não basta

Lá pro tempo da minha avó (ou da infância dos meus pais), a despesa da casa era feita em armazéns. Um balcão, um tio atrás do balcão. Não eram muitos os tios, nem os balcões, nem as opções.
Exatamente por isso, pra crescer, tinha que ser de outro jeito.

Vieram os PEGUE E PAGUE, onde o cliente entrava e pegava o que quisesse, botava na cestinha e passava pelo caixa. Agregamento de ítens HORTIFRUTIGRANJEIROS, carnes, pães e lacticínios, crescimento exponencial da variedade de marcas e produtos.

Hoje, o foco é suprir todas as necessidades que o cara possa ter, no mesmo espaço físico. Eletrodomésticos, roupas, remédios, eletrônicos e serviços. Dá pra abastecer o carro, tomar um café, pagar contas, colocar crédito no celular, revelar fotos, fazer amigos e dançar a conga. 24 horas por dia.

Eu lembro de uma infância num esquema armazém do tio.

Eu tinha uma professora, eu tinha uma turma onde ninguém era ruim. Eu tinha umas poucas vontades. Queria gibis, roupas roxas, um macacão e repicar o cabelo. Sabia desde janeiro o que pedir no natal.

E tinha mais PAIXÃO. O peito doía de alegria com as férias na casa das primas, com a semana na praia, com o oi do Renan, com o domingo no clube, com o pacote de Passatempo, a bolacha mais gostosa do universo. Nada era ruim por muito tempo. Assim que o choro secava, já tava tudo bem.

O tempo e as surras vão laceando as emoções, ao mesmo tempo que a gente sofre mais. Uma roupa nova já não tem tanto valor no fim do dia, um sentimento novo já não tem tanto valor no fim da noite. A gente já não sabe qual é a melhor bolacha, já não sabe qual pacote de feijão comprar, tem coisa demais no supermercado, tem gente demais na vida da gente.
Eu ando quilômetros com o carrinho e não levo nada. Eu não gosto mais das coisas que eu gostava e o problema de experimentar uma daquelas que a gente nunca pensa em pegar porque é muito caro, é que a gente tem mania de viciar no que não dá pra ter sempre que a gente quer.

Eu andei perguntando pras pessoas se elas são felizes e ninguém diz “sim”. Ao invés de três letras, elas usam o resto do alfabeto, os números e a mitologia grega. Elas não sabem, elas estão trabalhando pra isso, elas são 70% felizes. Elas se encontram no mercado, de madrugada, procurando por alguma resposta. Andam, olham, pegam, hesitam, devolvem, continuam com fome.

49 comentários em “Muito do que não basta

  1. Dani Antunes

    Nossa… Viajei 15 anos atrás, quando perto da minha casa ainda tinha a venda do Sr. Paulo, que conhecia a familia inteira e ainda era uma pessoa sóbria. Há anos não o vejo, mas sei que ainda está vivo. Sóbrio? Duvido muito. rs

    Texto bacana… Gostei! 😉

    Beijo, meninas! 😎

  2. Raimann_R3

    Pois é a incerteza está sempre ai conosco.
    Eu geralmente passo reto e não to nem ai, na incerteza eu vou pra qualquer lado, pra nenhum ou pros dois sem muita frescura
    Mas é na vdd mesmo são nas coisas mais simples da vida que encontramos a felicidade, é sem muita frescura mesmo!

    Só tenho ctz de duas coisas nesse mundo, bolacha passatempo e as crônicas Mirian Bottan são definitivamente as melhores do universo!

  3. iuri

    Mas é fato mais que fato.

    Depois que nós crescemos, a compra acaba se tornando mais importante do que o consumo.

    Não digo apenas de imediatismo fisiológico, acho que comida é o menor dos problemas. A gente morre de fome, come qualquer coisa e, quando acaba, se odeia por ter gastado 60 reais em um rodizio de sushi, quando um cachorro quente faria o mesmo pela nossa fome.

    Eu falo mais do consumo “eu preciso daquele sapato” “eu quero essa televisão” “aquele celular PRECISA ser meu”

    Do tipo, meu android (eu nao tenho um android) possui mais de 200 mil aplicativos, setecentas funções e o incrivel aplicativo BEST FRIEND, onde eu nunca fico sozinho onde quer que eu esteja. E no fim do dia, eu utilizo ele p/ telefonar. Assim como eu fazia com meu W380.

    Sábado eu comprei um amplificador novo, toquei por meia hora, e agora ele está lá de boa, perdendo para meus downloads de lost e todas as outras séries que eu sempre vi, há anos, nessa mesma rotina.

  4. cris

    Muito bom o texto, primeira vez que leio este blog, e gostei muito, vou dar mais uma ‘bisbilhotada’ por aqui =)

  5. ricardo penachi de camargo

    Meu pai vive com balas no bolso.
    VocÊ me despertou pra uma explicação…

    Desse tipo de lembrança que você elenca, docemente, por aqui algumas sumiram…

    A propósito… tenho lasquinhas de gengibre no bolso… sempre. E nem imaginava que poderia haver um outro motivo…

    Perceber é difícil… e o marketing que o diga, se conseguir…

  6. Fernando Quirino

    Bala? tá doida? E o diabetes? E as cáries? E os traficantes na porta da escola? Vai chupar uma balinha hoje em dia? É caixão e vela preta.

    O mundo não comporta mais os prazeres simples da vida, como jujubinhas.

    PS: Por que toda escola tinha um traficante vendendo balas menos nas que eu estudei? Acho injusto. =/

  7. Júnior Gonçalves

    Me lembro da época que minha mãe pedia pra comprar produtos na mercearia e na quitanda. Hoje eles não existem mais porque os grandes supermercados roubaram o espaço deles 😥

  8. Jorge Maluf

    Gosto dos seus textos. Você tem uma filosofia de vida muito parecida com a minha, mas isso fica para uma conversa de bar.

    A felicidade é momentânea. A satisfação é longa. Perguntar para uma pessoa se ela está feliz é errado. Você deveria ter perguntado se elas estão satisfeitas. Felicidade é algo que vem e vai, assim como vários sentimentos voláteis. Se a pessoa está satisfeita, nunca perdera essa tal dor no peito que você cita. Se eu pegar o metrô lotado e ficar cheirando o sovaco dos outros o caminho inteiro, pode ter certeza que não ficarei feliz se você me perguntasse logo em seguida.

    Metaforicamente falando, felicidade são fatias de uma pizza e satisfação é a pizza inteira. Quando a gente é criança, não temos uma noção do todo, por isso conseguimos aproveitar cada pedaço como se ele fosse único, fazendo, no meu caso, uma simples caminhada em volta do quarteirão com o meu avô ser o programa da semana… Parávamos em uma padaria e ele comprava balas. ^^. Até hoje ele me para no meio do quintal e diz: “Quer uma bala para adoçar a vida?”.

    Antigamente, cada “pedaço de pizza” tinha o seu valor especial… Depois que crescemos, lidamos um pedaço como se fosse apenas mais um. A criança dentro de nós fica mais fria e não consegue aproveitar aquele momento e o a visão fica limitada ao todo, sobre o que não temos, almejos não realizados, o que não conseguimos comprar ao entrar num super mercado que vendem até terrenos para morar na lua.

    Se você me perguntar se eu estou feliz, vou te responder com toda certeza que sim. Mas se você me perguntar se eu estou satisfeito, eu vou responder que não, pois existe muita coisa que eu gostaria de realizar que ainda não consegui, mas que estou caminhando para tal. No entanto, saber que estou caminhando me deixa feliz.

    Em geral, as pessoas são felizes, mas elas se esqueceram de identificar a beleza que um único pedaço de pizza pode proporcionar, ou o sabor doce que uma bala pode oferecer.

    Segue uma frase para inspiração:

    “Na busca desesperada de ter, o homem se esquece de ser.”

    Beijos e vamos que vamos. ^^

  9. Katrine Abatti

    Que lindo.Minha infância foi igual a tua.Tenho dó da infância que as crinaças têm hoje,se a gente,que teve essa infância hoje pensa assim como tu escreveu,imagina as crianças de agora.Triste,no mínimo.
    E tem um trecho ali que me identifiquei afu.Espalharei.

  10. Thiago Becalli

    Parabéns pelo texto!
    Fez-me recordar minha infância também e me fez lembrar que estive pensando sobre isso esses dias, hoje nós ganhamos variedade, mas perdemos qualidade, intensidade, acabamos não dando tanto valor as pequenas coisas que nos fazem feliz, mas continuamos procurando.
    Mas uma coisa eu sei… Passatempo é e sempre será a melhor bolacha do universo! ;D

  11. Rodrigo Santiago

    O problema é que hoje as interações humanas se tornaram muito mais rápidas e dinâmicas, é discurso batido, mas é a dita globalização, capitalismo evoluindo, sem sacanagem e “vermelhismo”.

    Além disso, a tendência, ao crescermos, é começar a pasteurizar as coisas, como dizia no livro “O mundo de Sofia”, perdemos a capacidade de nos maravilharmos com as coisas.

    “O mais triste é que ao crescermos não nos habituamos apenas à lei da gravidade, habituamo-nos, simultaneamente, ao mundo.” (O mundo de Sofia)

    Neste post abaixo falo um pouco sobre isso, mas principalmente, colei um trecho que acho fantástico do livro.
    http://rodrigosantiago.wordpress.com/2007/07/31/observacao-do-mundo/

    A felicidade não deve ser encarado como um objetivo, mas como um estado espiritual, ou em momentos. Como disse o colega ali em cima, devemos nos treinar novamente pra valorizar mais o pedaço de pizza, utilizando sua analogia.

    Há quem diga que não existe “felicidade”, há quem diga quer é a ausência de necessidades, nossos desejos saciados em sua plenitude. Porém, sempre acabamos criando mais necessidade. Seja do carro do ano, seja do celular de última moda.

    Mas não acho errado criarmos nossas próprias necessidades, pois, afinal, somos nós que definimos o que queremos. Mas, pra saber o real ponto, temos que ser sinceros conosco. Aproveitando o exemplo do colega ali em cima, é claro que um cachorro quente tem o mesmo efeito que um buffet de sushi: saciar a fome. Mas 2 pães francês com margarina e um copo d’água também. O importante nessa relação é saber aproveitar esse buffet de sushi, dar valor aos momentos.

    Porém, ainda assim, é um erro colocarmos peso demasiado pela felicidade à outras coisas e/ou pessoas. Temos, antes de mais nada, que olharmos dentro de nós e aproveitar os momentos com as coisas e/ou pessoas.

    “No meio de tanta opção, ninguém dá bola pra algo como uma bala. Não mata a fome, mas adoça uns minutos da vida. É uma alternativa simples e desinteressada, mas boa. Como um cafuné pra dormir.”

    No final das contas é isso mesmo.

    Lembrei de uma música do John Lennon agora: “Watching the Wheels” é o título:

    O refrão dela:

    “I’m just sitting here watching the wheels go round and round
    I really love to watch them roll
    No longer riding on the merry-go-round
    I just had to let it go”

    Desculpem a falta de concisão, é a pressa, o mundo que anda rápido, bla bla bla.

  12. Elton

    É por ai mesmo senhorita Bottan!
    Como no tal passeio socrático, quando ele, o filósofo, ao passear pelo centro comercial de Atenas, era abordado por algum vendedor dizia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”
    Parece que a condição a que estamos hoje é bem semelhante. No final das contas tantas opções tem “nutrido” uma geração de insatisfeitos, mas não da boa insatisfação que devemos ter na vida, àquela que nos move a ir atrás do que queremos, mas uma insatisfação por não saber o que escolher, o que querer.
    Bizarro!!!!

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  14. cristiane Oliveira

    Olá … Parabéns pelo texto está lindo.
    Também vivi este tempo, Tinha uma vendinha perto de casa que vendia um doce de leite enrolado em palha seca de milho que eu adorava. Gostava também de um doce de maria mole que vinha em casquinha de sorvete e com uma bexiga que era simplismente impossívél de ser enchida….rs Os olhas faltavam saltar para fora de tanto esforço. Adorava trocar garrafas por pipocas de arroz e todo trocadinho que tinha corria até a vendinha pra comprar ‘passatempo’ …rs. Bjão,

  15. Volcof

    Adorei…belíssimo texto.
    Profundo e melancólico, como a vida hoje em dia.
    Se puder dá uma olhada no meu blog tbm.
    Bjuss…

  16. Ila Fox

    Ei, esta parada de browser e sistema operacional tá meio zoado. O meu não é “Safari 532.5 on Mac OS X”, é “Chrome on Windows Seven”. 😛

  17. Gil

    Imagino a Sra. Bottan daqui uns 20 anos …..quais seriam seus textos ??? kkk
    bom… e viva as coisas simples da vida!!! ❗ ❗ ❗ ❗ ❗ ❗ ❗ ❗ ❗ ❗ ❗

  18. Diego Trevisan

    Parando e tentando lembrar não recordo se antes cheguei a comentar algum texto seu, sempre (ou quando resta um tempo) me usufruo dos textos compartilhados e hoje me surpreendi com algo maravilhoso em um contexto de analogias que transpassam o momento presente a lembranças passadas, conflitos reais de um cansaço diário aonde se encontra respostas nas questões mais simples, nos fazendo deitar em forma fetal e só desejar um colo aconchegante. Um texto que para aqueles que conseguem ir além da forma gramatical conseguem saborear uma balinha neste dia.

    Lindo, parabéns.

  19. rodguedes

    Na minha cidade e infância, a gente chamava de “Venda”. “Rodrigo, vai lá na Venda da dona bentinha e traz um litro de coca. Se sobrar compra um picolé pra você” dizia minha avó em uma tarde qualquer de domingo. Hoje os litros de coca e os picolés não tem mais o mesmo sabor.

    Adorei o texto.

  20. professorvaz

    “Uma roupa nova já não tem tanto valor no fim do dia, um sentimento novo já não tem tanto valor no fim da noite.”

    Uma ótima combinação de palavras, pra expressar a desvalorização dos sentimentos, das pessoas, dos valores…

  21. C Levischi

    Você faz o que parece impossível, após um ótimo texto consegue realmente se superar no seguinte.

    Valeu a pena a espera. É um privilégio poder ler esses trechos da sua vida.

    Seu talento com as palavras se equivale a beleza de sua foto. Conteúdo é para poucos, mas isso não falta em um fio de cabelo seu sequer.

    Parabéns e obrigado por trazer sentimentos a tona em cada palavra escrita, seus e do leitor.

  22. Luana Ferraz

    Texto absolutamente liiindo! *O*
    Já leio o blog há muito tempo, mas NUNCA comentei, então acho que é a hora, rs

    A crônica foi num estilo bem diferente do que vc costuma postar por aqui,foi mais “sentimental”. mas, sei lá, com uns pensamentos tão bonitos, traduzindo umas coisas tão verdadeiras…
    hoje em dia são poucas as pessoas realmente felizes. a felicidade está sendo vendida nas lojas, e só faz criar um vazio cada vez maior. Com toda essa variedade de escolhas, de marcas e produtos, ninguém mais sabe o que realmente gosta. A gente se acostuma a curar a mágoa com um pacote de bolacha e uma caixa de Bis.

    🙂

  23. Edu

    Po, valeu pelo alerta. Ultimamente ando tão preocupado em encontrar o que há de mais exclsuivo, mais saboroso, mais diferente, mais excitante, que às vezes eu esqueço que a vida se constrói nas coisas mais singelas.

    Tinha pensado em um poema sobre isso, vou fazer um! Valeu pela inspiração!

    Beijo

  24. Caroline

    meu queixo está caido em cima do teclado! quando eu resolvi visitar o blog da tal de Miriam que aparece numa capricho que eu tenho não imaginei que leria textos tão FODAS!!!
    Desde já nos favoritos hehe
    😆

  25. Jess

    to de tpm. tive um pesadelo horrivel e ainda sou completamente apaixonada pelo meu ex que já é completemente apaixonado por outra pessoa e essa frase:
    “problema de experimentar uma daquelas que a gente nunca pensa em pegar porque é muito caro, é que a gente tem mania de viciar no que não dá pra ter sempre que a gente quer.”

    me fez chorar. de novo..
    mas o texto tá ótimo viu..
    adoro o blog..
    beijo

  26. Rogerio

    Perfeito o texto, fala bem o que aconteceu nos últimos vinte anos. Mas a vida é assim, o problema não é o mundo, somos nós que ficamos velhos.

  27. Alice Désirée

    É aqueles bons tempos, até q eu podia brincar qnd era criança na rua q n tinha assaltos frquentes, eu sempre brincava na rua com os meus primos mas hj em dia minha irmã menor não pode nem ir lá fora pq corre o risco de levarem ela…As pessoas consumindo, mas nesse ponto aacho q ainda sou a mesma pessoa pq n gosto mto de comprar n..rsrsrs…
    =1

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  29. Ana Júlia Oliveira

    Muito bom! Você conseguiu resgatar um sentimento que muitas pessoas têm.

  30. Guilherme

    Estou numa fase completamente diferente da do post. Pra mim, existe ainda essa paixão toda nos pacotes de Chocookie, de Amandita e de Calypso, por exemplo (sem querer fazer propaganda).

    Acho que essa reflexão talvez sirva pra respirar um pouco, comprar MENOS e aproveitar MAIS.

  31. Pingback: As grandes diferenças estão nas pequenas coisas «

  32. Estefanie

    Pô, acho que tá mundo preocupado em como ser feliz enquanto os momentos de felicidade estão na sua cara.

    É aquela coisa de viver o hoje.

    Não sei se por ser distraída, mas sou bem feliz! Mesmo com as lágrimas e os dias tediosos. E nunca gostei de comprar roupas.

    Beijos!

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