16
Jun
  Quadrilha Estendida

cirandaMista

Eu costumava achar que a Quadrilha, de Drummond, era uma puta verdade irritante:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Mas pensando melhor, antes fosse simples assim. Porque fora dos livros, o João é amigo do Raimundo e a Teresa, se pudesse controlar, escolheria gostar do primeiro ao invés do segundo!

Ou a história pula o Joaquim e a Maria quer mesmo é pegar a Lili.

Às vezes, outra quadrilha passa perto e um dos mancebos se torna o J. Pinto da outra história, forçando desiludidas Marias ou Teresas a dar uma chance por despeito e viver uma vida vazia. Ou descobrir o tempo perdido.

E vai ver o J. é de um João mais velho que acaba de voltar dos Estados Unidos, onde se deu bem. Nesse caso, quem melhor pra ficar com o cara do que a Lili, que nessa bagunça toda, certamente era a única que conseguia focar nos estudos e no trampo.

Faz sentido.







10
Jun
  Sexta-Feira 12

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Aí marquei um chopp pra Sexta, com uma galera-gente-boa random. Porque, ah, eu estarei em Sampa pra dois trampos no dia e ninguém ia fazer nada, mesmo. Uma parada durante a manhã, tarde livre e a outra à noite, antes da farra.

-Nossa, na noite de Sexta, wtf?

-É que é uma parada com o d… dia dos… namorados… que é na… Sexta? Orra, meu! Esqueci o dia dos namorados!

Né, esqueci. Mesmo com as propagandas todas, não me liguei no dia, não calculei nada, caguei pro dia dos namorados.

Aí hoje, parei cinco minutos pra correr os olhos pelas fofocas twiteiras e pronto:

“Odeio o dia dos namorados.”

“Mais um dia dos namorados sozinho(a)”

“Sexta é dia de me enfiar embaixo das cobertas e esquecer do mundo.”

Gentem, na boa, vai todo mundo pra benzedeira, credo!

Olha só, se liguem-se no que eu vou compartilhar. De todos os anos que eu namorei (os quase oito) eu não me lembro de nenhum dia dos namorados em especial. Sério. Isso porque quando chegava esse dia maldito, TODOS os restaurantes estavam lotados, os motéis lotados, os banco de praça lotados, o bar do Zé lotado, o bar da Loira Drink’s lotado e nem os véio saíam tempo suficiente pra armar uma em casa (mãe, você optou por acompanhar o blog, mas eu decidi fingir que não).

Ou seja, era mais fácil planejar uma noite especial a dois em qualquer outro dia do ano, a não ser que programasse tudo dois meses antes. Coisa que sempre tem 90% de chance de dar merda, simplesmente por não poder dar (um pouco de imaginação e isso vira um trocadilho).

Isso sem contar a porra da obrigação do presente. Eu sou do tipo que tá indo almoçar, vê uma roupa/perfume/cd que ele vai gostar e compra. Pode ser no dia 10 de Novembro, que é dia do trigo (que é pra não ter espaço pra tesão nenhum), simplesmente pra ver a felicidade do outro. Daí eu não vi nada legal, não faço idéia do que comprar, mas preciso.

Depois de anos de namoro, você ainda corre o risco de comprar pela obrigação e o lazarento esquecer o teu.

Enfim, meus argumentos não são apenas pelo “capitalismo disfarçado de sentimento, URRA!”. Porque datas como o Natal e a Páscoa, por exemplo, ainda te mandam pra casa, reúnem a família, vai todo mundo pra casa da vó encher a pança e passar um tempo junto, inclusive parentes que moram fora e você só vê algumas vezes por ano. Tipo, só nessas datas. Enfim, nem essa desculpa o dia dos namorados tem, porque, salvo um ou outro caso, os namorados se encontram e se pegam regularmente.

Pra ser sincera, o ano em que essa data mais me marcou foi o último, por ser o primeiro em que eu não estava oficialmente namorando, mas ao mesmo tempo estava num chove-não-molha, que não me deixava nem esquecer do dia, nem querer lembrar, aí confundiu a mente.

Mano, eu lembro que rolou a tag TPDN, ou “Tensão Pré Dia dos Namorados”, no Twitter. Pra quê, né gente, que fim de carreira.

Então assim, o ponto é: se a falta de um namorado te incomoda, eu presumo que te incomode o tempo todo, todos os dias, ou pelo menos no fim das baladas e nos dias frios, e não SÓ nos dias que antecedem a datinha florida. Então para de bancar a rosa da Fera quando tá caindo a última pétala, que é irritante (com a rosa eu ainda choro). Os casais NÃO se multiplicam nessa data, muitos deles voltam pra casa e brigam depois do jantar, muitos outros dão uma trepadinha marromenos no estilo do presente, outros ainda não completaram nem dois meses de namoro, esses estarão super apaixonados e felizes todos os dias, é você que só vai reparar nisso nessa noite em especial.

Comemora a independência da Rússia, o dia do Beagle, o aniversário do Maguila e a fundação do Figueirense Futebol Clube, mas não fica aí chafurdando em auto-piedade.

Pega a grana que você não vai gastar com ninguém e marca um chopp com uma galera, enche o saco daquele camarada que tá borocoxô porque terminou com a mina, manda ele tomar no cu e curtir a noite. E curta também.

Lembre-se que, ao menos, caiu na Sexta. Além disso, Sexta-Feira 12 deve ser algum sinal.







6
Apr
  Centavos

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Aí ontem eu estava na rodoviária de Americana, esperando pra pegar o ônibus pra Sumpaulo. Tinha acabado de comprar um suco, e, olhando pra mochila de 853 quilos, resolvi separar a grana pro metrô e deixar no bolso, pra não ter que ficar fazendo manobra pra caçar moeda.

Por conta da porcaria do suco, me faltariam cinco centavos pra pegar o metrô. Cinco míseros centavos! E por causa deles, eu ia ter que parar pra sacar grana, mais tempo com a mochila de 853 quilos nas costas. Parece babaca, mas ninguém ia me vender uma passagem de metrô por cinco centavos a menos e nem eu ia pedir cinco centavos pra comprar leite pos irmão, tio, então naquele momento aquilo me irritava pra porra.

E de repente eu me vi olhando pros lados e desejando com todas as minhas forças uma moeda de cinco centavos. E não conseguia parar de pensar em todas as vezes que eu me desfiz das pobres moedas “sem valor”.

A gente corre, corre e esquece que cada pedacinho da gente e do ambiente ao nosso redor é uma engrenagem e por mais engrenagenzinhazinha que seja, ela move alguma outra. Mas é uma mania nossa de só lembrar do dedinho do pé quando dá uma topada na quina da cômoda, só lembrar do papel higiênico quando acaba.

Pior: lembrar das pessoas por conveniência. A maior reclamação dos meus amiguinhos mudernos que entendem de computadô é o tanto de amigo que surge das trevas quando precisa de favor “oi, cara, quantotempopegueivírusmeajudaêê”.

Pior ainda: sinto dizer, mas a maioria de nós trata as pessoas mais importantes da própria vida como se fossem moedas de cinco centavos. 

Semana que vem você visita a vó. Manda um beijo de feliz aniversário pra tia pela sua mãe, afinal, o ingresso daquela festa já estava comprado faz tempo. Não sobrou grana pra visitar a prima (outra vez), mas não dava pra perder a liquidação. Mas gente, sempre tem uma outra oportunidade, eles sempre vão estar lá!

Não?

A minha irmã foi pra Americana me ver e eu tomei um açaí com ela e fui pra São Paulo porque, bem, eu precisava ir pra São Paulo. A minha sorte é que eu sou tão criativa que eu só precisei de uma moeda pra entender que da próxima vez eu preciso passar o fim de semana com ela.

Foi mal, paçoca.

(E tá aí a moeda de vocês.)







26
Mar
  Teoria do Playmobil

playmobil

Orkuteando por volta de 2006, eu dei de cara com uma comunidade que mudou a minha vida. Hiperboleamentos à parte, a parada me apresentou à teoria mais simples e eficaz ever: a Teoria do Playmobil. E depois de me perguntarem por toda a semana no MSN o que diabos é a Teoria do Playmobil,  decidi apresentá-la aos senhores e desenrolar a coisa como eu a vejo (oi?). Preparem-se, aqui vai:

“Nada do que possa acontecer vai tirar esse sorriso do meu rosto.”

Se você  não entendeu, atente para a foto do nosso querido modelo Playma acima.

Se você ainda não entendeu, aqui vamos nós:

Numa semana, recebo várias propostas de projetos absurdamente legais, combino um encontro com uma pessoa que muito me agrada, marco uma viagem, emagreço dois quilos (girl talk) e tal.

Na outra semana, o maior projeto vai pra stand by, a tal pessoa também, eu quase quebro o nariz e passo dias com dor e, se não bastasse, no único dia que eu resolvo sair, eu encontro o ex de mãos dadas com uma mistura de lacraia com Gretchen, que rebolava ao som de tuntstunts.

Não era pra voltar pra casa e chorar toda a vida? Óbvio, e foi o que eu fiz, até desabar de cansaço.

Acordei mais inchada que baiacu com medo, mandei o espelho tomar no meio do toba dele e fui pra cozinha. Aí minha irmã chegou de São Paulo. Passei umas boas horas conversando e rindo com ela e com a minha mãe, e de repente me caiu a ficha do nível de pateticidade dos meus últimos dias.

Quando você tá mal, você se força a ficar cada vez pior. Interneticamente falando, você vai lá e coloca Hamburg Song no repeat enquanto posta uma foto com cara de cu no fotolog e fica falando sozinho no twitter, tudo isso sem abrir a janela ou acender a luz, claro, porque luz vai estragar o clima “I’m sorry, I can’t be perfect“.

Aí quem te olha de fora pensa: puta cara chato da porra.

Parabéns, agora além de patético, você é chato.

Claro que não é fácil ficar bem do nada, quando você tá (ou acha que tá) ferrado em todos os campos da tua vida, mas da próxima vez, tenta fazer um esforço e fazer alguma coisa que cause riso. Bota uma comédia, assusta a vó, vai brincar com o pet. Peixe não vale.

E agora se apegue ao que achar mais conveniente, porque as explicações vão de misticismo à ciência. Você pode simplesmente acreditar que positivo atrai positivo ou pesquisar sobre os benefícios do riso para a saúde. Fazendo o último, inclusive, você vai descobrir que o riso faz o organismo liberar serotonina. Quem mais força isso mesmo? Ah, os antidepressivos! Então se você se entope de alegria fabricada, podia tentar fabricá-la sozinho.

E arrume desculpas pra tudo. Azar o dele se ele tá pegando baranga, já apareceram mais três projetos novos, e tem 6 bilhões de pessoas no mundo. Tirando as mulheres, que eu ainda não cheguei nesse ponto, e filtrando mais umas paradas, eu posso chutar que existem ao menos algumas mil pessoas por quem eu ainda posso me apaixonar. Que sejam cem. Que sejam 10. Que seja uma.

Só que eu nunca vou encontrá-la enquanto estiver postando cuzice no fotolog. E ela nunca vai me amar se eu não o fizer primeiro.

Ps. Comunidade aqui.







15
Mar
  Gula

gula

Fome é uma merda.

Fome de doce, fome de farra, fome de saquê com morango, fome de alguém, fome de vida, fome de amor.

Eu aprendi que se não dá pra fazer uma refeição completa, eu posso comer uma fruta ou tomar um iogurte e meu corpo aguenta mais umas três horas sem me derrubar.

Mas e amor, tem na geladeira?

Hoje eu passei muito tempo sem comer, e a fome começou a me doer mais do que o nariz que eu quase quebrei na porra do flying boat aqui em Bombinhas. Aí parti pro restaurante DAQUELE JEITO pro garçom: “moço, me vê tua alma com maionese”.

Pedi entrada, um elfo, um unicórnio, dois sucos de laranja e uma coca cola.

Eu que nunca bebo durante a refeição.

Comi o mundo e a alma do garçom e ainda trouxe a coca pra casa. Tô passando mal, claro. Tive que arrumar espaço pra dois comprimidos digestivos com mais uns goles de coca. Aí foi bem ruim. Consertar cagada é sempre pior que evitar, até o Nemo sabe, e a gente continua fazendo errado.

Quando você chega num restaurante com muita fome, pega um cardápio e vê a tua comida preferida, tudo que dá pra imaginar é que você vai ser o abestado mais feliz do mundo quando a parada estiver ali na tua frente, esperando pra ser atacada.

Só que comer desesperadamente e além da conta te faz mal.

Quando você encontra alguém que preenche todos os requisitos pra ser o prato principal pro qual todas as entradas te levaram, a fome causa o exagero. Nem precisa externar, basta querer demais, querer rápido, querer resultado, querer certeza.

Querer desesperadamente e além da conta te faz mal.

Até porque, nem sempre a comida chega como você imagina enquanto está sentado esperando, quase sentindo o gosto de antemão. Às vezes, falta sal. Às vezes, durante a espera, o pedido da mesa ao lado chega, e você fica na dúvida.

É muito louco.

Só sei que eu tô apaixonada e tomei no cu. Mas a gente não desiste, né? Não pode.