Eu tenho um sério problema quanto a lidar com dinheiro: eu não sei fazer isso. Tudo culpa dessa sociedade capitalista d’uma figa, que sempre me ensinou que dinheiro na mão é vendaval, é vendaval, na vida de um sonhador, de um sonhador. Só que no meu caso, tá mais pra Katrina mesmo.
Quando criança, absolutamente toda e qualquer moeda que eu ganhasse ou (cof, cof) encontrasse, era gasta com gibis. Eu adorava gibis, nunca fui de brincar com bonecas. Acabei com uma coleção gigantesca da Turma da Mônica, incluindo edição especial de trinta anos. Mais pra frente, ainda na tática da moeda perdida, entupi meu guarda-roupas com revistas dos Backstreet Boys. Revistinhas, biografias, álbum de figurinhas auto-colantes. Comprava a revista inteira pra destacar UMA maldita página. E olha, era deprimente. A seguir, um trecho de um dos meus diários por volta dos 10 anos de idade:
“Ontem o meu pai deu 10 reais pra mim e 10 reais pra Maira (minha irmã)! Nós fomos até a banca e compramos 4 revistas. Sobraram 6 reais e nós demos 4 para a minha mãe, pra ela comprar um diário novo pra cada uma. E agora ficamos com 4 reais, que provavelmente serão gastos em revistas!”
Céus. Sem comentários.
Enfim, isso prova que desde pequena eu não sei segurar o dinheiro. Quando eu comecei a trabalhar, e me vi com TODA aquela grana (600 pilas) na mão, aí meus queridos, foi o começo do fim. Eu gastava cada centavo antes do próximo vale/pagamento. Poder tomar um sorvete, ou comer o que eu quisesse sem ter que pedir dinheiro pros meus pais era o máximo. Engordei feito uma porca nessa época.
De qualquer forma, gastar todo o seu dinheiro é um problema seu, foi você quem trabalhou por ele, nada mais justo. Mas chegará o dia em que você verá AQUELA sandália na vitrine, e ao enfiar a mão na carteira, um morcego vai te morder por atrapalhar o sono dele naquela caverna escura e vazia. E o que fazer quando você quer comprar, mas o seu dinheiro já foi, e o próximo pagamento está longe? Tchan tchan tchan tchaaaaan!
Você abre uma conta no banco pra ter um talão de cheques e um cartão de crédito i-guai-zi-nhos aos da sua mãe! Aí você pode comprar sem ter o dinheiro, é só pagar depois!
…
Logo você entra no limite do cheque especial. Quando isso acontecer, dificilmente você conseguirá sair, e acabará pedindo pra aumentá-lo. Depois de muito tempo pagando juros absurdos, você faz um empréstimo do banco pra cobrir o limite, pois os juros do empréstimo são menores. Em vão, pois um ou dois meses depois, você já está usando o dito cujo novamente E pagando o empréstimo ao mesmo tempo. Os juros do cheque especial parecem prestações eternas daquela sandália que você não comprou.
Pode não ter acontecido com você, mas aconteceu comigo, uma consumista descabeçada. Acontece que, como o meu pai tem uma empresa, eu bancava a espertona e tratava os meus assuntos pessoais com o gerente de pessoa jurídica que cuida das coisas dele, assim não tinha que ficar duas horas na fila, e o cara sempre resolvia TODOS os meus pepinos. Acontece que ele se foi. Não morreu, não. O desgraçado foi pra outra agência e me abandonou. Logo no primeiro problema eu me estrepei. Foi então que eu percebi que o tratamento VIP tinha acabado, e tomei uma difícil decisão: fechar a conta.
Ver o meu cartãozinho lindo ser destruído foi uma cena triste. Ficar uma hora e meia na fila também foi. Não tão triste quanto ver um cachorro ser atropelado ontem (provavelmente in memoriam, essa), mas foi. Sem contar que eu tive que cobrir o limite, pagar o cartão, o empréstimo e etc. Tudo de uma vez. Pra isso emprestei do Mobilon, que não cobra juros.
Agora é só esperar o casamento, e quando os credores dele forem também meus, cancelar a minha dívida comigo mesma.