Linguagens

lata

Existem inúmeras formas de se expor sentimentos e ideias. Particularmente, acho a fala a mais besta delas. É justamente falando, que a maioria das pessoas NÃO consegue se fazer entender. Como se o grau de subjetividade fosse inversamente proporcional à facilidade de exposição.

Assim, a gente acaba com preguiça de concatenar tanta coisa rodando na cabeça e se despede com “boas férias”, “até mais” e afins ou pergunta a hora, pensando no sentido da vida.

Eu já escrevi um email pra ser lido na minha frente, só pra não correr o risco de perder a linha de raciocínio e não conseguir dizer tudo que precisava. E é assim, eu falo demais sem dizer nada e digo tudo sem abrir a boca.

E tem gente que pinta o que sente, outros dançam, outros presenteiam. Tem quem fere, querendo dizer e tem quem diz, querendo ferir, quase como que fisicamente.

Não é o fim do mundo quando duas pessoas usam linguagens diferentes. Uma sempre pode aprender a linguagem da outra e, quando isso não é possível, sempre há uma forma de tradução. Uma amiga da minha irmã ficou com um cara que só falava inglês. Ela, sabia meia dúzia de palavras, incluindo “kiss me”. Depois da resposta, conversaram por mímica a noite toda. Nem tudo podia ser entendido assim, então, eles usaram um tradutor online.

Tem horas que não precisa mais do que olhar, pra mostrar tristeza, desejo ou raiva.

Por isso eu sinto por quem não tenta nenhuma das formas e deixa tudo não-dito, como se não fosse fazer diferença. Esses vão ficando pra trás. Esses matam o amor. E vão morrendo junto, sem que a gente possa fazer nada.

Mas os meus preferidos são os que cantam. Que juntam todas as linguagens numa só e fazem você se apaixonar até pela melodia que embrulha um contexto onde você se fode. Tem que ter muita alma, muito sangue correndo.

Aos músicos, o meu respeito.

Os opostos se atraem, mas não se entendem

(Este texto foi originalmente publicado no Olla Blog. Aproveita e confere os da galere!)

opostos

Ele gosta de rock e ela de axé. Ele é racional e lida bem com os números, ela, um turbilhão de emoções que conduz através das palavras. Comédia e drama. Pra dentro e pra fora, preto e branco, dia e noite.

E como diabos eles acabam juntos?

Especialistas dizem por aí que eles querem é se completar, encontrar no outro – e possuir, através dele – as características que não encontram em si mesmos. Ok, faz sentido. Mas dá certo?

No começo, talvez. Porque a diferença encanta. Ele, na sua calma, vai ficar abestalhado com toda a vida que ela transmite. Ela, sem parada, vai admirar a incrível capacidade de concentração e traquilidade frente às dificuldades.

Perfeito. Até que, com o passar do tempo – e da novidade – a calma se transforme em falta de atitude e a extroversão em vontade de chamar a atenção pra si.

E como frequentar, com o mesmo ânimo, o mesmo lugar ou ter músicas tema quando os gostos são diferentes? Como criar os filhos com ideais que não batem?

Certamente deve ser mais fácil levar a parada quando as experiências são semelhantes e aproximam. Mas quem é que manda no coração?

O bom do amor (quando pega mesmo) é que ele te permite ceder sem se sentir um imbecil. Quando isso acontece dos dois lados, talvez a coisa funcione.

Quando uma mocinha, num blockbuster aleatório, disse pro cara que não queria cometer nenhum erro, a resposta deu um roundhouse kick em milhões de telespectadores chorosos:

“Então você está na espécie errada, amor. Seja um pato.”

Como nossos pais?*

Lá no lar Bottânico, a gente tem mania de papear por horas com os velhos sobre o passado deles e como chegamos até aqui.

Na última dessas, eu fiquei horas refletindo sobre o que eu ouvi e cheguei à algumas conclusões.

Meu pai saiu do sítio e começou a trabalhar por volta dos 8 anos de idade, engraxando sapatos. Minha mãe entregava pão de madrugada, também criança. Os dois trabalharam durante toda a adolescência, como muitos de nós, hoje, só que o dinheiro ia todo pra casa. Minha mãe teve que dar até o último mês de salário pro meu avô, antes de se casar.

Mas o que me espanta é a trajetória pós-casamento. Uma sociedade com parentes onde os dois entraram com dinheiro e saíram sem nada; minha mãe vendeu alumínio; os dois montaram barraca na feira; meu pai foi viajar como vendedor e dormiu em hotel com cachorro debaixo da cama; deram quase tudo pra comprar uma mercearia e o antigo dono resolveu comprar uma perua e atender os antigos compradores em suas casas, ferrando o negócio.

Pagaram por anos um apartamento e depois descobriram que, por causa da inflação, a dívida só aumentava e, quando terminassem de pagar, estariam devendo cinco apartamentos. Pararam de pagar. Nesse meio tempo, minha mãe montou uma empresa de fraldas descartáveis, que deu dinheiro suficiente pra erguer a nossa casa antes do despejo do apartamento. Pouco tempo depois, um incêndio destruiu a fábrica toda.

Depois disso, meu pai abriu uma loja de materiais hidráulicos, com dez peças de cada. Foram alguns anos trabalhando pra pagar as contas, sem lucro, mas ele nunca deixou de acreditar. Quinze anos depois, ele vai pra Paris por bater recorde de vendas de um fornecedor.

Apesar de ter dormido nos sacos de arroz enquanto meu pai enchia linguiças, à noite, no açougue da mercearia, eu não tive uma vida dura. Não precisei trabalhar quando criança e sempre tive o que dava pra ter. E eu sempre soube o que dava pra ter e não pedia mais que isso.

Quantas dessas histórias há por aí? A geração dos pais dos quase-adultos de hoje foi a que mais se ferrou, a que passou pelas maiores mudanças. Já nós, nascemos e crescemos num mundo um pouco mais tranquilo, onde não era preciso lutar tanto. Porque eles lutaram por nós.

Só que, sinceramente, eu acho que isso fodeu com alguns de nós. Eu não me sinto digna de ganhar um carro, mas muita gente que eu conheço exige isso, sem ter conquistado porra nenhuma. Muita gente acha normal. Não é. Você tem que conquistar uma coisa pra dizer que é tua. Tem que pagar teu aluguel se quiser morar sozinho. Que trampo, né?

Fui pra São Paulo e vi um cara com as pernas atrofiadas, se arrastando num skate. Quem sou eu pra reclamar e desistir das coisas que eu quero?

Quem é você?

Shame on us, a vida é DEMAIS. É só enfiar a cara.

*Já usei esse título, mas não tinha mais adequado.

Tenha Paciência, Meu!

tpm

E, de repente, eu chamei o pano, que estava dentro do balde que eu queria usar, de IMBECIL. Derrubei uma caneta e a bicudei pro cu do mundo. Chorei porque tinha que lavar louça.

Pronto, fudeu. TPM feelings.

Legal é que duas horas antes de xingar objetos inanimados, depois de uma visita inesperada, pensei em tuitar que, “às vezes, a vida é tão fácil de ser vivida” e desisti porque me soou deveras gay. Mas estava assim, de buenas, felizona.

E aí que eu resolvi escrever esse texto pros moços. Aqueles que sofrem junto, mas não conseguem entender whatafuck is going on com a moça.

Porque falando assim, posso não conseguir expressar com a devida importância a MERDA MORFÉTICA que é não conseguir parar de chorar sem nem saber o porquê ou querer morrer porque acabou o papel higiênico, mas preciso informá-los da importância que os senhores têm, nesses dias de caos.

Talvez existam donzelas que, como eu disse hoje, digam: “se quiser ficar no teu canto, fique à vontade, que eu tô chorona”, numa tentativa racional de evitar atritos maiores e tentando ignorar que, tratando-se de hormônios DESCONTROLADOS, isso não adianta porra nenhuma, porque:

1- Se você concordar com ela, ela vai se sentir abandonada e te odiar.

2- Se você insistir e ignorar o conselho, vai acontecer o que já se sabia desde o começo. Round 1, FIGHT!

Agora, antes de surtar com a sua mina porque ela tá chata, irritante ou chorona, saiba que, se quiser se livrar disso, vai ter que passar a dar ré. Porque até ALOCA da galera, aquela que tá sempre rindo e zoando, tem “em cada dia do mês, uma concentração de hormônios sexuais diferente da do dia anterior e diferente da do dia seguinte”, que fazem com que ela te mande um caminhão de pétalas de rosas num dia e um de bosta no outro. Quer resmungar, reza e xinga o cara lá de cima </JEITINHO>, que foi ele quem fez.

Mas uma solução muito mais esperta é aceitar que, a menos que você siga a sugestão do parágrafo acima, isso vai acontecer pelo resto da sua vida e é muito mais fácil se preparar com um pote de sorvete e boa vontade pra vinte minutos de cafuné.

Caso isso seja muito cansativo para a vossa senhoria, sempre se pode conversar e dar a explanação. Evitar se encontrar nesses dias, sei lá. Apesar de, na verdade, a vontade de agradar a rapariga que você ama, ser esperada independente de você saber que ela está precisando disso. E se essa vontade não existir, talvez os seus hormônios é que sejam o problema – a única coisa impulsionando a relação. Se esse for o caso e você quiser se livrar da carga, tente fazê-lo antes do final daquela quinzenazinha de paz.

Afinal, TPM é atenuante de pena por homicídio e alguém teve que provar.

Exatamente fodidos

duvida

Dia desses, quando me mandaram virar à direita, prar variar, deu tela azul e eu fiquei dançando com o volante, sem saber pra onde ir. Isso porque, dirigindo, me falta agilidade pra fazer um air-writing e lembrar qual é a mão direita. Só assim eu sei qual lado é qual.

Vai, pode rir, eu fui piada por anos (e ainda sou) por conta disso. E antes fosse só por isso.

Relógio, pra mim, só digital e nos esquema AM PM da vida. Porque, se eu estiver desatenta e o relógio mostrar 16h30, eu vou falar “seis e meia”.

Quinhentos metros e um quilômetro, pra mim, é a mema merda. Também não me pergunte o tamanho de nada, que eu só fiz questão de decorar o meu pra afirmar que não sou anã. Por três centímetros E MEIO.

Se um dia você começar a calcular algo em voz alta na minha frente e eu estiver prestando atenção, é encenação. Eu já parei de ouvir no primeiro número e tô pensando no queijo que tá na geladeira.

Eu dou a volta no quarteirão e já acho que tô no outro bairro.

Eu dou a volta em mim mesma e já não sei de que lado eu vim.

Se eu disser que tá vindo um ventinho noroeste, seja legal e não me peça pra apontar.

Eu, que sempre fui a melhor aluna da sala, vacilei no segundo ano do colegial e reprovei. Detalhe: Reprovei em todas as matérias de exatas e passei com nota máxima em todas as outras.

O diretor disse que não podia me ajudar porque eu não era burra, era folgada.

Daí que, num belo dia, eu resolvi descobrir se isso era normal, ou se tinha algo por trás de eu ser tão mula, matematicamente falando. Procurei por “falta de senso de direção” e RÁ! Olha o que eu achei na Wikipédia:

Discalculia (não confundir com acalculia) é definido como uma desordem neurológica específica que afeta a habilidade de uma pessoa de compreender e manipular números.

Entre os sintomas, estão:

Problemas de diferenciar entre esquerdo e direito.

Falta de senso de direção (para o norte, sul, leste, e oeste) e pode também ter dificuldade com um compasso.

Dificuldade com tabelas de tempo, aritmética mental, etc.

Melhor nos assuntos tais como a ciência e a geometria, que requerem a lógica mais que as fórmulas, até que um nível mais elevado que requer cálculos seja necessário.

Dificuldade com tarefas diárias como verificar a mudança e ler relógios analógicos.

A inabilidade de compreender o planejamento financeiro ou incluir no orçamento, nivelar às vezes em um nível básico, por exemplo, estimar o custo dos artigos em uma cesta de compras.

Tendo a dificuldade mental de estimar a medida de um objeto ou de uma distância (por exemplo, se algo está afastado 10 ou 20 metros).

Inabilidade de apreender e recordar conceitos matemáticos, régras, fórmulas, e seqüências matemáticas.

Dificuldade nas atividades que requerem processamento de seqüências, do exame (tal como etapas de dança) ao sumário (leitura, escrita e coisas sinalizar na ordem direita). Pode ter o problema mesmo com uma calculadora devido às dificuldades no processo da alimentação nas variáveis.

A circunstância pode conduzir em casos extremos a uma fobia da matemática e de dispositivos matemáticos (por exemplo números).

E tem mais, num outro artigo:

A discalculia é um distúrbio que dificulta a aprendizagem, pois impede que o indivíduo compreenda os processos matemáticos, mesmo que ela tenha um QI normal ou acima do normal.

As crianças que apresentam esse tipo de dificuldade realmente não conseguem entender o que está sendo pedido nos problemas propostos pela professora. Não conseguem descobrir a operação pedida no problema: somar, diminuir, multiplicar ou dividir. Além disso, é muito difícil para elas entenderem as relações de quantidade, ordem, espaço, distância e tamanho. E isso algumas vezes é entendido pelos pais e professores como preguiça.

Então, amigo, se você apresenta essas dificuldades, você tem discalculia. Seus problemas não acabaram, você vai continuar sem entender porra nenhuma na aula de Física e usando a calculadora só pra escrever SEIOS e OLHOS. Então faça como eu, vá pra uma área onde você só use números escritos por extenso. E o mais importante, use essa bagaça a seu favor:

Mãe, é por isso que eu não controlo meus gastos.

Amigos, é por isso que eu sou uma merda no bilhar.

Pai, é por isso que eu arranquei o retrovisor do carro, aquela vez.

Maira, tá fudida, vai me ajudar a estudar exatas pro vestibular.

E last, but not least: querido diretor, folgada é a senhora sua mãe. Um beijo.

Update: o cara que me deixou o scrap “… porque perto de você dois mais dois é igual a azul… ” provavelmente tem discalculia.

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