16
Feb
  EXCELente

Essa semana, passei por uma experiência kinda traumática. Fui lá fazer aquilo que as empresas fazem de má-vontade e a gente faz com o cu na mão: entrevista de emprego.

Pra começar, estou eu toda trabalhada no preparo emocional, e aí… os corno me mandam voltar dali dois dias.
Dois dias depois, saio toda feliz, andando de mãos dadas com a esperança de um salário nessa vida de merda. Ando uma eternidade para chegar ao metrô, carrego bilhete único, saio do metrô para pegar o ônibus e… perco a desgraça (do ônibus, nunca a minha). Fico ali meia hora com o coração palpitando, xilique nas pernas, achando que ia perder a porra do horário. Garrei na esperança que tava querendo me largar.

Chega o ômbus. Me arrumo ali, naquela lata de sardinha, sem nem segurar, porque o povo vai tão junto que não tem nem espaço pra cair. Todo mundo tipo joão bobo. Eis que (óbvio), no meio do percurso, um barulho MUITO ALTO no ônibus indica que alguma coisa que fazia parte do ônibus agora não faz mais. Motorista anda mais umas 3 quadras e encosta. E vem o anúncio: “A bolsa caiu.”

Bolsa? Que porra de bolsa é essa? Porra, cobrador, deixou cair a bolsa com a marmita?!

Bolsa de ar. Aparentemente, aquilo que não deixa o ônibus ficar rebaixado quando tem uma cacetada de jão dentro. O que, né, era nosso caso.

Todo mundo pra fora.

Detalhe: eu não sei me virar em São Paulo sem o site da SPTrans e o Google Maps. Não sei chegar em lugar nenhum sem ver percurso, numeração da linha etc. Afinal, São Paulo não é Americana, onde QUALQUER ônibus que você pega, até os interurbanos, passa pelo terminal, de onde, obviamente, sai também qualquer outro ônibus.

Aí ficou lá a caipira, enfiando a cabeça pra dentro de qualquer ônibus e perguntando se passava na rua tal, até que descobriu um que “passava ali perto”.

Finalmente, meu destino. Entro, pego um lugarzinho. Espero ser chamada.

Pensem comigo: o que pode ser uma entrevista para “assistente de professora de artes”? Na minha cabeça, nada mais que algumas perguntas bobas tipo “O que você acha de arte-educação?”, “Qual foi a última exposição de artes que você visitou?” e tal. Já tinha passado por isso, tava baba. Nas tranqulidade, sento, espero uns 5 minutos enquanto a atendente, com um fone de ouvido, fala com alguém de outro setor e ri. Então ela começa o conversê:

“Bom, Maira… Você vai fazer uma redação e uma prova e…”

O QUÊ?! REDAÇÃO? PROVA? QUE PORRA É ESSA? EU TÔ PRESTANDO VESTIBULAR OU TENTANDO UM EMPREGO?!

Mas escolha é que eu não tinha, fiz a redação e fui pra prova. Ah, a prova.

Imaginem uma matéria que você aprendeu, sei lá, na quarta ou quinta série, e que nunca mais, e com certeza absoluta, NUNCA MAIS usou. Era o caso. A “matéria”? Não riam dessa pobre burrica: Excel.

Agora, PRA QUÊ DIABOS uma ASSISTENTE DE SALA da PROFESSORA DE ARTES precisa mandar muito no EXCEL?!

Claro que eu não sabia fazer NADA. Num ato de desespero… abri a ajuda. E li. Li até me convencer de que não sabia que porra era “matriz” e “k” na fórmula de percentual. Como sou brasileira, ainda fiquei sentada lá uma hora até entender que.. é, eu não sabia nada.

Finalmente, a entrevista de verdade verdadeira. Uma mulher muito mal-comida que nem olhava pra minha cara, muito menos anotava o que eu dizia. Sabe quando você tem uma frasezinha básica que geralmente ganha os entrevistadores? Então… A minha é “Essa experiência seriam bem interessante porque pretendo lecionar e…” e nessa hora, sempre fazem uma cara SUPER FELIZ e é win. Sempre. (Pra constar: eu pretendo mesmo lecionar. Não é mentira pra entrevistador!)

De qualquer forma, minha frase-chave não funcionou. A mulher nem levantou uma sobrancelha. Nada. Nesse momento eu tive a certeza absoluta de que tinha me fodido. E, como dizem por aí, tá no inferno, abraça o capeta. Então, eu fiz o que me restava: desandei a mentir. Disse que já tinha experiência em escolas, em vários cursos. Menti tanto que esqueci de contar que tive experiência (de verdade) com crianças em ateliê, no meu antigo emprego. É nóis.

Legal é que uns dias antes da entrevista, um amigo me disse que tinha se fodido numa entrevista por não saber Excel. Aí fui contar minha experiência a ele, e, como o mundo é mesmo uma ervilha, a vaga que eu não tive a capacidade excelística de conseguir era a mesma dele.

Mas é isso aí, amigos são pra essas coisas… rir, chorar, se foder no Excel.

Agora quero ficar um tempinho sem fazer uma entrevista. Vou primeiro aprender mecânica, elétrica, marcenaria e culinária. Porque, seguindo a (falta de) lógica, vai que eu precise, pra ser estagiária num museu. Né?







5
Nov
  Terra Macia

O que escrever à Mirian  no dia do seu aniversário, aqui entre seus textos?
Um poema? uma carta apaixonada?  Enfim, pego-me indagando: talvez um, talvez nenhum, muito provável os dois. Os dois, mais e muito mais – para além da fronteira nítida dos diferentes gêneros literários- pois que, fazendo uma reflexão com meus “bottans”, sinto que é esse o mesmo tipo de dúvida  que paira sobre minha cabeça toda vez que a vejo: devo beijá-la? apertá-la? contar algo novo? Sinceramente, todos.
E todos ao mesmo tempo, numa angústia dolorida; numa vontade inigualável de querer gritar e pular.
E assim o é, há exatos 5 meses, com relação a tudo que rodeia a mim e a ela. Nunca a vida fez sentir-se tão presente, tão belamente presente, como faz conosco agora.
A menina que há algum tempo se referiu caminhando na relva orvalhada, longe da agudez bruta das pedras cortantes passadas, é hoje a mulher que me acompanha. Se antes pisava moderada o novo caminho; hoje, corre comigo por todos seus cantos. Se antes sentia-se feliz ante a expectativa da nova maciez; hoje, sente-a por completo. Assim me sinto, também.
Desde aquele primeiro contato (ou então antes ainda), em que fatos pequenos e incríveis se somaram como dominó, sinto que é minha companheira (de grandes centros, pequenas camas…), minha amante, minha amiga: minha mulher. Tudo que hoje sinto, de mais extraordinário e sensacional, devo aos seus carinhos e seus beijinhos. E falo isso, com “Os passistas” de Caetano ecoando o seu “Amor, onde quer que estejamos juntos…”.
Aos leitores, creio que não mais preciso me indentificar – a fluência e o ritmo falam por si – e se, de tudo, apenas uma palavra fosse utilizada para resumir a minha pequeninha, com certeza, seria: “sentir”. Pois que nunca, em uma vida, senti com tamanha intensidade e significado cada passo dado por aquela relva macia.
“Sem vós o que são meus olhos abertos?” – Camilo Pessanha

Com todo o amor,

Otávio







30
Sep
  Das certezas

E aí o meu menino foi para os tão temidos e odiados jogos de faculdade. Good lord,  THE HORROR!

Sinceridade? Tirando a saudade torcendo as tripas, não achei. E aí, o que eu mais ouvi nos últimos dias foi:

“COMO VOCÊ CONSEGUE FICAR TÃO CALMA?” (mulheres)
“Mal sabe, hahaha” (homens)

Gente, que muito triste. Eu fico super tentando achar que isso é só imaturidade, que vai passar. E, sério, eu me jogo da ponte se, algum dia, alguém me olhar com a mesma expressão que eu lancei pra quem tentou me convencer que o amor é uma utopia.

Vamos lá: o que é que eu deveria temer? Peitos? Eu só tenho dois e o mundo tem tipo… né? Até meu pai tem.

Vou te dizer o que é que eu tenho que temer: o dia em que ele não me achar linda toda descabelada e com a maquiagem destruída, pela manhã. O dia em que ele não falar do nosso futuro, da nossa casinha e do pôr-do-sol. O dia em que ele se irritar com os meus barulhinhos e achar normal eu quase cruzar o estado pra passar quatro horas com ele.

É isso que deve me assustar, não uma bunda maior que a minha.

Você nunca percebeu que se apaixona justamente pelas imperfeições, tão lindas e únicas? Uma covinha mais funda que a outra, uma manchinha marrom no azul infinito dos olhos, uma risada estranha, um dedo torto. Quando aquele jeitinho tão gostoso de pronunciar o “s” te der vontade de chorar de tanta alegria, não vai ter corpo escultural que te dê mais tesão.

Quando os olhos que sempre admiraram cabelos escuros não conseguirem parar de implorar pelos fiozinhos dourados, quando você não  coneguir mais se ajeitar na cama sem encaixar naquele abraço, quando você “descartar os dias sem o outro, como de um filme a ação que não valeu”, quando a dor do outro doer mais em você e quando você achar NELSON BOLOTA um apelido carinhoso, você, que espera, só vai conseguir lembrar de esperar.

E você, que foi, só vai querer voltar.

Post scriptum: não desistam disso, por vocês.







24
Jun
  Samba e tango

Caros leitores, hoje me ocorreu deixar a crônica desinteressada e desbocada de lado e mostrar um lado que talvez vocês nunca tenham visto aqui. Ou, parafraseando a paçoca menor (maior), e dadas as devidas proporções, enfiar um F. Pessoa onde rola um F. Verissimo. Segue! (apita o árbitro!)

Já nem sabe desde quando arrastava essa milonga. Estendia-a à sua frente, pra depois seguir por cima dela – um tapete que ia sendo desenrolado sobre um caminho que tanto já lhe dilacerara os pés. Mas se esses mesmos pés, sempre descalços, já não sentiam pedras a lhes rasgar a carne, também já não podiam sentir a terra molhada e a vida nela, tão enfiados estavam no vermelho-sangue do veludo, que dava o tom exato de drama àquele sem-fim de cinza.

Há tanto era um tal, naquele bailar, de rostos que se viravam, olhos que não se olhavam, mãos e corpos que se tocavam e não se sentiam - apenas executavam avanços precisos e passos estáveis, com postura impecável, expressão austera e cabelos muito bem presos no topo da cabeça – que quis desvencilhar-se e lançou-se a dançar sozinha, ainda que apenas para ditar o próprio ritmo. Gostou. Respirou – já sorria.

Mas, um dia, ao contar o próprio tempo, como sempre fazia, surpreendeu-a uma rajada que lhe atirou longe as presilhas e fez esvoaçar os cabelos, numa farra de entrar pelo meio deles e depois pelo vestido, correndo-lhe junto à pele, fazendo o sangue ir mais rápido e mais quente, numas de subir todo à face, enquanto o ar do mundo todo lhe entrava pelas narinas e a fazia descobrir toda a capacidade dos pulmões.

E pôde ouvir, e era ainda longe, alguma coisa que brincava em quase entrar pelos ouvidos, mas era pouca e não se fazia conhecer de vez, apenas insinuava uma batida convidativa e – tão convidativa! – só foi fechar os olhos, abrir o peito e deixar escorregar um dos pés pra fora da falsa proteção – que cobria lascas mas escondia inúmeras e sorrateiras armadilhas – e, ao invés de pedras, pisou em grama e orvalho e sentiu que o orvalho logo cuidou de regar-lhe a alma, além da pele.

Daí pra frente foi uma e foi outra que não já podia prever, pois quando a vida da terra lhe chegou às mãos, sentiu outra na sua – e era só o que esperava o segundo pé, que havia ficado.

E ao abrir os olhos num susto, viu outros, que olhavam de volta. Não só olhavam, mas rasgavam-lhe o casulo da alma, fazendo-a voar e sair do corpo e ir dançar com o vento e os cabelos, onde agora se enroscava outra mão – e outra na cintura, que a conduzia num novo compasso; e uma outra lhe desenhava os traços do rosto; e eram mil as mãos dele e era ele todo enroscado nela, protegendo, guiando, moleque, alegre, leve, numa gafieira malandra e mágica.

E talvez fosse tarde -apesar de cedo- pensou, quando, lá longe, alguém parecia avisar pra pisar naquele chão devagarinho.

Afinal, já flutuavam dois palmos acima dele.







24
May
  Muito do que não basta
Lá pro tempo da minha avó (ou da infância dos meus pais), a despesa da casa era feita em armazéns. Um balcão, um tio atrás do balcão. Não eram muitos os tios, nem os balcões, nem as opções.
Exatamente por isso, pra crescer, tinha que ser de outro jeito.

Vieram os PEGUE E PAGUE, onde o cliente entrava e pegava o que quisesse, botava na cestinha e passava pelo caixa. Agregamento de ítens HORTIFRUTIGRANJEIROS, carnes, pães e lacticínios, crescimento exponencial da variedade de marcas e produtos.

Hoje, o foco é suprir todas as necessidades que o cara possa ter, no mesmo espaço físico. Eletrodomésticos, roupas, remédios, eletrônicos e serviços. Dá pra abastecer o carro, tomar um café, pagar contas, colocar crédito no celular, revelar fotos, fazer amigos e dançar a conga. 24 horas por dia.

Eu lembro de uma infância num esquema armazém do tio.

Eu tinha uma professora, eu tinha uma turma onde ninguém era ruim. Eu tinha umas poucas vontades. Queria gibis, roupas roxas, um macacão e repicar o cabelo. Sabia desde janeiro o que pedir no natal.

E tinha mais PAIXÃO. O peito doía de alegria com as férias na casa das primas, com a semana na praia, com o oi do Renan, com o domingo no clube, com o pacote de Passatempo, a bolacha mais gostosa do universo. Nada era ruim por muito tempo. Assim que o choro secava, já tava tudo bem.

O tempo e as surras vão laceando as emoções, ao mesmo tempo que a gente sofre mais. Uma roupa nova já não tem tanto valor no fim do dia, um sentimento novo já não tem tanto valor no fim da noite. A gente já não sabe qual é a melhor bolacha, já não sabe qual pacote de feijão comprar, tem coisa demais no supermercado, tem gente demais na vida da gente.
Eu ando quilômetros com o carrinho e não levo nada. Eu não gosto mais das coisas que eu gostava e o problema de experimentar uma daquelas que a gente nunca pensa em pegar porque é muito caro, é que a gente tem mania de viciar no que não dá pra ter sempre que a gente quer.

Eu andei perguntando pras pessoas se elas são felizes e ninguém diz “sim”. Ao invés de três letras, elas usam o resto do alfabeto, os números e a mitologia grega. Elas não sabem, elas estão trabalhando pra isso, elas são 70% felizes. Elas se encontram no mercado, de madrugada, procurando por alguma resposta. Andam, olham, pegam, hesitam, devolvem, continuam com fome.

No meio de tanta opção, ninguém dá bola pra algo como uma bala. Não mata a fome, mas adoça uns minutos da vida. É uma alternativa simples e desinteressada, mas boa. Como um cafuné pra dormir.

Da próxima vez que você se perder no mercado, com fome, compre balas.