O amor não basta

Desde os meus primeiros namoricos, minha mãe, reconhecendo meus momentos de posicionamento inseguro e possessivo (aquele que a gente até tenta disfarçar, mas que aos 15 atropela qualquer possibilidade de raciocínio e sensatez) sempre me deu o mesmo conselho super básico que eu conseguia ignorar rigorosamente, apesar de até entender e ansiar muito pela capacidade emocional para colocá-lo em prática: a única coisa que resta quando a outra pessoa está longe de você são as lembranças de quando está perto de você.

Uma ideia simples, que deveria, por exemplo, apagar qualquer faísca de comportamento violento direcionado ao parceiro. Aos 15, eu achava que isso seria fácil de fazer quando eu fosse mais “adulta e centrada”. Aos 27, eu penso que era mais fácil aos 15.

Aos 15, eu só tinha que lidar, na relação, com a ideia e a “vivência” do amor, por mais ilusória e equivocada que ela fosse (e quanto mais ilusória mais equivocada, diga-se de passagem) e o que ela envolvia diretamente, tipo ciúme (uma treta direta da relação). Os momentos com o outro se resumiam a momentos com o outro. Programados, pensados, preparados, limitados.

Aos 27, vivendo há quase um ano e meio sob o mesmo teto que o senhor meu mino, eu tenho que lidar com: a minha essência, e toda a realidade e a humanidade que brotam a partir das minhas mazelas (minhas tretas), com a essência e a realidade do outro (tretas do outro), com as diferenças culturais e de métodos de cada um para cada coisa rotineira (a frescura geral), as decisões conjuntas sobre problemas práticos comuns (tretas da casa) AND lidar com as antigas tretas ligadas ao relacionamento em si. Aqui é que o amor só funciona se for… inteligente.

O amor que “faz sentido” é aquele que faz com que duas pessoas queiram se ajudar a evoluir e se sintam felizes juntas, mas o caminho até aí é uma pica lôca que tem que ser planejada meio estrategicamente, porque inclui aprender a ouvir e ceder e a se comunicar melhor com o outro, coisa que nem sempre a gente sabe fazer até certo ponto da vida (se é que um dia aprende).

Sem essa inteligência trabalhada, o amor que convive com a tpm e a louça suja pode ser uma bomba-relógio. Sabe essas histórias de “namoraram 10 anos e em menos de um ano vivendo juntos se separaram”? Real shit.

É que o só o amor não basta. O que vai pode fazer ter sentido estar conectado com uma pessoa até o ponto em que a gravidade já atuou mais do que a gente queria? Despidos do sexo jovem descolado e das loucas aventuras que chacoalham a vida adulta, quando resta um corpo frágil e muito mais tempo livre, apesar da certeza de menos tempo pela frente a cada dia, o que é que você quer ter por perto?

Eu penso que poder trocar impressões, opiniões e sonhos sobre presente, passado e futuro com alguém que te respeite e te ouça é a coisa mais feliz do mundo e é o que nos resta lá na frente, me parece a cola da cena do casal que segue junto até o fim, porque sim, porque basta.

Por isso tudo a ideia de uma ligação nascendo entre uma máquina e um homem não me espanta. Nestes dias, onde nos deslocamos desnorteados por labirintos de concreto dos centros abarrotados de gente que não se reconhece como igual, terminando o dia em camas e fugas cada vez maiores, que nunca bastam para cessar o anseio por simplesmente ser ouvido.

Hoje (14/02), estreia nos cinemas o novo filme de Spike Jonze, “Her”, que conta a historia de um homem que vai encontrar o amor num lugar improvável. O diretor, ao terminar o filme, mostrou o trabalho a algumas pessoas e registrou vários pontos de vista sobre o que seria o amor no mundo moderno, num documentário ao mesmo tempo delicado e forte:

Quando você acabar de limpar esse cisco no seu olho, se estiver a fim, deixa aí nos comentários a sua opinião sobre o assunto. E fica a dica pro cineminha da sexta de valentine’s day! Beijas!

 

3 comentários em “O amor não basta

  1. Tharcyla Garcia

    Eu acho que o amor é quando a gente pode ser a gente mesmo sem medo – o tempo todo – perto de alguém, e isso se torna mais confortável do que uma pantufa e chocolate quente num dia frio. Eu vi o filme, achei lindo, achei triste, e é o meu favorito ao Oscar, até agora (não vi Philomena e Nebraska ainda). E eu acho que é justamente isso que ele encontra com a máquina. O conforto, a atenção, a liberdade de poder ser quem é, sem julgamentos.

  2. Natimax

    Sobre os relacionamentos é mais ou menos isso ai mesmo. O amor é uma pequena e importante parte, de vários outros sentimentos e virtudes que mantém um relacionamento. Não porque é único, mas porque é o escolhido. À partir do momento que um dos dois não escolher mais aquela louça, aquela casa, aquele pó já era o trabalho todo.

  3. Patrick Maciel

    Concordo com você. Estou casado há 1 ano e 2 meses e realmente: o amor não basta. É muito, mas MUITO mais além disso, e pode ser resumido no que você disse aqui: “Eu penso que ser feliz conversando, debatendo e viajando sobre o presente, passado e futuro com o outro é a coisa mais tesuda do mundo e é o que nos resta lá na frente”.

    Excelente texto/ponto de vista.

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