Caros leitores, hoje me ocorreu deixar a crônica desinteressada e desbocada de lado e mostrar um lado que talvez vocês nunca tenham visto aqui. Ou, parafraseando a paçoca menor (maior), e dadas as devidas proporções, enfiar um F. Pessoa onde rola um F. Verissimo. Segue! (apita o árbitro!)
–
Já nem sabe desde quando arrastava essa milonga. Estendia-a à sua frente, pra depois seguir por cima dela – um tapete que ia sendo desenrolado sobre um caminho que tanto já lhe dilacerara os pés. Mas se esses mesmos pés, sempre descalços, já não sentiam pedras a lhes rasgar a carne, também já não podiam sentir a terra molhada e a vida nela, tão enfiados estavam no vermelho-sangue do veludo, que dava o tom exato de drama àquele sem-fim de cinza.
Há tanto era um tal, naquele bailar, de rostos que se viravam, olhos que não se olhavam, mãos e corpos que se tocavam e não se sentiam - apenas executavam avanços precisos e passos estáveis, com postura impecável, expressão austera e cabelos muito bem presos no topo da cabeça – que quis desvencilhar-se e lançou-se a dançar sozinha, ainda que apenas para ditar o próprio ritmo. Gostou. Respirou – já sorria.
Mas, um dia, ao contar o próprio tempo, como sempre fazia, surpreendeu-a uma rajada que lhe atirou longe as presilhas e fez esvoaçar os cabelos, numa farra de entrar pelo meio deles e depois pelo vestido, correndo-lhe junto à pele, fazendo o sangue ir mais rápido e mais quente, numas de subir todo à face, enquanto o ar do mundo todo lhe entrava pelas narinas e a fazia descobrir toda a capacidade dos pulmões.
E pôde ouvir, e era ainda longe, alguma coisa que brincava em quase entrar pelos ouvidos, mas era pouca e não se fazia conhecer de vez, apenas insinuava uma batida convidativa e – tão convidativa! – só foi fechar os olhos, abrir o peito e deixar escorregar um dos pés pra fora da falsa proteção – que cobria lascas mas escondia inúmeras e sorrateiras armadilhas – e, ao invés de pedras, pisou em grama e orvalho e sentiu que o orvalho logo cuidou de regar-lhe a alma, além da pele.
Daí pra frente foi uma e foi outra que não já podia prever, pois quando a vida da terra lhe chegou às mãos, sentiu outra na sua – e era só o que esperava o segundo pé, que havia ficado.
E ao abrir os olhos num susto, viu outros, que olhavam de volta. Não só olhavam, mas rasgavam-lhe o casulo da alma, fazendo-a voar e sair do corpo e ir dançar com o vento e os cabelos, onde agora se enroscava outra mão – e outra na cintura, que a conduzia num novo compasso; e uma outra lhe desenhava os traços do rosto; e eram mil as mãos dele e era ele todo enroscado nela, protegendo, guiando, moleque, alegre, leve, numa gafieira malandra e mágica.
E talvez fosse tarde -apesar de cedo- pensou, quando, lá longe, alguém parecia avisar pra pisar naquele chão devagarinho.
Afinal, já flutuavam dois palmos acima dele.

40 comments to “Samba e tango”
O pressentimento estava mais do que certo. Não sei de seus outros textos – fora o blog – mas, realmente, a coisa mais linda e pura que você – atingida em cheio por um tsunami de sentimentos – já escreveu.
Parabéns, flor.
Beijo,
Tharcy
ReplyTweets that mention Substantivolátil » Blog Archive » Samba e tango -- Topsy.com
June 24th, 2010 at 12:18 pm[...] This post was mentioned on Twitter by Mirian Bottan, Mirian Bottan and Natalia Salvato Codo, Flavio Mogadouro. Flavio Mogadouro said: RT @mbottan: Um texto bem diferente no Subs, corre lá! – http://migre.me/ROv9 [...]
Parabéns!
Seu texto está amadurecendo. A dor de quando isso sai em forma de palavras pode enjoar, sim, mas faz parte do seu processo. Tudo tem o seu ritual de passagem.
Continue assim.
Beijão.
ReplyFernando S.
June 24th, 2010 at 12:26 pmBelo texto, confesso que enquanto fazia a leitura do mesmo algumas imagens começaram aurgir na minha mente. Esse texto caíria muito bem em um curta ou propaganda.
Obrigado
ReplyLeitor
June 24th, 2010 at 12:27 pmAinda que você tenha acesso a meu IP, resolvi não usar meu nome ou e-mail pra comentar em anonimato.
Olha, sinceramente, achei o texto um tanto confuso e difícil de ler. Recomecei várias vezes porque me perdia no meio dele.
A única coisa que ficou clara é que você está apaixonada. Não saquei se por algo ou alguém, mas é evidente que está completamente entregue.
Bom, boa sorte, seja lá o que for que esteja acontecendo.
ReplyUm excelente texto tão rico em sentimentos que transparece sobre aquele que lê e qualquer analogia se desfaz deixando vago os pensamentos em lembranças.
ReplyIgor, o último carioca nerd
June 24th, 2010 at 12:38 pmPelo que entendi você ama um argentino.
Replyluiz
June 24th, 2010 at 1:14 pmHahaha Li uma penca de vezes e não consegui entender nada de nada.
Mas pelos comentários o povo gostou e ficou bom, então fica os meus parabéns!
ReplyDiego
June 24th, 2010 at 1:49 pmArgentino?
Quer dizer que agora eles vem aqui e roubam nossas mulheres? E o governo não faz nada? Que absurdo!
Acorda, Lula!!!
Replycomentários engraçados não? rs
pra mim, esse texto simplesmente veio na hora certa!
beijo e parabéns (veja o nome do meu blog rs)
ReplyM.
June 24th, 2010 at 2:12 pmQue linda, tá apaixonada. E aí, vai fugir com ele pra Argentina?
ReplyMuito bacana. Coloca um pouco mais de narrativa. Faz mais desses… bjs…
ReplyRubens
June 24th, 2010 at 3:30 pmMirrian, discordo da introdução … você continua mostrando o mesmo lado .. o lado Mirrian de ver a vida neste seu tempo .. de resto o que posso acrescentar ? Fechar os olhos e pegar uma caroninha … e saber que a vida esta rolando pra frente … parabéns ..
ReplyO mais belo texto que você já postou aqui. Ta escondendo o jogo da gente. Parabens.
ReplyAlisson
June 24th, 2010 at 5:33 pmBelo texto!
Concordo que existe um ar de paixão, talvez carinho, admiração… mas fato é que RACHEI de rir com a dedução do Igor do amor argentino!
Rachei ainda mais com a confirmação, hihi!
Apesar de você morar em SP, arriscaria carioca pelo trecho “gafieira malandra e mágica”
Haha, enfim, sua crônica daria uma crônica!
Parabéns!
ReplyTexto lindo, rebuscado, cheio de figuras de linguagem de tantas e tantas interpretações diferentes (ou será que só eu entendi – e claramente – que você é tango?).
Porque apaixonar-se é isso, uma enxurrada de sentimentos e momentos e toques e cheiros. Parabéns pela capacidade de transformar tudo isso em palavra.
Eu te agradeço por isso.
E gafieira e tango super combinam!
ReplyDiego
June 25th, 2010 at 6:13 pmAgora tem que publicar o texto da Maira que ela disse que te entregou semana passada!
Replyjá eu, vou mais longe…
pra mim essa “muié” aí do texto, morreu, tamanho foi o êxtase…
ReplyMariana
June 30th, 2010 at 9:05 amtexto lindo como sempre! não importa o ‘estilo’.
Vocês estão de parabéns!
PS: tua irmã disse no twitter outro dia que há tempos havia escrito uma crônica pra cá e que tu é que não tinha postado. Disse pra gente cobrar. Tô cobrando! =D
ReplyMeio redundante falar que o texto ficou bom né? Já tão te puxando o saco demais. Mas, ficou fodáximo mesmo. Que que o amor não faz hein?
ReplyComo sempre, nunca me arrependo de voltar aqui. Pode demorar mas sempre encontro ótimos posts.
Parabéns!
ReplyOlá, acabei de conhecer o blog. Li alguns textos antigos, mas este foi sem dúvida o que mais chamou minha atenção. Você escreve muito bem! =) Parabéns!
Reply
Parabéns!!! Seus textos são maravilhosos de ler. Bjs e bom feriado.
ReplySuave, leve e lento como o existir de um personagem sartreano.
ReplyQue jeitinho gostoso de escrever… Bem diferente do meu estilo Beatnik…
Parabéns.
ReplyAdorei o estilo, belíssimo texto. Parabéns, quero ser assim quando eu crescer.
Reply


