TPMaira (sim, a gente curte trocadilho com nome, foda-se)

Pra mim, há TPMs e TPMs. Ainda assim, é um troço difícil de explicar ou entender como acontece (e se eu acho complicado sendo mulher, coitados dos homens).

Só sei que eu, por exemplo, nunca fui de ficar puta da vida, ficava sentimental.
Chorava por tudo. Mesmo. Chorava porque o chuveiro desceu um jato de água fria, porque tropecei na calçada, porque derrubei meu pão com manteiga no chão e estava atrasada pro trabalho. Assim, sem explicação.
É estranho, mas é verdade. Tudo parece a gota d’água das coisas ruins que acontecem com a gente. Sério, muito forte.

No começo desse ano, fui na ginecologista que me conhece há 10 anos, então sempre pergunta como estou me sentindo, o que estou fazendo da vida, me pergunta sobre minha mãe, minha irmã e a gente conversa um pouquinho durante a consulta.

Só que dessa vez, honestamente, não sei bem o que falei pra ela (porque, na minha cabeça, eu estava só atualizando sobre os meses que passaram), só sei que ela disse “… vou trocar sua pílula por uma que controla um pouquinho mais a TPM”.

E foi assim que começou o desastre.

Ao que me parece, eu nunca tinha me dado conta dos efeitos da TPM em mim e tomar a nova pílula foi uma entrada para o paraíso. Me senti super bem, tranquila, calma e nem lembrava que estava nessa semana maldita.

Só que mês passado, quando dois vagabundos covardes de merda roubaram minha mochila, levaram com ela minha última cartela de pílulas-ingresso-para-o-paraíso.

E eu tô em outro país. Não existe a merda da pílula aqui. E a minha cartelinha foi gentilmente jogada no lixo por um filho da puta que não precisava dela.

Eu tinha que esperar 1 mês e meio até minha irmã me trazer mais cartelas e como não é bem assim que funciona isso, troquei por uma outra pílula. E essa, me mostrou o lado negro da força.

Passei a semana com ódio de tudo. Caiu uma moeda do meu bolso, eu abaixei, peguei e taquei ela longe dizendo “cai então, filha da puta!”.

Cheguei em casa e um dos meninos (que não trabalha) estava em plena sexta-feira, 14h, descabelado e de pijama e eu me tranquei no quarto com raiva por ele não fazer nada o dia inteiro (como se eu tivesse algo a ver com isso).

Li notícias sobre o Feliciano e fiquei com raiva dele. Depois fiquei com raiva do Papa. Depois fiquei com raiva de todo e qualquer fanático, até de fanatismo-não-religioso.

Vi uns 15 postando um gif com um gordinho dormindo e a legenda “melhor gif de gordo” e, quando fui ver, era mais uma dessas brincadeiras juvenis que se faz com os amigos que estão dormindo. Era até legal, mas a minha pergunta é: por que é tão relevante dizer que é o melhor gif com um gordo? O que que o cu tem a ver com a calça?? Daí fiquei com raiva da galera que defende a barriga positiva, mas zoa os gordos.

E quando eu achava que nada mais podia me tirar do sério, um dos meninos me ligou pra avisar que vão vir conhecer o apartamento, já que o contrato acaba mês que vem e a gente não vai renovar.

Quer vir conhecer o apê enquanto eu ainda tô pagando aluguel dele? Pois que venha. Mas eu já aviso que agorinha mesmo estou indo dormir, porque na noite passada não consegui ligar a merda do aquecedor e quase morri de frio e, pra foder de vez, sonhei com o Nicholas Cage, então foi uma noite de merda. Portanto, se eu estiver dormindo e quiserem entrar no meu quarto, vou recebê-los com a cara do Jack Nicholson em “O Iluminado”. E nem pensem em abrir a porta do meu guarda-roupa pra vê-lo por dentro, porque eu seguramente vou mandar todo mundo tomar no cu.

Boa noite.

(Nota da irmã mais velha, que edita e posta os textos da menor: achei que havia um parágrafo que ofendia uma pessoa e, delicadamente, sugeri que a gente cortasse, pois a pessoa podia se chatear. A resposta foi: “ela que se foda”. Ainda bem que eu edito.)

as aventuras de gambiaira

sit

still a seat, right? (essa foto poderia ser de casa, mas é do google mesmo)

Em São Paulo, morei só com mulheres durante 4 anos.

O chuveiro queimava, a gente tomava banho no banheiro de empregada. Queimava o chuveiro do banheiro da empregada, a gente tomava banho frio por 1 mês até alguém chamar o zelador, porque mulher tem medo de trocar resistência (meu pai me criou dizendo que chuveiro 220 mata. Eu não tava a fim de ser a responsável por matar alguém torrado).
A luz da sala queimava, a gente usava a do corredor.
A torneira da cozinha zuou, a gente lavava louça abrindo e fechando o registro toda hora. O acabamento do registro emperrou, a gente tirou o acabamento e fechava com um alicate. O alicate zuou o parafuso do registro, a gente chamou o porteiro pra arrumar a pia, o registro e o acabamento, porque já não dava mais.
Era um ciclo. Uma coisa levava a outra que levava a outra e os problemas da casa nunca tinham fim.

Eu arrumei tomadas por 1 mês. Caia o acabamento da tomada, zuava a tomada; o ralo do banheiro saía toda hora; tinha um buraquinho na pia da cozinha que sempre parava sujeira; o assento da cadeira caiu.

Aí eu descobri a cola de silicone.

Colei as tomadas, preenchi o buraquinho da pia, colei o assento da cadeira e colei o ralo, o que foi uma puta estupidez, porque com 4 meninas em casa, era ÓBVIO que o ralo ia entupir em breve. Tive que descolar pra desentupir. Depois colei de novo, porque tava cansada de enfiar o pé no ralo.

E assim a gente ia levando. A cada hora aparecia um problema novo. Ora era a televisão que só funcionava em verde e rosa e todo programa parecia desfile da Mangueira, ora eram as formigas invadindo o apartamento e comendo um fucking pacote de pão inteiro, dentro do armário. Elas comiam mortadela, queijo, pizza, bolo e frutas, também. Ah, e tinha também os cupins, que migravam pra porta do banheiro ou pro lustre da sala, dependendo da época do ano. Eu total me acostumei a limpar morros de madeira que se formavam no banheiro e a respeitar o espaço dos cupins. Já eram da família.
Eu colocava quadros na parede uma vez por semana: os pregos caiam, eu chegava em casa e estava tudo no chão. Colocava de novo. Caía. Colocava de novo. Caía. O retrato do Marcos Pontes (o mascote da república), que ficava perto da porta, caía a cada vez que alguém fechava a porta. Parecia um episódio de Chaves. (até que eu prendi cada quadro de 40 centímetros com 3 pregos. Se caísse um, tinham outros dois. Problema resolvido.)

Só sei que quando eu vim morar em Buenos Aires e encontrei o apê dos meninos equatorianos (pra quem achou que era zoeira, não era), achei que não teria mais problema com isso. Afinal, viver com 3 homens deveria te dar a vantagem de nunca mais vai ter que arrumar nada na sua vida.

No meu primeiro dia aqui, a merda da minha janela emperrou. Como ainda não tinha nenhuma intimidade com eles, dormi uma semana com a janela aberta. Daí começou a ficar meio tenso acordar com o sol na cara e resolvi pedir uma chave de fenda. Na minha cabeça era óbvio que havia uma na casa, eu é que não tinha encontrado. TRÊS homens. Um deve ter um kit de ferramentas.

Só que não. Arrumei a janela com uma faca de cozinha.

Foi questão de 2 dias pra maçaneta da porta cair. E eu deixei, esperando que algum dos meninos arrumasse a porta.
3 dias…5… 1 semana… 2 semanas… nada. Qual foi minha lógica? Usar a faca da cozinha de novo e arrumar de uma vez. A maçaneta era velha e o parafuso estava enferrujado. Quebrei a merda da faca da cozinha e não arrumei nada.
Resolvi então deixar um pouco mais e ver se alguém arrumava. Nada.

Sussa, os meninos se acostumaram a erguer e abaixar a maçaneta toda santa vez que abrem a porta. Fuéin.

Foi aí que eu pedi uma chave de fenda emprestada pra uma amiga.
Estava eu, voltando num sábado a noite com a minha mochila com a chave de fenda quando… me roubam a porra da mochila. Isso já faz 3 semanas. A maçaneta tá quebrada e eu tô devendo uma chave de fenda. E preciso comprar uma mochila.

O botão do aquecedor do meu quarto funciona em código morse. Você tem que descobrir a senha pra acender. TÁ – TÁTÁTÁ – TÁTÁ. Os botões do aquecedor do chuveiro não param sozinhos, então tem um pedaço de papel cartão dobrado permanente lá, que a gente encaixa no botão pra ele ficar apertado. Quando a gente esquece a janela aberta e bate vento, o papel voa e o aquecedor desliga. Então tem que lembrar sempre de fechar a janela antes de tomar banho, pra não tomar banho frio.

Quando alguém abre a água quente na cozinha, o chuveiro fica frio.
No lavabo, a descarga deu merda e não para nunca mais de sair água e fazer barulho de encanamento. Caiu uma pecinha minúscula que fazia toda essa função. Por sorte, a pecinha tem o exato tamanho de 3 moedas de 10 centavos. Então toda vez que vai dar descarga, a gente tira as 3 moedas, dá descarga e coloca as 3 moedas de volta.
Nosso congelador não pode ser descongelado, porque em alguma festa, um dos meninos tentou fazer gelo pra galera raspando o gelo do congelador e acabou furando tudo.

A porta do armário caiu há 2 meses. Mas ela ficou linda atrás da porta da cozinha e o armário ficou muito mais prático sem porta. Economizo cerca de 3 segundos do meu dia, todo dia pela manhã. O que é ótimo, porque isso se desconta do tempo que eu uso pra erguer e abaixar a maçaneta da porta.

E é isso aí… aparentemente, quem atrai o empurrando com a barriga style sou eu. Mas estou sofrendo? Não.

Eles estao perdoados, porque no dia do roubo da mochila, um foi me buscar na delegacia, o outro me trouxe uma cerveja, xingaram o ladrao comigo, 2 deles me emprestaram celulares que não usavam mais e até saíram pra balada comigo pra eu não ficar em casa pensando no roubo.

Tudo bem que a noite terminou comigo bêbada, dançando salsa, derrubando batata frita e hamburguer no carro do amigo de um deles e fernet com coca na minha roupa. E devendo um pote novo pra cozinha.

No outro dia, pós-porre, o Martin chegou pra mim com uma tampa de pote toda derretida e disse “Eu nao entendi bem mas… por que você fez isso com a tampa?”

Teoricamente, eu cheguei e fui esquentar um pão na panela. Coloquei a tampa no fundo da panela e quando estava derretida, joguei o pão em cima. Ele me disse: “Eu não entendi, mas sei lá, cada um com a sua cultura. Vai que no Brasil se come pão com plástico derretido, né?”

Eu comi pão com tampa derretida. Zuei a panela, o pão e meu estômago, porque no outro dia vomitei até as tripas.
Puramente culpa da tampa, óbvio. Nada a ver com a tequila.

A Missão Roomate (ou um recado para meus pais)

E, um dia, eu acordei em Buenos Aires, buscando apartamento, me surpreendendo com os preços, tentando alugar um lugar sem ter um trabalho no país, sem ter comprovante de pagamento, sem ter garantia proprietária, sem ter visto permanente, fazendo malabarismo pra explicar que tudo isso é porque cheguei faz pouco tempo, mas que essa semana mesmo já tenho o visto, que tenho o dinheiro pro aluguel pelo trabalho que eu tinha no Brasil e que eu JURO, eu JURO que VOU PAGAR.

Em vão. O máximo que eu consegui foi ser mal-tratada pelo cara da imobiliária, que duvidou da minha nacionalidade e disse “É, não sei.. seu sotaque é bem de italiana.” – what? (No mínimo engraçado, visto que o taxista duvidou também, mas disse que eu tinha sotaque de americana. Sou uma Ítalo-Norte-Americana com quadril de parideira.)

Tudo bem que já passei algumas vezes pelo “Ahh! Você é a brasileira? Queem diria!” porque é, eu não sou morena, alta, bonita e sensual. Mas acho que me mandar um ~fala uma frase em português então, ô brasileira!~ era desnecessário.

O Wellington, simpático corretor da imobiliária onde aluguei meu apê em São Paulo, me defendia do zelador que entrava no meu apartamento sem permissão; desentupiu o ralo do apartamento com 4 meninas de cabelo comprido (eca eca eca!); trocava lâmpadas; arrumou o registro do banheiro de visitas e mandou um pedreiro trocar o sanitário do banheiro de empregadas.
Ele me encontrava na rua e perguntava da minha faculdade, dizia que tinha a mesma idade da filha dele e me cumprimentava com abraço.

O cara da imobiliária daqui me disse “Nesse país, você não é ninguém.”

E aí eu saí de lá chorando.

É isso. Descobri que eu sou uma bunda mole, que aguenta desaforo, pede desculpas e sai chorando. (ou, aparentemente, quando você tá começando sua vida adulta, você volta a ter 12.)

Por fim, como é muito difícil alugar sozinha porque pedem a maldita da garantia proprietária na Capital (tipo, é, eu sou estrangeira, tô vindo pro seu país agora, tenho uma casa aqui, mas quero alugar um apartamento JUST FOR THE LOLS…), resolvi buscar apartamento dividido com outras pessoas.

Acontece, que nesse mundão existem muitas pessoas bizarras interessantes… então estava meio difícil escolher o companheiro de apartamento ideal. Estava entre:

– Fabian, o cara que, como foto do anúncio, colocou uma 3×4 com cara de maníaco num fundo vermelho;
– Daniel “Activo. Muy profesional.” – protegendo meu cu em 3…2…
– Viviana, cujo apartamento é, segundo o anúncio, pra dividir com ela e 3 gatos. Podemos ver a simpatia da pessoa com a frase “Se você é alérgico ou não gosta de gatos, este anúncio não é pra você.”
– Rafael, o cara que deve ter vivido com alguém muito porco pra colocar na descrição “Procuro alguém descomplicado e liimmmpoooooo……..”
– Gabriel, que procura “Persona que necesite habitación y se comunique. No importa sexo…” e me deixou bem confusa… Não importa meu sexo ou não importa se eu for morar com você e não pagar com o corpo, só com dinheiro mesmo, contanto que eu converse com você?
– EL TIGRE. – Dispensa comentários. RAWR!

Ou com o…:

– Loiro Grisalho, o senhor de 55 anos que colocou na descrição que deveria ser sobre o apê:
“Sou alto, 1.78m, magro, ~buena presencia~, educado, responsável e de bom trato, acompanhado de uma foto dele com a mão nas cadeiras, encostado numa varanda, armado de seu olhar 43.

Minha impressão sobre esse site de companheiros pra dividir apê? Deveriam dar suporte emocional pras pessoas. Sério. Eu fiquei extremamente chateada quando entrei em contato com alguém e a pessoa leu e ignorou minha mensagem. Fico pensando tipo.. o que eu tenho de errado pra você? Me fala, cara, talvez a gente possa se entender. Não me ignora… ME AME!

Tipo o Eduardo, que não me aceitou só porque quer compartir o apartamento com alguém que seja homossexual. Pensei até em pedir carta de recomendação pras amigas bees.

Mas aí apareceu o Sebastian, que divide apê com o Martin e o José. São equatorianos, vivem aqui há alguns anos, se conhecem desde… muito tempo. Têm entre 23 e 26 anos. O Sebastian e o Martin tem uma banda de Salsa, o José faz psicologia. São três caras bem legais, o apê é graaaande, tem 4 quartos, cozinha, banheiro social e banheiro de visita e a sala tem até uma sacadinha! O quarto disponível tem uma janela que vai até o chão, o apê já tem tudo que se precisa numa casa, todos os móveis e, a única coisa em discussão é se vão ou não juntar grana pra comprar uma tábua gigante e colocar em cima da mesa que está na sala, pra fazer uma enorme mesa de ping-pong.

Assim que, na verdade, esse texto foi todo um pretexto pra falar que…

Pai, mãe… Estou indo morar com 3 equatorianos em Buenos Aires. Eles são bem legais, eu juro. Não surtem. Mudo semana que vem e meu quarto é lindo. A Tatá apoiou a ideia. Amo vocês.

Buenos Aires, Malos Xavecos

Dois meses em Buenos Aires e AGORA eu me sinto a vontade pra começar a falar sobre como é estar aqui. E começamos pela parte que é mais interessante: baladas, festas e paqueras. (ui)

Vou ser bem sincera: eu não achei que teria tanta mudança cultural… E o problema está justamente nisso. De tanto achar que não tem mudança cultural, tá difícil entendê-las.

Aí acontecem coisas como andam acontecendo nos bares, onde as minhas cantadas vão de mal a pior.

Primeiramente, gostaria muito, MUITO de entender por que DIABOS os argentinos pedem o telefone igual, sei lá, um monte de carpa pedindo migalha de pão em rio raso. Sério.

Os caras chegam, falam 5 minutos comigo na balada e pedem o telefone.

Mas isso não é o pior, o pior é que eu já sei a sequência de frase que vem, manja?
– Ahhh então você é do Brasil? FALA BRASILEIRO? [não sei pq eles acham que no Brasil a gente fala brasileiro, mas okay, você é gato, eu deixo ser um pouquinho tapado.]

Na sequência, vem a frase:
– Posso ser seu guia! Buenos Aires é beeem grande, certamente tem lugares que você não conhece.
E, por fim:
– Me passa seu telefone! Aí a gente combina esse tour ou sai pra tomar um café.

Então, eu comecei a achar que os argentinos vão pra balada pra catalogar telefone. Devem marcar meu telefone como “Maira A Brasileira Vem Sambar Aqui Ó”.

Respondendo na mesma moeda, eu comecei a catalogar os caras.
So far, temos essa agenda:

“Jennifer Aniston”, querido argentino piegas que me manda foto no Whatsapp abraçando um filhote de cachorro e pedindo pra eu ~dar um nome~ pro ~bebê~, que me manda mensagem de bom dia e que diz amar filmes românticos.

“Sidney Magal”, o moço bonito e de olhar sedutor, que nasceu num povoado de 5 mil pessoas e mudou pra Buenos Aires há alguns anos mas vive uma vida cigana e me chamou pra um café 6 da manhã depois da balada. E eu fui, porque topei achando que era blefe.

“Sem Pegada”, o lindo tudibom com profissão exótica, por assim dizer, que luta e dança tango mas que é tão delicado que chego a pensar que esse Ken é Barbie.

“No Paul”, o cara que eu puxei conversa perguntando o que achava do presidente do Uruguay e que, ainda assim, me manda mensagens convidando pra jantar, sair, dançar, tomar café, passear, maaas que não tem facebook, logo, não tem fotografia na internet e que me deixa com uma leve lembrança de que ele não parecia o Paul McCartney, o que reduz a minha atração por ele.

“Ariel-por-que-não?”, aaaah o Ariel. Rapaz rápido, lindo, que só me disse “Anota meu telefone aí e me liga pra gente sair pra tomar um café.” e foi embora. (se eu tomasse todos os cafés que esses argentinos me convidam, teria insônia por 5 anos). Eu nem conversei com ele, mas era bonito e foi direto. Marquei como “Por que não?” porque vai que bate a solidão, né?

“O Mecânico do Desperate Housewives”, mecânico lindo, louro, sarado e sedutor cujo cinto da calça jeans abriu enquanto dançava cumbia comigo e ficou todo sem graça e me disse “Espero que alguma vez isso tenha acontecido com você no Brasil”. Tadinho. Felizmente pra mim e infelizmente pra ele, nunca tinha acontecido.

E, por fim, temos o:
“Não Responder”, o maluco que pegou meu telefone com a amiga boliviana bacana que estava passando uma noite em Buenos Aires e ia pra São Paulo no outro dia trabalhar como tatuadora na Galeria do Rock porque estava fugindo do marido louco que batia nela. Ou seja…

Observação: todos dançam cumbia, aparentemente.
Observação 2: seguindo a lógica, fui a um bar de cumbia me enturmar e me passaram a mão na bunda.
Observação 3: se eu fosse homem, terminaria a observação anterior como a música dos Mamonas mesmo. Sim, eu sei que vocês pensaram nisso.

As pingas e os tombos

Há muito tempo as pessoas me dizem que eu tenho muita sorte. E eu sempre concordei com elas, rindo dos supostos acasos que me levavam exatamente pra onde eu queria ir.

Mas deixa eu contar uma coisa pra vocês: sorte não existe. O que existe é você fixar a sua cabeça de uma forma muito forte num sonho/objetivo e dançar quando a música tocar. E aí vem o maior segredo: mesmo que você não faça a mínima ideia de como se dança.

Em 2006, um namorado me sugeriu fazer um blog. EU escrevi e escrevi, li outros blogs e fui me conectando com pessoas, conhecendo um novo universo, onde fiz amigos que nunca teria feito se não saísse do meu mundinho do interior.

Em 2007, um desses amigos me arrumou o msn do chefe dele numa agência de mídias sociais, em São Paulo. EU falei com o chefe e ele me pediu pra fazer uma estratégia publicitária e apresentá-la numa entrevista. EU estudei um bagulho que nunca tinha visto por duas semanas, montei a tal estratégia, entrei num ônibus pra sampa e apresentei a porra da estratégia gaguejando e sem saber o que caralhos eu estava fazendo ali. Mas deu certo.

Um outro amigo desse novo universo me arrumou um lugar numa república mista e EU juntei minhas tralhas e fui morar numa cidade mil vezes maior que a minha, num quarto mil vezes menor que o meu, ganhando quase nada. Almocei e jantei Cup Noodles uns quatro meses, nem posso mais ver na frente.

Durante um ano, a falta de experiência, de dinheiro e de certeza me acompanharam e trouxeram de volta a bulimia, antiga companheira da adolescência. Não sobrava dinheiro pra ver meus pais, a 150 quilômetros. Em um momento, percebi que estava tão desestabilizada que resolvi que era hora de parar, de voltar. Abandonei tudo e voltei pra minha casa no interior numa quarta-feira. Dei cem passos pra trás, que acabaram se revelando mil pra frente. Não é um erro recuar quando o avanço é um desastre iminente.

Quando achei que era hora, avisei pro mundo que queria voltar. Voltei pedindo um salário maior do que eu achava que merecia no momento, mas enfiando na cabeça que aprenderia tudo que precisasse pra merecer depois. E assim foi.

Morei num pensionato, em outro quartinho, um pouco maior que o primeiro. Meu cunhado chamava de minha “cela”. Mas aí eu já não precisava mais viver de Cup Noodles.

Sobre os degraus que sempre me disseram não passarem de oportunismo: eu usei todas as minhas armas. Eu escrevia pra quem queria ler e posava pra fotos pra quem queria ver, por que não? Eu vivo num mundo onde a paranóia da estética perfeita me fez vomitar comida por quase 15 anos e me achei suficientemente dona do meu corpo para mostrá-lo, quando me pareceu conveniente.

Meus pais? Repudiaram. Mas a foto na capa chegou em algum lugar, onde alguém quis conhecer a cabeça da dona dos peitos. E, mais uma vez, de alguma forma, deu certo.

Pra quem sempre me pergunta “como???”, aí está: eu simplesmente FIZ. Sei lá, fiz tudo que a vida me colocou no caminho. Com medo, todas as vezes, mas FIZ. Fiz um blog, expus meus sentimentos, minhas fraquezas, fiz contatos, fiz entrevistas pra coisas que eu não sabia fazer, fiz o trabalho que me mandaram sem saber fazer, fiz fotos sem me achar digna da publicação delas, fiz teste de tv sem saber fazer tv e acabein indo pra outro país pra fazer tv REALMENTE sem saber. Se deu errado, deu em nada, ao menos sempre deu em lição. Pra da próxima vez fazer melhor. O importante era continuar fazendo.

E o tempo todo rolavam críticas. E eu chorava, o dinheiro continuava não dando, e eu me enrolei com o cartão, e meu nome foi pro serasa, e minha família não confiavam mais em mim, achavam que eu tinha que desistir, prestar um concurso no interior, formar uma família e ficar por lá mesmo, mas eu não queria, não podia.

Eu topei participar de um game show e perdi 100 mil reais em rede nacional. Eu sabia que todo mundo podia me achar burra. Falaram que fiquei gorda na tv, a bulímica se revoltou dentro de mim.

Enfim.. gravei minha primeira matéria para A Liga sem saber o que caralhos eu estava fazendo lá. Dá pra ver na minha cara, na minha postura, na falta de jeito. Mas se alguém acreditava que eu devia estar lá, quem era eu pra não acreditar?

Então eu tenho dois recados pra quem ainda me acompanha nessa lindeza de blog que começou tudo:

1- Muito obrigada a todos vocês, sem vocês nada disso seria realidade. Portanto, vocês tem o dever de me assistir e me criticar! auahuahau

2- Você quer algo? FAÇA. Ninguém é obrigado a acreditar em você se você não mostrar que acredita em si mesmo.

Mesmo que você tenha que fingir pra si mesmo, mentir pro espelho. Faça. Depois me conta. 🙂

Sobre Magritte, Tarkovsky e o prazer em errar

E mais uma vez eu fui conduzida pela vida para um caminho completamente novo e maluco. Dessa vez, mais madura e consciente, eu tenho noção do tamanho julgamento que me aguarda e que outrora me apavoraria.

Só que agora algo muito louco acontece: eu não estou conseguindo me preocupar com as impressões de quem assiste de longe essa nova realidade, porque estou muito ocupada me julgando e me sentindo eufórica cada vez que descubro um defeito a ser corrigido.

Eu estou – e é isso mesmo – apaixonada pelos meus erros e deficiências.

Esses dias vi um filme que me estapeou com a melhor definição dessa porra toda que eu disse aí:

“Deixe tudo o que foi planejado virar realidade. Deixe-os acreditar. E deixe que eles riam  de suas paixões. Porque o que eles chamam de paixão, na verdade não é uma energia emocional, mas apenas o atrito entre as suas almas e o mundo exterior. E o mais importante, deixe-os acreditarem em si mesmos. deixe-os serem indefesos como crianças, porque a fraqueza é uma grande coisa e força não é nada. Quando um homem acaba de nascer, ele é fraco e flexível. Quando ele morre, é duro e insensível. Quando uma árvore cresce, é tenra e flexível. Mas quando é seca e dura, ela morre. Dureza e força são companheiros da morte. Flexibilidade e fraqueza são expressões de frescor do ser.” (Stalker – Andrei Tarkovsky, 1979)

Depois de uma certa idade, é muito mais comum (e CÔMODO) olhar pra um novo desafio com pânico do que enxergá-lo com a empolgação de uma criança que compra material escolar novo e chega no primeiro dia de aula, com aquele frio na barriga, mas querendo que tudo aconteça logo. Querendo conhecer os professores, os futuros amigos, querendo abrir o caderno e usar as canetas novas, querendo absorver a matéria e tirar um dez na prova final.

Meu caderno e minhas canetas são minha voz e minha imagem, minha prova final é sentar no sofá e ver na tela da tv algo do qual eu mesma me orgulhe.

Essa falta de medo me lembra um outro maluco que anda pelos becos das viagens existenciais comigo há algum tempo: o mano Magritte, que um dia falou da “ruptura com o conjunto de absurdos costumes mentais que geralmente ocupam o lugar de um sentimento autêntico da existência”

Meu sentimento autêntico da existência é viver o sentimento de criança no primeiro dia de aula. O conjunto de costumes absurdos é eu foder com um processo de aprendizagem, concentrando energia no que os críticos de sofá vão falar de mim.

Ainda no role Magritteano, cito que “a imbecilidade consiste em crer que compreendemos o que não compreendemos”, uma versão mais violenta do só sei que nada sei. De qualquer forma, ambos vão direto e reto no cerne do meu momento. Porque é nada sabendo que eu vou aparecer na casa de vocês toda terça, às 22h30, no programa A Liga, na Band, falando umas abobrinhas, perguntando, chorando e vivendo ligada em 220 até entender um pouco mais da vida. E já aviso que vou ter olheiras. Cansei de ser sexy, internet.

Eu sei, eu sei, faz três meses que eu não atualizo e daí eu apareço com essas balelas. Mas esse é meu diário né. E na verdade, é tudo pra tentar dizer pra vocês que o medo, na verdade, está sempre lá tipo uma furadeira na cabeça, mas, finalizando a sessão quotes: “a coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, E NÃO A AUSÊNCIA do medo.”

Resumindo a merda toda: não sejam cagões. Tem muita gente que vive pra transformar a vitória alheia em chacota e nenhum deles sabe agir quando a chacota vira vitória.

Cada geração no seu quadrado

Haters gonna hate, mas a real é que eu não suporto quem fica de mimimi falando que a infância dele foi melhor do que a infância das crianças de agora.

Claro que foi. Foi a SUA infância.

É, sou de 1991 e tenho míseros 21 anos. Minha infância não foi há tanto tempo assim. Mas, na minha infância, você precisava ter muita grana pra ter videogame, computador, celular, internet e tv a cabo. E meus pais não tinham.

Meu “acesso à tecnologia” era o super nintendo com os mesmos jogos de sempre e, às vezes, um joguinho novo que eu e minha irmã alugávamos na sexta-feira, porque a devolução caía no domingo e eles estendiam até segunda. Ou, no máximo, uma fita nova que meu primo-vizinho me emprestava, quando pegava com os amigos dele.

Computador? No sir. Isso era só na loja do meu pai e para trabalho. O primeiro computador da casa foi quando minha irmã entrou no Ensino Médio. E aí a internet era discada AND cara, então era só no domingo.

Celular ganhei faltando um mês pros meus 14 anos. Minha irmã já tinha 18! Ganhamos o mesmo celular, “o primeiro com tela colorida”, segundo o meu pai.
Antes disso, nossa diversão era trocar o toque do celular dele por um monofônico “La Cucaracha” e ligar pra ele enquanto estivesse na fila do banco, só pro véio passar vergonha. A gente nem via a cena, mas só de imaginar a cara dele, morríamos de rir.

Meu ponto é: eu tinha pouco acesso a essas coisas, assim como era com a minha irmã, quatro anos mais velha que eu, ou meus primos, 5, 7 anos mais velhos. Mas quando a gente tinha, cara, era MUITO MASSA.

Minha infância foi maravilhosa. E eu me divertia muito descendo de carrinho de rolimã com meus primos e minha irmã… Tanto quanto me divertia quando a gente se juntava nas férias pra passar uma fase foda do Super Mario World.

O capote que levei com minhas 2 primas e minha irmã descendo no genial carrinho de rolimã com rodas de velotrol planejado para 4 pessoas que meu primo criou está guardado na minha cabeça com o mesmo carinho que guardei o tilt no videogame logo depois de fiiiinalmente passar aquela fase desgramada do mundo especial, a “Tubular”, porque pulamos demais e trombamos com o console sem querer. Foi uma tragédia.

Nossa infância vai ser sempre maravilhosa. As crianças de agora não vão se arrepender de nada. Eles vão se divertir com as coisas novas que vão aparecer e lembrar com carinho das antigas.

Ou será que a emoção de jogar um Wii ou um Xbox com Kinect pela primeira vez foi só minha?

E, quem somos nós para falar deles?! Com a minha idade, minha mãe estava casando com meu pai e planejando uma vida inteira. E eu não sei nem o que vou fazer daqui um semestre, quando acabar a faculdade. Eles compravam móveis para casa. Eu comprei um tablet.

O que eu vejo? Um monte de marmanjo de 30 anos SE DIVERTINDO HORRORES com um aplicativo para iPadPodPhone e reclamando de crianças que jogam joguinhos.

Se temos direito de reclamar da infância que essas crianças de hoje levam, acho que nossos avós tem também o direito de reclamar da nossa. Ou mesmo da nossa vida atual, né?

Alguém se arrisca a perguntar pra minha avó, que casou com 17 anos (porque o pai dela ia mudar de cidade e era mudar ou largar do namorado), lavava roupa no riacho e estendia na grama e limpava a casa da sogra subindo em banquinho pra limpar no alto, mesmo grávida de 8 meses, o que ela pensa da vida que levamos agora?

I don’t think so.