Domésticas
Meus pais sempre trabalharam fora. Aquela coisa de brava gente mesmo, pulando de negócio em negócio, tentando não ser um assalariado maldito pro resto da vida. Meu pai, por exemplo, já foi padeiro, açougueiro, vendedor/representante, comerciante, torneiro mecânico e mais algumas coisas que não exigissem mais de um metro e sessenta e três de altura (porque vem de algum lugar esse meu um metro e meio, óbvio).
Então, mas nessa dos meus queridos progenitores trabalharem feito mulas, a cria ficava ao Deus-dará. E o que Deus deu? As domésticas.
Tem famílias que contratam uma pelo resto da vida. Transformam ela em assalariada e amiga. Uma conhecida minha foi praticamente criada pela empregada. Mais de dez anos que a sujeita trabalha lá, todos os dias da semana. Resultado: hoje ela mesma já não faz merda nenhuma e ainda reclama quando os “patrões” sujam alguma coisa. Totalmente não-funcional.
Já na minha casa o esquema é outro. Minha mãe sempre contratava alguém apenas pra fazer a faxina mais pro fim da semana, ou no máximo pra ficar meio período, quando eu e minha irmã éramos mais novas.
Devo dizer, caros leitores, que as maiores figuras que já conheci limpavam o meu banheiro.
Umas eram descontroladas, outras engraçadas, outras extremamente puritanas, ou ainda teenagers (de espírito), mas todas doidonas. Era engraçado. Uma boa forma de analisar a humanidade, é ter várias domésticas por perto. Mas uma de cada vez, senão você é quem morre doido.
A Lu trabalhou em casa quando eu era bem novinha, mas eu me lembro de um único episódio totalmente inexplicável. Seguinte, várias das infelizes que tiveram o duro cargo de tomar conta da Mirian versão batutinhas pediram demissão. Muitas, sem brincadeira. A minha família toda tem muita história pra contar sobre a minha pessoa enquanto criança. Eu era o cão de saia. Ou cãozinho. De sainha.
Enfim, você vai trabalhar numa casa onde tem que cuidar de um capeta. Se não aguentar vaza maluco sai que a fila anda. Simples. Você NÃO DEVE se arriscar quando seus nervos estão em frangalhos. Não é saudável. A lembrança que eu tenho, é da dita cuja Lu trancafiada no banheiro chorando e soluçando, e eu na porta pedindo desculpas pra ela, tipo: “Lu, por favor, não conta pro meu pai! Desculpa! Desculpa!”
Sério, o que uma criança de CINCO anos, no máximo, poderia ter feito pra desesperar e desmontar uma mulher feita? Eu não me lembro o que era, mas hoje me parece meio impossível. No mínimo, a pessoa mais descontrolada que eu já conheci.
Depois veio a Ana. Gordinha, baixinha e simpática. A típica gordinha legal, que vive rindo, sempre com aquela camisetinha suja de água sanitária. Um belo dia, me aparece a Aninha pilotando uma puta duma moto três vezes maior que ela. Um tempo depois, encontro a Ana na rua, toda vestida de couro, com o namoradão barbudão motoqueiro. A moto dela era maior que a dele. Aquilo não fazia sentido. Pasmei. Ficamos amigas, óbvio. Ela encobria todas as minhas cagadas e vice-versa. Saudade da Ana.
Teve também a Rose que era mega fã dos Backstreet Boys, na mesma época que eu. A diferença é que eu tinha 12 anos e ela 29. Uma vez ela me emprestou um cd deles pra eu gravar. Era o único que eu não tinha. Dei balão na coitada, tô com o cd até hoje, que mancada.
A Jacilene era legal, mas não falava nada. Só ria. Nunca ouvi a voz da infeliz, eu falava sozinha o tempo todo. Um dia desisti. Daí pra frente minha vida parecia um filme mudo com ela por aqui. Rindo e se expressando pelos olhos. Quase um treinamento teatral.
Mas a mais super mega ultra doida era a Adriana. Baiana e evangélica, vivia tentando me converter. “Si apégui cum Deus, Mira” o tempo todo. A desgraça era fresca que só. Quando a coisa estava corrida, minha mãe trazia comida de algum restaurante, e uma vez rolou o seguinte diálogo:
-Adriana, vou buscar comida, qual tipo de carne você prefere?
-Ãiin dona Eliana, pa fala verdade, eu num gosto muito de cumida de marmita não, viu.
-Mas então o que você vai comer!?
-É, né… faz assim, traiz só legume então. Aí eu como, vai.
COMO ASSIM!? Além de trazer comida do restaurante pra ela, a bichinha ainda reclama! Sem contar o dia em que a minha mãe fez um (e)strogonoff. Ao colocar na mesa, perguntou: “Gosta, Adriana?”
Resposta? “Ahh, dona Eliana, o seu tá meio branquinho, né? eu gosto mais vermeinho.”
Ou o dia que a minha mãe estava fritando linguiça, quando de repente, Adriana solta: “Noossa, dona Eliana, se a senhora sobesse do qui é feito isso a senhora nunca mais comia!”
Quando minha mãe: “Pô Adriana, chega vai! Não quero saber de nada, fica quieta!”. Boa.
Ah, teve a última delas. Trabalhou três semanas, roubou cinco sabonetes e sumiu. Aí minha mãe resolveu ME pagar pra limpar a casa. Aceitei, tava aqui sem fazer nada mesmo. Na verdade, dá licença que eu ainda não acabei lá na cozinha. Tchau, gente.



Eu tenho um sério problema quanto a lidar com dinheiro: eu não sei fazer isso. Tudo culpa dessa sociedade capitalista d’uma figa, que sempre me ensinou que dinheiro na mão é vendaval










