Velha Infância

tiny_mirian

Uma vez eu escrevi que o seu cachorro pode ser mais feliz que você. Ao analisar novamente o assunto, concluí que, apesar da boa vida, é um porre não poder falar quando se depende dos outros pra certas coisas. Pensei nisso quando, há alguns dias, esqueci de colocar comida para o meu poodle, que não podia chegar e: “Pô, meu! Tô com fome!”. Fui lembrar só no fim da tarde. Quase mato o bicho.

O problema não é ser humano (quase ficou estúpido isso), e sim ser adulto. Há tempos eu queria dizer algo sobre isso, mas exatamente nesse momento tive um estalo. Talvez por o relógio gritar três e meia da madrugada de uma quarta-feira e eu não encontrar motivo pra dormir - primeira coisa que não existe no mundo colorido de um pirralho: a maldita da insônia. Quando criança, no máximo, eu acordava no meio da noite com sede, ou por causa de um pesadelo. Em ambos os casos, chamava meus pais e, problema devidamente resolvido, voltava a roncar. Vou eu infernizar alguém a essa hora da noite, hoje em dia, pra ver o que me acontece. Da próxima vez, pega leve na cafeína, espertona.

Um outro dia em que me ocorreu tal pensamento foi após uma briga com o respectivo. Relacionamentos de gente grande são tão complexos que cansam a beleza. Tão mais simples quando eu tinha oito ou nove anos e namorar era trocar figurinhas de bala Freegells. Ele não tinha que lembrar os aniversários e fazer algo especial, nem reparar na roupa nova ou corte de cabelo. Ela ainda não tinha neuroses nem TPM.

Pra falar a verdade, eles nem se falavam, tamanha era a vergonha. Logo, não brigavam nem discutiam a relação.

Hoje, não dá mais pra soltar pipa no campinho ou correr descalça na rua, pra não bancar a “pé vermelho”. Meu Super Nintendo jaz em cima do guarda roupa, quebrado, e eu não tenho dinheiro pra comprar um Playstation. Aliás, eu não tenho dinheiro, outro ponto importante. Quando criança, tudo era de grátis - ao menos pra mim. Nada de dor de cabeça com patrão chato, nada de aturar cliente esnobe em troca de independência financeira. Nada de aturar nada: se eu não gostava, falava; se era feio, eu falava; era chato, eu falava; era diferente, idem. Minha mãe conta que certo dia, estávamos na fila do caixa eletrônico, ela me segurando no colo, quando eu aponto o sujeito atrás, quase enfiando o dedo no olho do infeliz: “Olha, mãe! Um japonês!”

O natal tinha um clima diferente, tinha cheiro. Páscoa, idem. Meu aniversário demorava muito mais que um ano pra chegar, e era sempre uma folia. Ninguém mais sabe dar presente, pô. Me dá uma coisa divertida, me dá um Mp3 Player, não um sabonete da Natura. Não me interessa se é de limão ou de banana, é um sabonete. Não me interessa o quanto custou, ainda é um sabonete.

Ir pra praia nas férias era: “Oba! Sorvete, mar, castelinho, sorvete, mar, sorvete, castelinho, sorvete!”. Hoje é: “Céus! Dieta anticelulite JÁ!”. Isso quando você tem dinheiro pra viajar nas férias. Isso quando você tem férias. Ai, que vida injusta.

Mais injusto ainda é me faltar todos os privilégios da infância e me sobrar a estatura. E as bochechas.

Ps. A foto que ilustra o post é minha mesmo, caros leitores, por volta dos 3 anos de idade.

17 Comentários para “Velha Infância”


  1. Experimenta casar e ser chamado de “Seu”/”Dona” Fulano(a) pelo porteiro do seu prédio hehehehe.

    Crescer é legal, o problema é que passa muito rápido :)


  2. hauahuahauh
    É… As bochechas! =)

    Mas enfim, a questão é, crescer sem deixar de ser criança. Que tal tirar um dia do fim de semana pra ficar de bobeira? Correr no meio do mato, brincar de jogar bolinha com o cachorro, sentar de bobeira pra ver desenho animado… As vezes essas coisas simples, mesmo que durem pouco tempo, são mais do que suficiente pra nos tirar do stress do cotidiano de um adulto e nos fazer lembrar da infancia. Eu também sinto saudades dos meus tempos de moleque, ralar o joelho andando de skate, pular na cama faze-la tremer testando seus limites. Mas não é por isso que deixo de me divertir e de dedicar meu tempo a “coisa alguma”.
    O negócio é levar a vida como um desenho animado. Trabalhe, mas nao esqueca de seus amigos de infancia Timao e Pumba, as vezes “Os seus problemas, você deve esquecer. Isso é viver, é aprender… Hakuna Matata!” =)


  3. Fred, MUITO BOM! Hakuna Matata foi MUITO bem lembrado! UAHUahuAHUahuAH

    Abraço!

  4. Carol

    Mirannnn …

    Add eu no talk pra gente se falar de vez em qdo … acho q sai meu email ai pra vc nesse comentário … rsrs
    Beijos ‘da lenda viva’ … auahuahauahuahauhauhauha


  5. Hahahaha… Ri muito lendo esse texto :D

    Quando era um pirralho, lembro de ter apontado o dedo para alguém também, mas ao invés de um japonês, era um anão. E o “baixinho” ficou bravo, hehehe…

    Até mais!


  6. Oi florzinha, adorei seu bloguinho.
    Me identifiquei com algumas histórias e com essa então rs crescer realmente muda a nossa visão do mundo e a visão q ele tem de nós, nos coloca um montão de peso nas costas e nos “rebola” na realidade com força total.

    PS: Te achei na luz de luma(http://luzdeluma.blogspot.com) num especial do dia do blog. Por termos quase a mesma idade(tenho 19) e por almejarmos a mesma profissão( jornalista) não deu pra não conferir e como já disse, gostei do q vi.
    Bjocas


  7. Você falando dessa saudade aos 20? Imagine aos meus 44…


  8. [...] & Família Além da Imaginação - Blog do João Bosco TV para as crianças - Uebbemais Velha Infância - [...]


  9. Ainda bem que eu não sou “velho” LoL

    Nada que uma sessão de Tom & Jerry com Pipoca doce e guaraná não resolva


  10. TERAPIA receitada por uma psicóloga:

    Coloque uma foto sua, quando criança em algum lugar que você veja todos os dias (exemplo: espelho, agenda, monitor) e que seja uma foto que você goste da sua infância, olhe todos os dias para a foto e se pergunte: O QUE VOU FAZER HOJE PARA FAZER FELIZ A CRIANÇA DENTRO DE MIM?

    Escolha uma estripulia qualquer e faça sem preconceito!

    Boas sugestões:
    Ver Desenho Animado
    Jogar Videogame
    Montar quebra-cabeças

    Más Sugestões:
    Colocar um chiclete na cadeira do seu chefe
    Furar o pneu daquele idiota
    Passar trotes telefônicos pros seus amigos

    PS: A terapia é séria(não riam), foi “receitada” num workshop de neurolingüística em que participei.

    []s

    Vaz


  11. Ainda bem que sentimos saudades… Isso mostra o quanto a nossa infância foi boa :-)

    Vocês lembram de algum desses ?
    http://robertoalcantara.blogspot.com/2007/05/desenhos-animados-e-sries-do-meu-tempo.html

    E NÃO EXISTE ninguém dos anos 80 que não tenha visto esse na seção da tarde:
    http://robertoalcantara.blogspot.com/2007/05/e-desse-quem-lembra.html

    Bom demais ;) Ainda vou fazer uma coletânea de verdade, os melhores e piores desenhos animados e propagandas do século passado.

    Até!


  12. Haha, muito bom o texto…

    Sabe minhas insônias me renderam ótimos frutos, veja alguns no Blog do Sérgio: http://sergioflima.pro.br/blog/blogs/index.php/sergio_blog/2007/02/21/marco_gomes_o_boo_box_man_ataca_novament

    Porque vc não tenta continuar escrevendo quando não conseguir dormir? Pode ser que saiam coisas muito legais (esse texto que vc postou aqui já é um belíssimo começo)


  13. só digo uma coisa: PPP
    Poder ao
    Povo
    Pequeno

    (eu não sou lá muito alto)


  14. Nossa Mirian, falou por todos nós!!!! :D Excelente texto!
    Mas taí, como disseram aí, o segredo é não deixar morrer a criança dentro de nós…eu me permito muito mulacagem sim… videogame??? jogo muuiitoooo… ahauahaua
    Ando descalça e vez ou outra vou me fartar de bobagens que eu adorava quando criança…

    Que coisinha mais fofa essa foto culuiiziii!!!!
    Pelo jeito, tu já devia ser linda até mesmo quando era só um embrião ahauahauahauaahaua
    Beijos linda e parabéns por ser tão inteligente quanto é bonita!!!


  15. :-(
    Me deu uma saudade da minha infância… ser adulto não é mesmo mole não.


  16. Também estou nos vinte com a Nostalgia à solta.
    Adorei a crítica aos presentes. :D
    Cuidados pessoais, a gente se vira, mas são os presentes divertidos que causam as reais surpresas.

    Me fez lembrar de algo mais que se perdeu com os anos: as festas de aniversário. Antes era O evento. agora é uma baladinha qualquer com os amigos, muitos esquecem o motivo pelo qual estão lá.
    A velinha nunca foi tão simbólica.


  17. [...] & Família Além da Imaginação - Blog do João Bosco TV para as crianças - Uebbemais Velha Infância - [...]

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