Sai da minha aba!

Atenção, leitor incauto, o texto abaixo é de autoria da Bottan II, a Maira Mairoca Makyta Paçoca, visse?

O chato é aquele que faz questão de ignorar o seu estado OCUPADO num tom berrante de vermelho, pra perguntar qualquer chatice aleatória e fazer a janela pular bem no meio da sua leitura de uma análise profunda de Vidas Secas.

Todo mundo tem seus minutinhos de chatice no dia, ou seus diazinhos no mês, como as mulheres, mas tem gente que extrapola, a ponto de te fazer querer defenestrá-la. Às vezes eu cogito a possibilidade da existência de uma seita onde, apenas alguns escolhidos, aprendam técnicas secretas para alcançar os mais altos graus de pé-no-saquice, e fazer com que o resto da humanidade desenvolva a sua paciência e tolerância.

Não?

Ser chato e conseguir aturar a si mesmo necessita treinamento avançado de D.O.M.: Domain Of Mind. Se não houver um auto-controle, a coisa pode é sair do controle. Imagine se VOCÊ resolve SE defenestrar! D.O.M. se adquire com o tempo.. ou nas bancas mais perto de você!

Mas o problema é que a coisa tá no gene. Você não pede pra ter tendência à calvície, não pede pra nascer pintor de sarjeta, não pede pra ter facilidade de virar uma paçoca-rolha e também não pede pra ser um chato de galocha. Isso, uma pequena sequência de nucleotídeos te dá de graça. E não é só você que vai sacar essa hereditariedade. Sempre vai rolar o comentário: “Chato igual o pai!”.

Conheço uma família onde a mãe, o filho e a filha são tão chatos que qualquer um dos três sozinho bate todos os outros chatos da minha vida. A forma como os conheci foi a mais chata possível: levando meu poodle pra cruzar com a insuportável da cadela deles. A vaca cadela simplesmente rodopiava, pulava, corria, quase saiu voando pra não chegar perto do meu pobre poodle monobola (o que, por si só, já é uma situação muito chata pro coitado do mini cão).

Enfim, tenho vontade de chorar quando encontro um deles em um lugar qualquer. A mulher consegue me fazer as mesmas perguntas dos últimos CINCO anos, tipo “Tá estudando onde?”. Enquanto meu exterior responde calma e educadamente o nome da minha escola pela trigésima vez, por dentro, um ser raivoso grita “NO MESMO LUGAR DE SEMPRE, VÉIA CAQUÉTICA!”.

O único membro da família que não é chato é o pai. Mas isso porque não o conheço, então vamos deixar assim. Tipo papai noel, que teria sido o seu ídolo pro resto da vida, se você não tivesse espiado atrás da porta e descoberto que era só o seu tio gordo, meio bêbado.

Chato, né?

Na boca do povão!

Tudo começou quando eu dormia o justo sono dos recém desprovidos do título de assalariado. Eis que me toca a bagaça do telefone. Eu, achando que era a senhora minha mãe querendo saber se eu já estava isaurando no fogão, saio capotando, batendo cabeça, canela, num auto massacre sem fim para chegar até o dito. Exagero mode off, foi só pra vocês entenderem o porquê da minha raiva quando eu atendo o bicho gritante e ouço:

“Olá! Aqui é o Fulano de tal!”

-Ahn?! – Ainda no mundo dos sonhos, não consigo compreender muito bem o fato de um candidato à prefeitura da cidade estar me ligando. Enigma devidamente resolvido no segundo seguinte:

“Queria agradecer ao povo de Americana por blablablabla..”

-FÉLADAPUTS, mano!

Fui acordada por uma gravação maldita, de um candidato querendo ganhar a minha simpatia forjando uma pseudo intimidade telefonal! Achei tosco, e por perder o sono, ainda cultivei uma raivinha de leve.

No mesmo dia, mais tarde, fui ao centro da cidade resolver uns trololós, e olhem só! Se não era o dito da ligação acima, num outdoor num dos pontos mais movimentados da cidade. Normal né, o cara se promovendo e tal. É, seria normal, se ele não estivesse com uma puta cara de babaca, e com aquela mãozinha de miss estendidinha (pro povo, né, gente, que lindo). Parecia um manequim de loja, argh, feio.

Daí tô lá, batendo perna pra cima e pra baixo, e me passa um carro chevete com auto falantes que diziam, numa melodia ridícula, que pra sorte de vocês eu não consigo reproduzir aqui:

“Cicranooo, cicranooo, tá na boca do povão!”

Parei, naquele momento da minha vida, e fiz um exercício simples: imaginei o meu pai no lugar do tal cicrano. E concluí que se ele se submetesse àquilo, eu abriria mão da herança, juro.

Minha gente, época de eleição é overdose de marketing pessoal FAIL.

É um festival de sorrisinho maroto na foto, quando todo mundo (incluindo os sorridentes) sabe que todo mundo sabe que aquela lá saía com o cara casado, o outro dá ré no kibe, o outro tenta ser candidato desde que o homem inventou a roda, o outro vende até a mãe, e o outro fecha o poço artesiano que fica no terreno dele, quando não vence. O brinquedo é dele, só brinca se ele brincar.

E quando o cara talvez, quem sabe, pode ser que seja uma pessoa de índole aceitável, não tem o suporte necessário pra ter uma faixa com sorrisinho maroto, e aí sai essas merdas todas.

Tipo o Théo. Nesses nossos tempos modernos, tentem adivinhar qual música o capiau escolheu pra chamar de sua, e gravar na cabeça do povo o seu belo nome de homem sério, competente e confiável.

Uma dica: rima.

Procurando não procurar

Quem nunca teve aquele momento completamente irrelevante na vida, sentado num ponto de ônibus, fazendo figas pro cachorro não conseguir mijar, ou percebendo que faz meia hora que está assistindo Dr. 90210 no E! e sentindo vergonha alheia própria, ou ainda olhando as placas dos carros e tentando lembrar o significado das combinações dos números, daquele joguinho que você aprendeu com 11 anos, e que você só lembra que 11= ele te ama, 22= ele está pensando em você e 77= ele está te traindo. Vergonha alheia própria de novo ao ver o tal 77 e ficar puta com isso.

Enfim, vamos dizer que esses não são exemplos do meu acervo pessoal, e tocar o texto, que eu perdi completamente o foco. O que eu ia dizer era: quem, num momento besta qualquer da vida, não parou e pensou um “tá faltando”?

Quando você vê um casal, e descobre que tá faltando a tua tampa, quando olha ao seu redor no trabalho e tá faltando algo que você realmente goste de fazer, quando se sente entediado, e tá faltando movimento. Sabe?

Então, é exatamente nesse momento que dá merda. Porque o ser humano não sabe ter paciência e lidar com o “tá faltando” até que algo aconteça naturalmente, ou como fruto de seu prórprio esforço. Ele bota o chapéu, empunha a carabina, e vai caçar.

Teoricamente, está tudo correto, lindo e brilhando, porque todo mundo, a vida toda, te manda ir atrás dos seus sonhos, e não esperar sentado. Dinheiro não dá em árvore, o homem faz o seu próprio destino e blablabla whiskas sachê, né.

Na prática, o problema é simples: quem procura, acha… até o que não queria achar. Por exemplo, quando você tá com fome, e não sabe o que quer comer. Você abre a geladeira, e fuça, e fuça, e nada te agrada. Você quer tudo, e não quer nada. Isso acontece simplesmente porque você não está com fome, e sim com vontade de comer. Qualquer coisa que você coma só porque pareceu bonito, vai te deixar estufado, e com mal estar.

Vamos transferir esse raciocínio pra uma coisa maior, então.

Amor. E disse a Aimee Allen: “All my stripper friends, all my ex-boyfriends, they all want the same thing“. Issaê, todo mundo quer uma história, tipo a do Dr. com a cabocla, dos livrinhos da Sabrina, das músicas do The Calling, dos.. sei lá, whatever.

Quando, por algum motivo, a coisa começa a apertar, seja porque todos os seus amigos estão namorando, ou porque a história que você queria viver não está mais sendo vivida e não há nada que você possa fazer, ou simplesmente porque é muito frio pra pouco cobertor, você arrebenta com a paciência que antes estava no piloto automático, e vai procurar alguém. Pronto, você deu start no modo catástrofe.

Certamente, existe um conjunto de características que você admira, tudo aquilo que você responderia se te perguntassem sobre homem/mulher ideal. Alto, baixo, magrelo, forte, gordinho, cabeludo, careca, nerd, rato de academia, e vai.

Só que em bilhões de pessoas nesse mundo, pelo menos umas TROCENTAS vão reunir duas ou mais dessas características. 🙂

Aí você olha o cara/menina com o cabelo verde limão, que curte escalar o himalaia tomando suco de uva e pensa: “pronto, mano, é isso. Paixonei.” Só que o indivíduo em questão é deveras promíscuo, intelectualmente inferior e tosco. E aí? E aí que você vai se descabelar, sofrer, chorar, e pronto, voltar pro menos 10, quando podia estar no zero. Sacou?

E isso pode se encaixar em deixar um trabalho por uma oferta melhor, que pode se mostrar não tão melhor assim, ou ainda, mudar até de cidade em busca de dias e oportunidades melhores.

Não que você não deva tentar. Se não tentar, pode nunca saber o que daria certo ou não. Mas faça com cuidado, com calma, com alma. A procura desenfreada sempre tem um motivo, alguma coisa que talvez nem você mesmo saiba o que é, mas que com certeza, te incomoda muito lá no fundinho (uahuahua), e por isso exige resultados imediatos, que acabam sendo moldados por nós, e nem sempre são a melhor saída pro desconforto inicial.

Depois de 9 meses, quase pra nascer (ouch), eu tô voltando pra casa. São Paulo podia ter cabelos verdes e escalar o himalaia tomando suco de uva, mas tinha pés mais frios que os meus, e não sabia discutir a relação.

A parte boa é que, lembrando tudo o que eu passei e aprendi, mas agora aqui do meu bom e velho quarto, respirando um ar gostoso e ouvindo a gritaria Bottânica na cozinha, eu sei que não tô nem no 0, nem no menos 10.

Eu fiz 5 combos seguidos, e bati todos os recordes. Game is not over. Game is mine again.

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Update: Self jabá pode? Bóra pra comunidade do Substantivolátil, povo! 🙂

Rockstar

E todo adolescente, no auge da acne e da rebeldia sem causa, já pensou em ter uma banda.

O meu fogo no rabicó começou muito antes, desde pirralha, quando eu imitava as coreografias dos Backstreet Boys e sabia que cantava bonitinho. No chuveiro, óbvio. Lá, eu ganhava até troféu, logo depois de ir pra outro planeta toda vez que mudava a temperatura da água pro frio.

No karaokê, eu e a minha prima éramos duas incríveis Tollers mandando Casinha de Sapê, loco.

Lá pelos 14, com cabelo vermelho, unha laranja, bolsa de acrílico do Mickey e saias de prega das mais variadas cores, fui me enfiar numa aula de violão. Foi lindo quando comecei a ouvir música saindo daquilo, mesmo que demorasse dois anos pra mudar o acorde.

Eis que comecei a pegar um pouquinhozinho de prática e quando consegui parir o dedilhado de Love in the Afternoon, rapai, só dava eu.

Até que ela surgiu no meu caminho. Suja, trapaceira, evil, destruindo meus sonhos de rockstar: a pestana. No dia que uma criança de cinco anos (com a mão do tamanho da minha) conseguir fazer isso, eu também conseguirei.

Eu sei que tem criança de cinco anos que faz isso, mas meu dedo torto complica tudo.

Tá, eu que sou uma imprestável.

Anyway, joguei a palheta toalha e esqueci a história. Até o dia em que, no meio da tarde, recebo uma ligação do ex-professor das artes cordísticas, dizendo que havia umas meninas querendo começar uma banda e que ele havia me indicado pra cantar.

Cuma!?

Na curiosidade, fui. Me botaram pra fazer a Avril e foi ridículo, que eu não aguento o tom da lombriga. Cantei tudo em falsete (que na época, eu te diria que era uma menina falsa, no máximo), mas as meninas, que também não sabiam budega nenhuma, acharam lindo, maravilhoso, UAU! E assim, viramos uma banda.

Nunca ganhamos dinheiro nenhum, mas aquela foi uma das épocas mais divertidas da minha vida. A banda “nasceu” no dia 8 de março e era formada por 5 mulheres. Lindo, né, gente? Todo um contexto e tal. O nome inicial era “Feministheory”, que ninguém sabia falar, daí foi traduzido e traduzam vocês, que eu vou me calar por questões de vergonha alheia. Enfim, era a TF.

A gente meio que sabia que aquilo não ia vingar como cada uma sonhava. Mas se é pra sonhar, então sonha direito, com pseudo-gravações, pseudo-músicas-próprias e pseudo-showzinhos-em-festa-de-amigos, concurso de escola (segundo lugar, fi) e… festa de halloween do clube da cidade, onde eu tinha que interromper o auê do putz-putz e conquistar a galera em 3 segundos pra não ser odiada.

A meia listrada até o joelho e o cabelo de água de salsicha devem ter despertado curiosidade, no mínimo.

Com as cinco raparigas no palco, o povo concentrou. E a gente se lascou de todas as formas. Cabo do baixo deu problema, corda da guitarra estourou, eu com uma vontade incontrolável de chutar a cabeça do lazarentinho tentando ver a minha calcinha.

No fim das contas, há uma grande possibilidade de ter sido uma bela merda e a galera ter gritado e pulado tanto apenas por conhecer a gente, ou por sermos um grupo de meninas. Nunca vou saber, pois ninguém lembrou de registrar o momento. Uma pena, né?

Não.

Foi a melhor coisa que fizemos. Pra nós, foi animal e ponto. A empolgação era tanta, que eu aguentei tons não antes aguentados e é só disso que eu quero me lembrar. Lembrar que os meus amigos ficaram orgulhosos da gente lá em cima. Lembrar que uma puta amiga minha que nunca saía praquele tipo de lugar tava lá na frente do palco, vibrando. Isso tudo tá muito bem registrado na cachola, onde não dá pra perder, nem rasgar, nem estragar, nem apagar.

Se eu ainda penso nisso? Mais do que deveria. A música me trouxe muito mais do que eu esperava dela. Daquele monte de cabos, cordas e ensaios atrapalhados, surgiram as pessoas que eu mais confiei na vida.

Enfim, venho matutando há algum tempo aqui em São Paulo, e cheguei a uma conclusão:

Lápis e papel no camarim, por favor.

Será?

The end of the world as we know it

E o Doni disse que o mundo pode acabar. Ele acabou de reafirmar no Twitter, e não faz o mínimo sentido eu vir correndo escrever esse texto pra dar tempo de alguém ler, se o mundo for acabar mesmo.

Então, na verdade, eu não estou escrevendo pra vocês, e sim pra mim mesma, pra tentar entender o porquê de não conseguir saber o que eu quero fazer agora se o mundo for acabar daqui a pouco.

Eu estou na agência, com os fones de ouvido, e fucking ironicamente está tocando “Keep The Faith” do Bon Jovi. Meu maxilar dói, como sempre dói, e eu já tomei dois comprimidos de Dorflex, e não ia tomar mais porque faz mal. Mas se o mundo for acabar mesmo, não quero passar as últimas horas com dor na merda do maxilar.

Péraê. Passei a manhã toda com vontade de comer uma trufa e não o fiz por que estou de dieta. Mas se o mundo for acabar isso não faz diferença, então aguardem um minuto que eu vou comprar uma.

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Pronto.

E nesse exato momento, essa trufa, esse pedaço de coisa doce me confirmou que eu sou uma panaca. Porque ela é tradicional. De novo. Nem perto do fim do mundo eu consegui experimentar um sabor novo de trufa.

Aliás, eu não queria uma. Eu queria cinco, DEZ trufas. Queria me entupir de trufa até vomitar. Mas não tenho coragem. Como também não tive coragem de xingar o cara que me esmagou no elevador na volta, pra subir apenas um andar. E isso apesar de o tempo lá fora estar cinza, colaborando com o clima de fim do mundo.

Sentada aqui, eu fico pensando nas coisas que eu faria. Quando na verdade, tudo o que eu faria seria pensar no que eu faria. Porque se eu fosse mulher, pegaria esse telefone e ligaria pra falar um “If I give up on you, I give up on me”, ou uma frase cafona do Bon Jovi pra dizer que eu não aguento mais não ter ele aqui, ou pra mandar pra puta que o pariu, porque ele tá fodendo com a minha vida e com a minha sanidade.

Entraria no Orkut daquela lambisgóia e diria pra ela que ela parece o Costinha. Porque ela parece mesmo e eu odeio ela! Sairia dessa cadeira AGORA e pegaria o ônibus pra Americana porque é onde eu queria estar, com a minha familia. Mas antes disso, passaria na lanchonete e diria pro carinha de lá que é RIDÍCULO quando ele me chama de anjo azul e que ele não vai conseguir nada comigo me dando chocolates, NUNCA.

Mandaria pro inferno todo mundo que está me interrompendo enquanto eu tento raciocinar e escrever esse texto.

Tiraria os fones de ouvido, e cantaria pra todo mundo aqui ouvir, como eu estava cantando ontem à noite, só porque estava sozinha. Eu canto bem, e nunca deixo ninguém ouvir. Pintaria meu cabelo de novo, porque eu queria ter nascido morena. Falaria pro menino que senta do meu lado que eu NÃO SUPORTO ele fazendo aquele barulho com o nariz, e que é nojento!

Se eu fosse mulher, eu desabaria a chorar aqui mesmo, agora, porque é o que eu tô com vontade de fazer. E jogaria uma garrafa na cabeça daquela menina que me encara com aquela fuça esnobe no banheiro.

Mas eu não vou fazer nada disso. Simplesmente porque eu já devia ter feito. Não deveria ser a proximidade do fim a única coisa que iria me convencer a fazer todas as coisas que eu quero fazer. Todos os dias da minha vida, ao acordar, poderia ter sido meu último dia. Eu sempre pensei que podia cair, bater a cabeça no meio fio e morrer. Eu tentei dizer isso tantas vezes, e ninguém nunca me entendeu.

É por isso que eu jogo cadeiras quando brigo, bato e peço desculpas num intervalo de cinco minutos, xingo e digo que amo, por isso que eu já saí da minha casa às duas da manhã pra bater naquele portão, e nunca quis deixar pra terminar uma discussão no outro dia. É por isso que pego o ônibus e viajo depois do expediente pra voltar na manhã seguinte e nunca tenho paciência. É por isso que eu errei tanto a minha vida toda, e me arrependi em seguida. É por isso que eu acertei tanto também.

Se o mundo acabasse amanhã mesmo, eu teria certeza absoluta que tentei de todas as formas, com todas as pessoas. Todos eles sabem o que devem saber. O quanto eu sou descontrolada, nervosa e briguenta, o quanto eu os amo com todas as minhas forças, e que se eu tivesse sete vidas, daria todas por cada um deles, sem pensar uma vez sequer.

Eu não quero, e não vou comprar um sabor novo de trufa. Porque é a tradicional que eu amo.

Who says you can’t go home?

E roubaram minha carteira. Não foi hoje, não foi ontem, faz quase dois meses. Eu, como a mula relapsa que sou, demorei 2 semanas pra fazer o boletim de ocorrência. Achou feio? Então vou te dizer que fui pra Americana e peguei minha permissão pra dirigir (vencida) pra usar como documento e nunca mais lembrei de ir atrás da segunda via de RG, CPF, CNH, PT, RPG, IPTU, CPMF,TPM, etc.

E foi aí que eu descobri que eu não sou ninguém sem aqueles pedacinhos de papel e plástico. Diacho.

Tipo quando minha garganta inflamou, depois de dois dias sem dormir e sem comer, chegou o meu cartão do convênio. “nossa, que sorte!”

Mas sem um documento com foto, eu não podia provar que eu era eu e não iam me atender. Como eu estava num estado deplorável, a atendente ficou com dó e deixou passar. Talvez tenha sido depois que eu implorei pela benzetacil.

Mas no banco, não teve choro, nem vela, nem fita amarela, como diria a mãe Bottan. Sem o cartão, fora da sua agência, você não faz porra nenhuma. Só saca uma quantia ridícula e se o documento é uma permissão vencida, todo mundo te olha torto. Não interessa se vc depositou mil e tá sacando cem, nem se você tem um metro e meio, olhos azuis e bochechas rosadas.

Daí que pra pagar o aluguel, eu ia ter que sacar o dinheiro de uma vez na agência onde abri a conta… em Americana. Isso significava tirar um dia de folga e passar o bendito por lá. Estiquei o fim de semana e acordei no interior, numa segunda feira ensolarada, com o telefone tocando e eu trombando com as paredes pra chegar até a cozinha e ouvir a minha mãe me mandando não voltar pra cama. Agora sim, home. 🙂

Tomei um banho e fui pro ponto de ônibus. O ponto de ônibus de toda a minha vida. Ponto de partida pra ir pra escola, pra aula de violão, pra ir pro ensaio da banda, pra ir pro trabalho, pra terapia, pra faculdade, pra ir encontrar o amor da minha vida e pra fugir dele.

Sentada antes da roleta, espiando os velhinhos faladores que batiam papo com o motorista, eu ria sozinha. Eu não sabia que sentia falta daquilo. Me perguntaram da família e da vida.

Ao passar pela roleta, entreguei o dinheiro e o cobrador me empurrou de volta a moeda de cinqüenta centavos. “São dois reais! E pra mim tá caro menina, você se lembra de quando era um e pouco?”.

Passava um pouco da hora do almoço e algumas pessoas descansavam na praça, resmugando por ter que sair do solzinho bom e voltar ao trabalho. Assim como eu costumava sentar na praça. Como a gente costumava sentar na praça. A praça que tem uma barraca com o melhor sorvete de doce de leite do mundo. A senhorinha da barraca me perguntou por que eu sumi.

Entrei numa loja pra fazer compras. O cadastro não existia mais, mais de um ano que eu não aparecia por lá. Mas a moça disse: “Você é a amiga da Marcela, eu lembro de você, sem problemas!”.

Cheguei ao banco com preguiça do tanto que eu ia ter que me explicar e com medo de dar rolo com o documento vencido x quantia grande que eu precisava sacar.

Mas quando fui ao balcão de informações, a menina disse: “Ei, você não é a filha da Eliana?”. Sim, eu sou. E a menina era minha prima de segundo grau. E tudo se resolveu. Na fila, encontrei um amigo e falei sobre pessoas conhecidas e lugares conhecidos, ao invés de comentar o clima.

É incrível como quanto mais paulistana eu me torno, mais eu me aproximo do interior. Morar numa cidade enorme, cheia de números e estatísticas, onde é tudo tão impessoal, te faz pensar que não dá pra viver sem pertencer a um lugar onde você seja a amiga da Marcela, a filha da Eliana, a menina que sempre compra o sorvete de doce de leite ou que senta antes da roleta até perto do destino. Todas aquelas pessoas me conhecem, conhecem a minha história e eu sempre achei isso um pé no saco. Odiava que me julgassem ou achassem que sabiam da minha vida.

Hoje, eu só consigo pensar no quão indispensável é ter um lugar onde eu seja mais que um pedaço de papel plastificado. Até porque eu não tenho segunda via.

Rala o coco, mexe a canjica

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Pra mim, Dezembro tem cheiro próprio. Já me disseram que é por conta de uma tal árvere árvoro árvore que floresce só na época, mas eu me recuso a engolir. Dezembro cheira diferente por conta do natal. Assim como os meses de Junho e Julho tem seu cheirinho particular por conta das festanças caipirescas. É realmente uma pena que, assim como o natal e os aniversários, as festas juninas/julinas percam a graça conforme a gente vai acumulando velas no bolo.

Aqui na capital, o mais perto que eu cheguei das tradições interioranas até o presente momento, foi no almoço de hoje, com bandeirinhas decorando o restaurante e os garçons vestidos com camisas de flanela, servindo um quentão digrátis. Ainda assim, num miserê…

Enfim, eu tenho saudade das festas juninas, ainda que nunca tenham sido, exatamente, dias de glória. Porque analisando bem, eu sempre me fodi nos pseudo-relacionamentos-quadrilhísticos:

Fui noivinha na dança por uns anos. Minha mãe me fez um vestido lindo, a partir do vestido de noiva dela. No primeiro ano, me escolhem um capeta alado de noivo. No outro, o menino era lindinho, mas eu estava banguela. Mas tipo, MUITO banguela.

Num outro ano, o meu par empaca. Na gravação, a ameba do moleque parado, com cara de coruja, e eu empurrando: “Daaaança, Thiaaaago!”. Num outro ainda, a pomba caga na camisa do meu par minutos antes da dança e ele quase desiste, ao invés de simplesmente limpar a merda.

Mas teve o pior, o mais traumatizante da minha infância, que foi quando o menininho por quem eu nutria um amorzinho platônicozinho, disse que preferia dançar com um cachorro do que comigo. Aquilo doeu. Renan era o nome do maldito.

Anos depois, eu disse isso pra ele de volta. Mas o trauma ficou.

Apesar dos pesares, não dá pra negar a delícia que era. Escolher a roupa (ou fazer um exchange com as primas), cortar bandeirinhas, ensaiar a quadrilha, numa expectativa só. E no dia, virar a estrela da festa, com maquiagem e tudo (mesmo odiando aquelas pintas estúpidas). Aquela criançada enfileirada desenfileirando, a professora louca com aquela massa colorida de crianças enchapeladas, pisoteando no “olha a chuva!”, e incapaz de fazer aquela ciranda maldita de meninos pra fora, meninas pra dentro, e cruza a mão, e roda, e volta, e cruza, e putaquepariu, que foda!

Tudo devidamente documentado em empoeiradas fitas VHS, que precisam, urgentemente, virar DVD.

E no interior a coisa não pára em festinhas de escola. Nessa época do ano, é só ter saco e gasolina, que rodando pela cidade você pode encontrar as festinhas de bairro. Essas sim, com a vizinhança cheia de quentão e vinho quente, e aquela gorda da casa da esquina com chapéu de trancinhas loiras achando que consegue, bêbada, pular a fogueira do terreno baldio, essas são sensação.

E pelo amor de Santo Antonho, Rodeio não é equivalente à festa Junina. A sigla FDP, definitivamente, não é mera coincidência. Festa do Peão é o lado negro, feio e gordo da coisa, onde todo mundo se entope de pinga com mel pra ver um touro com o saco apertado, pulando com uma anta em cima, uma tradição que nem nossa é, ao som de Bruno e Marrone.

Que infelizmente, são nossos.